Consultório do Investidor
- Perante a actual crise nos mercados financeiros, o Diário Económico, em parceria com várias entidades, criou o Consultório do Investidor, com o objectivo de responder às dúvidas e questões dos nossos leitores.
Envie as suas questões para consultoriodoinvestidor@economicasgps.com
As respostas são publicadas semanalmente no caderno de Finanças Pessoais, que se encontra nas bancas todas as sextas-feiras, sendo posteriormente divulgadas nesta página. Esta semana a resposta é da autoria dos especialistas do banco Carregosa/GoBullling.
O Diário Económico reserva-se o direito de fazer uma selecção das questões e respectivas respostas.
- Edição de 8 de Abril de 2011
O que pode acontecer aos meus fundos de investimento se a dívida pública portuguesa receber ‘downgrades' por parte das agências de rating que a classifiquem ao nível de ‘junk'?
A Schroders explica que há várias possibilidades, dependendo da natureza dos activos em que os fundos investem. Obviamente se investirem na dívida pública nacional verão a sua cotação directamente afectada pela desvalorização consequente das obrigações do tesouro. Se investirem igualmente em dívida de outros emitentes portugueses, já que seria altamente provável que esses emitentes sofressem ‘downgrades' também. Investimentos em acções nacionais podem ser afectados pela percepção de menor actividade económica que acompanha as medidas adicionais de consolidação fiscal que a situação requer. Por último, fundos de investimento em activos estrangeiros não seriam afectados, sejam eles geridos por gestoras nacionais ou estrangeiras. É importante recordar que os fundos de investimento constituem um património autónomo em relação ao património do banco no qual está depositado. Isto significa que se a sua preocupação reside na possibilidade de a situação de ‘downgrade' de dívida pública para esse nível poder causar um problema no sector financeiro, especificamente no banco no qual tem depositados os seus fundos, e que por essa via se arrisque a que o valor desse seu património seja afectado, poderá ficar mais descansada.
Os ‘downgrades' a que a dívida pública portuguesa tem sido sujeita resultam da previsível dificuldade que o Tesouro terá em cumprir com os seus compromissos financeiros, evento cuja probabilidade tem vindo a aumentar ao longo dos últimos meses. As avaliações assim explicitamente feitas pelas agências de ‘rating' têm andado a par da avaliação que o mercado obrigacionista tem feito da evolução desse risco e que tem sido traduzida numa contínua desvalorização dos títulos de dívida pública no mercado. Isto acontece porque esses títulos são de taxa fixa. Os mercados exigem hoje juros superiores aos que exigiam ao Tesouro quando as obrigações actualmente existentes foram emitidas e a sua taxa foi fixada. Como tal, e perante a alternativa de investir hoje a taxas superiores, aquelas obrigações emitidas a taxas mais baixas perdem valor relativo e a sua cotação cai. Isto é evidentemente mau para quem tenha investido nelas há mais tempo, e cria potenciais oportunidades para quem acredite que a actual taxa reflecte de forma justa o risco de investimento. O efeito nos fundos pode ocorrer por via das oscilações de preços dos activos nele contidos.
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- Edição de 25 de Fevereiro de 2011
O Estado Português paga as taxas de juro propostas pelos concorrentes aos leilões, ou aquelas que diariamente aparecem na imprensa como negociadas no mercado? Como se formam as taxas?
Filipe Silva, responsável pela área de Dívida do Banco Carregosa explica que as taxas de juro com que o Estado português se endivida são as taxas fixadas no momento da emissão da dívida. Quando se referem as condições a que foi feita uma emissão de dívida (leilão) são essas as condições a que o Estado português contraiu o empréstimo. Normalmente, as notícias referem-se à taxa do rendimento total que esse título de dívida dará ao investidor: esta taxa (taxa yield) inclui duas fontes de rendimento para o investidor (e de custos para o emitente Estado): a taxa de juro periódica paga pelo cupão (rendimento fixo pago anualmente) e o rendimento que resulta da diferença de preço a que o investidor comprou a OT face ao preço que vai receber. No final do prazo da dívida (maturidade, que pode ser entre um e 50 anos) o investidor tem direito a receber 100 por cada OT, mas pode tê-la comprado na emissão abaixo desse valor (abaixo do par), entregando, por exemplo, 99. Do desconto do preço face à maturidade e do rendimento periódico pago pelo cupão, resulta o rendimento total da Obrigação. Os Bilhetes do Tesouro (BT) não pagam cupão e a maturidade nunca é superior a 12 meses.
Concluindo, o Estado endivida-se nas condições fixadas no momento em que contrai o empréstimo (normalmente sob a forma de leilão). Nesse momento, a taxa que resulta do leilão é a média das taxas oferecidas pelos investidores (intermediários financeiros, tipicamente, bancos). Cada concorrente ao leilão apresenta uma proposta e o IGCP encontra a taxa média das ofertas que recebe até à taxa de corte (taxa a partir da qual decide não vender dívida).
Mas nas notícias o leitor pode ver referências a taxas da dívida praticadas diariamente. Nesse caso, trata-se das taxas indicativas (sobre as intenções de compra e de venda) que existem no mercado secundário (onde os investidores, depois da dívida emitida, a compram e vendem entre si), cada um dizendo ao preço a que está disposto a vender ou a comprar. Estas são as chamadas taxas ‘yield' do mercado secundário. Neste momento, o Estado não está a pagar estes valores (trata-se de valores a que os investidores negoceiam entre si), mas a verdade é que as novas emissões de dívida têm sempre em conta o que está a ser feito pelo mercado. Destas taxas não resulta um custo directo e imediato a pagar pelo Estado, mas resulta uma influência e um sinal para as novas emissões que tendem a aproximar-se dos valores praticados pelo mercado.
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- Edição de 4 de Fevereiro de 2011
Os últimos números apontam para uma subida da inflação. Tendo em conta esse cenário, quais são os activos que mais beneficiam da subida dos preços?
A Schroders explica que os mercados financeiros trabalham sobre expectativas. Isto significa que antes da taxa de inflação começar de facto a subir, a expectativa de que o venha a fazer será suficiente para que os investidores comecem a ajustar as suas carteiras. Uma taxa de inflação mais alta no futuro, com tudo o resto constante, fará com que a rentabilidade real do investimento em títulos de rendimento fixo, como obrigações, seja inferior. Para repor a sua rentabilidade real os investidores passam a exigir uma taxa de juro superior, e a cotação das obrigações é negativamente afectada.
As autoridades monetárias também tendem a ter um baixo nível de tolerância perante expectativas de inflação acima de 2%. Se considerarem que a inflação está a aumentar devido a pressões de procura, tenderão a subir as suas taxas de juro por forma a influenciar no mesmo sentido as restantes taxas do mercado, e assim "arrefecer" um pouco a economia e aliviar as pressões sobre os preços. Esta subida de taxas de juro produz igualmente uma queda nos preços das obrigações. As obrigações que são mais afectadas são as de dívida pública, já que dependem quase exclusivamente do nível de taxas para a formação do seu preço. Por outro lado, o nível de actividade económica mais elevado, que está na origem da subida da inflação, tem efeitos positivos sobre outras classes de activos. As obrigações de empresas, por exemplo, são em parte negativamente afectadas pelo aumento de taxas, mas por outro lado positivamente afectadas pela redução do ‘spread' de crédito que o mercado lhes exige, já que a actividade económica mais elevada que está na origem da inflação permite também um aumento de actividade das empresas, e por essa via uma melhoria da sua qualidade de crédito. O efeito da subida de taxas é portanto mitigado. Este efeito é tanto mais mitigado quanto mais importante for a consideração de risco de crédito versus o risco de taxa de juro. As obrigações de alto rendimento ('high yield') têm um efeito positivo ainda mais acentuado por via da melhoria da qualidade de crédito. Por último temos as acções, cuja sensibilidade às taxas de juro é muito menor quando comparada com os benefícios da melhoria de resultados resultante do aumento da actividade económica.
Entre uma e outra classe de activos estão as obrigações convertíveis que, como o próprio nome indica, são convertíveis em acções a pedido do obrigacionista, e costumam ter também um comportamento positivo perante receios de inflação. Existem outros instrumentos que podem ter um comportamento positivo com a subida de taxas de juro como por exemplo as obrigações de empresas de cupão indexado às taxas de curto prazo (por oposição a serem de taxa fixa até à maturidade), mas a sua rentabilidade no início de um ciclo de inflação e subida de taxas é baixa e, por essa razão, inicialmente menos interessante.
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- Edição de 14 de Janeiro de 2011
Na opinião dos especialistas da Gobulling quais serão os factores determinantes para a evolução das acções portuguesas em 2011?
Em 2010, Portugal protagonizou várias manchetes financeiras internacionais, nem sempre pelos melhores motivos. Embora as preocupações se tenham centrado sobretudo na questão do endividamento nacional e da sustentabilidade das contas públicas, os investidores/mercados projectaram também esses receios para o panorama microeconómico.
O PSI-20 encerrou o ano com uma perda significativa, em linha com os outros índices das economias da periferia da Europa (os GIPSY) e deixou muitas questões em aberto para 2011. No entanto, o desempenho individual dos títulos, reflectido na enorme diferença entre os melhores e os piores do PSI-20, não deixou dúvidas quanto às maiores "estrelas" e às maiores "desilusões" em 2010.
Mas será o "risco-negócio" reflectido no desempenho das cotadas nacionais equivalente ao "risco-país" - reflectido nos cortes de ‘rating' e nos elevados juros da divida nacional? O seu desempenho reflecte justamente esse risco ou haverá pechinchas" e oportunidades para explorar? E quais os factores determinantes para um bom desempenho do nosso mercado em 2011?
Para além dos factores específicos de cada sector e de cada empresa, estamos estruturalmente dependentes do desempenho dos mercados internacionais, pois só a estabilidade dos resultados / ganhos de capital e o aumento da confiança e do apetite pelo risco dos investidores vão permitir que se explorem oportunidades no mercado nacional.
Internacionalmente, as manchetes económicas de 2011 vão estar orientadas por quatro pontos cardeais que vão ser determinantes:
Na Europa, a evolução do risco da divida dos países da zona euro e da capacidade de coesão e decisão dos seus líderes; A Oeste, os mercados norte-americanos vão depender da evolução dos níveis de emprego e de confiança dos americanos, que alimentam os mercados de capitais; A Oriente, os olhos vão estar postos na China e na sua capacidade de conter os níveis de inflação e o ritmo de crescimento da sua economia; A norte e a Sul, nos mercados emergentes, os investidores vão cobrar das promessas de "El Dorado', exigindo fortes crescimentos e retornos elevados.
Mas, para um bom desempenho global do nosso mercado de acções, o factor crucial para restabelecer a confiança dos investidores e abrir o "apetite" pela bolsa nacional, vai ser a capacidade do país e de cada uma das empresas, de honrar os compromissos assumidos e atingir as metas delineadas para os desafios de 2011. Em duas palavras: mostrar resultados.
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- Edição de 7 de Janeiro de 2011
É possível saber como vão evoluir as taxas de juro no crédito ao consumo este ano? Será que vão seguir a mesma tendência de subida que se verifica no crédito à habitação?
Susana Albuquerque, secretária-geral da ASFAC - Associação de Instituições de Crédito Especializado- explica: Desde Janeiro de 2010 que as taxas de juro no crédito ao consumo são reguladas pelo Banco de Portugal. Trimestralmente, e com base na média dos juros praticados pelas instituições financeiras, o regulador define os limites máximos, por categoria de crédito, das TAEG para os vários tipos de crédito ao consumo.
Para além dos tectos de referência, a taxa é definida de acordo com o risco de cada operação concreta: tipo de rendimento do cliente, profissão, existência de garantia ou não, etc. É com base nestas taxas que as diversas instituições financeiras actuam no mercado de crédito especializado, concorrendo entre si, tendo sempre como tecto os limites máximos indicados pelo regulador. Os consumidores que estejam a ponderar recorrer ao crédito devem conhecer o limite definido pelo Banco de Portugal, para o tipo de crédito que pretendem contratar, uma vez que esta informação lhes permite não só saber qual o valor máximo que poderá pagar, mas também e, sobretudo, para negociar com as instituições financeiras a melhor taxa.
Em suma, podemos dizer que, tendo em conta a legislação e a concorrência entre os vários players não se esperam grandes alterações face ao registado em 2010.
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- Edição de 17 de Dezembro de 2010
Quais as consequências para um investidor no que respeita ao valor dos seus activos num quadro admissível de Portugal sair do Euro e voltar ao Escudo? Perante a eventualidade dum cenário deste, quais as aplicações mais adequadas para não haver perda de valor?
Segundo a Schroders, a saída de Portugal do Euro é um cenário altamente improvável. Os custos económicos e políticos associados, e as repercussões noutros Estados membros, fazem-nos acreditar que será algo a evitar a todo o custo, por todos. A situação é sem dúvida séria mas as declarações dos responsáveis políticos europeus, de ambos lados da questão, fazem-na parecer ainda mais volátil. A verificar-se o cenário improvável que refere, as maiores consequências seriam para quem tivesse activos nacionais, fossem eles depósitos, títulos de dívida ou acções, detidos de forma directa ou indirectamente através de fundos, dado que estariam sujeitos aos efeitos cumulativos da desvalorização cambial e a eventuais renegociações de crédito, ao impacto no negócio das empresas emitentes, a alterações do enquadramento fiscal e a restrições no acesso ao património depositado.
Se mais nada fosse dito, a solução pareceria ser trocar todos os activos nacionais por estrangeiros, ou no estrangeiro. O facto é que o mercado, perante o aumento do risco de menor crescimento económico e eventual incumprimento, foi ajustando os preços das obrigações e acções nacionais. Após as recentes quedas, a sua rentabilidade futura é agora superior, quer em absoluto quer em relação às alternativas. A decisão de manter ou não activos nacionais não deve, portanto, ser tomada com base no nível absoluto de risco sentido hoje - esse já está reflectido nos preços e rentabilidades futuras - mas na percepção que se tenha do futuro aumento ou diminuição desse risco. Caso o risco específico de Portugal venha a aumentar, os activos nacionais continuarão a desvalorizar em termos relativos. Caso contrário, produzir-se-á o efeito oposto e quem esteja investido em activos nacionais e os troque agora por activos estrangeiros terá perdido no primeiro movimento e perderá novamente - ou deixará de recuperar - no movimento seguinte.
A carteira que descreve parece estar demasiado concentrada: há uma única variável - o risco-país de Portugal - que afecta todos os seus investimentos ao mesmo tempo e no mesmo sentido. A solução para reduzir a amplitude do intervalo de resultados possíveis é diversificar os seus investimentos, incluindo uma parte de activos não nacionais: caso o mercado nacional recupere, a carteira não recuperará tanto, mas caso a situação se deteriore, temporária ou definitivamente - o que não é o nosso cenário central - limitará as suas perdas.
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- Edição de 10 de Dezembro de 2010
Para uma pessoa que queira investir directamente em acções de mercados mais exóticos (como da América Latina, África ou Ásia), que cuidados deve ter em conta? É possível investir directamente nessas bolsas? E quais os custos?
Pedro Oliveira, ‘trader' da GoBulling explica que nem todos os mercados fora da Europa ou da América do Norte podem ser chamados de "exóticos". Habitualmente, chamamos exóticos aos mercados pouco conhecidos, pouco líquidos ou de pequena dimensão, localizados em países sobre os quais sabemos pouco. Dito isto, há muito que os mercados deixaram de ter fronteiras geográficas e de qualquer ponto do globo é possível negociar em qualquer mercado. O avanço das novas tecnologias tornou esse processo mais acessível e mais barato.
Um investidor que queira negociar em mercados mais distantes deve, acima de tudo, procurar conhecer o mercado onde vai investir: a sua liquidez diária, e das empresas em que pretende investir, estudar o sector onde a empresa opera, conhecer o histórico de dividendos e rumo que é dado às receitas anuais. Para além disso deverá também prestar atenção ao risco cambial. Ao negociar em mercados com moedas diferentes do euro, deve ter em conta o comportamento da moeda desse país acompanhando, sempre que possível, as intervenções do Banco Central respectivo. A quem investe em mercados fora da zona euro, aconselha-se que faça cobertura do risco cambial: se investir 100 euros em acções australianas ou brasileiras deve, por exemplo, abrir uma posição vendedora de dólares australianos ou reais, que anule eventuais perdas na moeda utilizada nas transacções.
Na plataforma GoBulling PRO é possível investir directamente nas bolsas Asiáticas (mercados australiano e japonês). Já quanto às acções de mercados africanos e latino-americanos é possível fazê-lo mas apenas através de ADR's (American Depositary Receipt), ou seja, acções desses mercados que estão cotadas no mercado norte-americano em dólares.
Em relação aos custos cobrados não podemos estabelecer uma relação directa com o desenvolvimento das bolsas. As comissões cobradas dependem de diversos factores. Para dar um exemplo, na GoBulling a comissão cobrada para transaccionar acções norte-americanas é de 0,02 por acção. A comissão aplicada a transacções no mercado australiano é de 0,15% sobre o montante investido.
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- Edição de 19 de Novembro de 2010
Porque é que os fundos de tesouraria tiveram tão mau desempenho durante a crise?
Os fundos de tesouraria podem investir em títulos de crédito cotados, com maturidades curtas e elevada liquidez. Estes títulos têm o seu preço definido em continuo pelo mercado e esse preço oscila. As oscilações são consideradas na altura de definir a composição de carteira, para minimizar o risco de ocorrência de casos como os que refere. Mas esse risco não se pode eliminar por completo. Apesar de improvável, não é impossível que a uma parte dos títulos, ou mesmo todos, desvalorize de tal forma que o valor total da carteira do fundo, que inclui outros activos, se reduza, gerando uma rendibilidade negativa para os clientes. Quando tal acontece é por uma de duas razões: ou o gestor se enganou ao deixar na carteira títulos cuja qualidade de crédito se degradou, com repercussões negativas nos seus preços, ou quem se enganou foi o Mercado, que temporariamente deixou de funcionar como um bom mecanismo de determinação do valor das coisas. Em 2008 e 2009 houve um pouco das duas coisas. É evidente que se cometeram imprudências e certamente muitos gestores aprenderam uma importante lição no que toca à identificação clara de riscos de crédito e liquidez. O que não é tão evidente nem tão discutido é que o Mercado também se enganou durante bastante tempo, fazendo cair de forma quase igual os preços de bons e maus títulos.
Este Mercado não é nenhum ser superior dotado de inteligência suprema, mas antes manifesta a inteligência colectiva de todos os investidores que nele participam, e como tal está infelizmente sujeito aos mesmos extremos emocionais de ganância e pânico. Se a esta componente emocional de base acrescentarmos o facto de que demasiados investidores baseiam as suas decisões em modelos idênticos - agências de ‘rating', modelos de VaR, limites mínimos de ‘rating' - temos a receita ideal para que em determinadas circunstâncias este grande grupo de profissionais racionais se transforme numa multidão em fuga. Uma vez iniciado, este movimento alimenta-se a si mesmo e demora muito até, um a um, indivíduos voltem a pensar por si e se queiram demarcar da multidão irracional. É claro que existem gestores que identificam estes fenómenos pelo que realmente são, mas infelizmente não formam uma maioria.
Por último um ponto que nunca é demais referir: todos os investimentos têm risco, o que significa literalmente que têm uma probabilidade superior a zero de que a rentabilidade obtida não seja a esperada. O investimento num fundo de tesouraria tem risco. O risco é baixo, os eventos de 2008 e 2009 foram a todos os títulos extraordinários, e muitos fundos bons, sem qualquer problema nas suas carteiras, também foram temporariamente afectados. Mas o que é facto é que foram afectados e que os clientes que resgataram antes do Mercado ter recuperado a razão perderam dinheiro. E os que não resgataram apanharam um susto. Nestes casos estas perdas definitivas ou temporárias eram indissociáveis da rentabilidade pretendida. Um gestor que queira eliminar toda e qualquer possibilidade de que isso volte a acontecer eliminará toda e qualquer possibilidade de que o seu cliente tenha a rentabilidade que pretende - e isso o cliente não quer. O risco é o preço a pagar pela rentabilidade, e nada se obtém a troco de nada.
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- Edição de 12 de Novembro de 2010
Tenho 25 anos. Se poupar todos os meses 25 euros, chegarei à idade da reforma com que poupança, se aplicar este dinheiro num produto financeiro que ofereça em média 2% ao ano?
As contas são fáceis de explicar. Segundo os cálculos da Optimize, uma pessoa que reserve todos os meses 25 euros durante um período de 20 anos e optar por aplicá-lo num produto que renda em média 2% chegará ao final do prazo com uma poupança de 18.391 euros. No entanto, se este mesmo investidor optasse por colocar os mesmos 25 euros, numa aplicação financeira com um perfil de risco mais elevado (mas com um retorno potencial superior) o nível de poupanças acumuladas poderia disparar. Segundo as contas da Optimize, o investimento numa aplicação financeira que remunere os investidores com um juro de 4% ao ano faria disparar a poupança acumulada para os 29. 647 euros. Ou seja, se o investidor estivesse disposto a correr um pouco mais de risco veria as suas poupanças crescer 61%. Esta é a diferença no longo prazo entre aplicar dinheiro num produto financeiro que oferece 2% ao ano ou num outro que remunere a uma taxa média anual de 4%. E num prazo de investimento tão alargado como este - dado que o investidor tem um prazo de 20 anos até chegar à reforma- o risco pode jogar a seu favor.
Por isso mesmo, os especialistas aconselham os investidores- mesmo os mais conservadores- a terem na sua carteira uma componente de activos de risco, como é o caso das acções. É que no longo prazo este risco dilui-se. Segundo Diogo Teixeira, administrador da Optimize, um investidor jovem e com um perfil de equilibrado (em termos de investimento) deverá ter uma exposição da sua carteira a acções que poderá variar entre os 30% e os 50%. À medida que se aproxime da idade da reforma, o nível de exposição às acções deverá reduzir-se progressivamente, enquanto a exposição a produtos de investimento mais seguros deverá aumentar. Assim, quando este investidor chegar aos 60 anos deverá ter uma exposição a acções de apenas 10% a 20% do seu portfólio.
Os investidores que queiram construir um complemento de reforma não têm de aplicar o seu dinheiro em vários produtos financeiros para terem exposição a diferentes classes de activos. Há PPR disponíveis no mercado português que se adequam a diferentes tipos de investidores e têm graus diferentes de exposição às várias classes de activos.
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- Edição de 22 de Outubro de 2010
Como se explica o facto de as taxas de crédito ao consumo serem mais baixas nos bancos do que nas sociedades financeiras especializadas no crédito ao consumo?
Dizer-se que as taxas de juro no crédito ao consumo nos bancos são mais baixas do que nas empresas financeiras é uma generalização. O consumidor deve optar pelo recurso ao tipo de crédito, nos bancos ou nas empresas especializadas, que melhor responda às suas necessidades. Nem sempre se verificam nos bancos taxas inferiores às praticadas pelas instituições de crédito especializado. Recorrer ao crédito num ‘stand' de automóveis, numa agência de viagens ou numa loja é, na maioria dos casos, mais vantajoso do que nos bancos. Para a aquisição de veículos automóveis as financeiras têm, na maioria das vezes, taxas mais vantajosas devido às parcerias com as marcas ou com os stands. O mesmo se verifica com o crédito para viajar contratado em algumas agências de viagens, em que a própria agência cobre determinados custos do financiamento. De salientar que, em muitos casos, são feitos créditos sem juros - muito usual no crédito lar -, o que significa uma clara vantagem para os consumidores face ao recurso a um financiamento num banco.
No que concerne ao crédito pessoal, em que não é identificado o destino dos montantes concedidos, as taxas de juro são, por comparação com outros tipos de financiamento, usualmente mais elevadas em razão do risco que a instituição financeira corre. Esta premissa tanto é válida para os bancos, como para as instituições de crédito especializado. No entanto, no caso dos bancos, é natural que as taxas sejam ligeiramente mais baixas, sobretudo porque existe muitas vezes um historial do cliente e a subscrição de outros produtos. A domiciliação de ordenado é, por exemplo, um produto importante para reduzir o risco do financiamento. Para as instituições de crédito especializado, o risco em conceder este tipo de financiamento é maior, por não existir um historial do cliente na instituição, e porque não existem garantias colaterais, como por exemplo a domiciliação da conta-ordenado, acima referida, apesar de ser sempre feita a consulta à Central de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal e a bases de dados privadas. Neste sentido, e porque a taxa de juro reflecte o risco, é natural que o custo do crédito possa ser mais elevado nas instituições de crédito especializado. Ainda assim, há que salientar uma das vantagens do recurso ao crédito nestas instituições financeiras: a rapidez e facilidade em todo o processo de concessão de crédito.
Importa ainda salientar que a imposição das taxas de juro máximas no crédito ao consumo, definidas trimestralmente pelo Banco de Portugal, veio reduzir as assimetrias existentes no mercado.
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- Edição de 15 de Outubro de 2010
Como se explica que a bolsa portuguesa esteja a subir nas últimas semanas numa altura em que o país está mergulhado numa crise económica, financeira e política? Este ‘rally' tem potencial para continuar?
Desde o início de Outubro até 13 de Outubro de 2010, o principal índice nacional de acções regista uma valorização de 3,5% face aos 3% de valorização dos restantes índices europeus. Não sendo uma diferença muito significativa pode ser explicada por dois factores principais:
O PSI 20 é dos índices europeus mais penalizados desde Janeiro de 2010, com uma queda de 8,1%, a par do índice espanhol, que apresenta uma desvalorização de 9%. Esse facto pode justificar que, quando a conjuntura do mercado se torna mais favorável, esses índices tenham melhor comportamento; em regra os investidores acreditam que, num cenário de recuperação, quem mais desceu, tem mais potencial para subir.
Por outro lado, o mercado tende sempre a reagir por antecipação ao que acontece na economia real. Neste caso, o mercado já erá descontado em grande parte a crise económica e financeira que o país atravessa e o facto de o PSI 20 ser um dos índices mais penalizados desde o início do ano pode levar alguns investidores a pensar que as quedas estão amparadas. Quanto à continuidade deste ‘rally' é difícil prever se vai manter-se ou não, porque a incerteza ainda é muito elevada. Acreditamos, sim, que a aprovação do Orçamento do Estado terá um papel muito importante nessa continuidade, diminuindo as incertezas que possam ainda subsistir. No entanto, não basta apenas a aprovação do Orçamento. É necessário também que as medidas nele incluídas reflictam, com credibilidade, a capacidade do país em equilibrar as contas públicas. Para além disso, e para que na sua globalidade os mercados continuem a valorizar, é fundamental que, em época de resultados trimestrais, as empresas consigam surpreender pela positiva.
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- Edição de 8 de Outubro de 2010
Para um investidor conservador o que é melhor: aplicar num depósito a prazo ou investir num fundo de capital garantido? Quais são os prós e os contras de cada uma destas aplicações?
Nenhuma das duas aplicações é isenta de risco. A restituição do capital investido no depósito acrescido de juros depende da capacidade financeira do banco em causa no momento do seu vencimento. Uma taxa extraordinariamente elevada num depósito é por simetria um custo extraordinariamente elevado de financiamento para o banco. Se excluirmos as campanhas temporárias de captação de clientes e as ofertas de depósitos vinculados à contratação de outros produtos ou serviços financeiros - nos quais o banco recupera em comissões o excesso de taxa pago - a taxas mais altas corresponde em regra um risco de crédito mais alto também.
O Fundo de Garantia de Depósitos garante o reembolso, em determinadas condições e prazos, de depósitos de até 25.000 euros por cliente e instituição. Transitoriamente até 31 de Dezembro de 2011 este valor foi elevado a 100.000 euros. O prazo pode ser prorrogado, e há intenção de transpor para lei nacional o disposto por uma directiva comunitária que sugere um mínimo de 50.000 euros daí em diante, mas por agora a situação é tal que a garantia pode reverter para os 25.000 euros originais para depósitos com vencimento a partir daquela data.
Um fundo de capital garantido deve ser analisado nas suas duas componentes: o fundo de investimento e a garantia. O fundo pode ter características variadas, que importará analisar: um fundo garantido cuja rendibilidade esteja de alguma forma relacionada com o mercado de acções em princípio será mais arriscado que um outro que esteja relacionado com obrigações. O limite desse risco depende das características específicas da garantia. Por um lado, a garantia de restituição do capital pode ser total ou parcial. Por outro, o seu valor - entendido como a confiança na sua execução em caso de necessidade - depende da qualidade de crédito dos activos ou da entidade financeira que lhe estejam subjacentes ou a tenha prestado. Em qualquer dos casos é uma característica adicional do fundo que supõe um custo para o investidor. Esse custo reduzirá o potencial de rendibilidade do fundo quando comparado com outro semelhante, sem garantia. A decisão entre uma e outra aplicação dependerá, como sempre, do perfil do investidor e do seu objectivo de rendibilidade. A aplicação no fundo de capital garantido é tipicamente uma aplicação a um prazo mais longo, com mais incerteza quanto ao resultado final, mais variação de valor ao longo da vida da aplicação, mas - dependendo das características específicas do fundo - potencialmente mais rentável.
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- Edição de 24 de Setembro de 2010
Que conselhos os consumidores devem ter em conta na altura de contratarem um crédito ao consumo para não se sobreendividarem? Que aspectos é que devem ser tidos em conta?
Antes de recorrer ao crédito, os consumidores devem analisar a sua capacidade financeira, para perceber se têm margem, no seu orçamento familiar, para assumir o encargo que estão a ponderar. Este é, sem dúvida, o primeiro passo a tomar antes de recorrer ao crédito, independentemente da sua natureza. Nesta contabilidade, que nada tem de complexa, aconselhamos sempre a que as despesas decorrentes de empréstimos não sejam superiores a 40% do orçamento familiar. Isto, porque, além dos encargos com os financiamentos, existem as despesas fixas com alimentação, educação, seguros, habitação, etc.
Depois, e se o orçamento familiar o permitir e o bem ou serviço em causa for mesmo importante e necessário para a família - isto porque é fundamental distinguir necessidades de desejos -, há que fazer uma pesquisa de mercado, para perceber que tipo de oferta existe e qual se adequa melhor às necessidades do consumidor. Aconselhamos a que faça diversas simulações, quer seja nos sites das instituições financeiras, via telefone, ou até nas próprias instituições ou seus representantes.
Quando o consumidor identificar o melhor produto e decidir avançar para a assinatura do contrato, deverá esclarecer todos os pontos que não entende. Nunca se deve assinar nada que não se compreende na totalidade - esta é uma regra de ouro para a protecção dos consumidores em qualquer área. Na altura da contratação do financiamento, deve também ser analisado o custo dos seguros de protecção ao crédito - são eles que protegem os consumidores de situações imprevisíveis e que podem colocar em causa o cumprimento dos seus compromissos financeiros. Estamos a referir-nos às situações de desemprego e de doença, por exemplo. A negociação das condições do contrato é possível, por isso, o cliente deve negociar com a instituição financeira e tentar tirar o máximo partido dessa negociação, tendo sempre em mente que um contrato é um acordo entre duas partes e que ambas têm de concordar com todas as cláusulas.
Um último conselho, para evitar situações de sobreendividamento, tem a ver com o recurso ao crédito para pagar prestações de créditos em atraso. Sempre que a pessoa se encontrar com dificuldades para cumprir com o pagamento das suas prestações deverá contactar, imediatamente, as instituições financeiras para renegociar o seu contrato. A opção de recorrer a outro empréstimo, muitas vezes em nome de um familiar, porque a sua capacidade de endividamento já não permite a contratação de mais créditos, é sempre de evitar, uma vez que se está a adiar um problema e a entrar na chamada espiral do endividamento.
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- Edição de 16 de Julho de 2010
Qual é a melhor forma de apostar na queda de um activo? E que impacto terão os ‘stress testes'? Estas são algumas das dúvidas dos nossos leitores.
Existe uma grande expectativa em torno dos resultados stress testes. Mas o que vão medir realmente estes testes? Se um banco chumbar, isso significará que o banco poderá estar mais exposto a uma possível falência?
R: Estes testes pretendem apurar qual a resistência que apresentam os bancos nele identificados - em Portugal são quatro - face a cenários de choque de actividade económica, acesso a crédito e comportamento de mercados, incluindo os de dívida pública, bem como a sua dependência de medidas de apoio estatal. Uma das críticas que se lhes faz é que até agora foram publicados alguns detalhes sobre os cenários de stress sob os quais se vão avaliar os bancos, mas poucos sobre as medidas a avaliar, os limites a partir dos quais se considera que o banco passa ou não, e as medidas a tomar caso não passe. Os testes americanos foram mais objectivos nesse sentido. Apontavam uma medida de capital a respeitar em todos os cenários previstos, e a necessidade de proceder a um aumento de capital caso assim não fosse, num prazo predeterminado. Não é portanto claro que os testes europeus produzam um resultado que se possa interpretar como um "chumbo", mas a análise permitirá concluir quais os bancos melhor e pior preparados para resistir aos cenários estudados.
Com as taxas Euribor em alta, quais são os investimentos/aplicações financeiras que poderão beneficiar da subida dos juros?
R: Os investimentos que podem beneficiar directamente da subida das taxas Euribor são todos aqueles cuja remuneração esteja indexada a essa taxas. Entre eles estão as obrigações de taxa indexada. A taxa de juro de cupão é tipicamente definida a cada 3, 6 ou 12 meses para o período seguinte e resulta da adição da taxa Euribor relevante com um ‘spread' fixo definido na data de emissão e irrevogável ao longo da vida do empréstimo. Desta forma, à medida que as taxas sobem a remuneração destas obrigações subirá também. São particularmente interessantes as obrigações de empresas com estas características, já que o mesmo ambiente económico que provoca a subida de taxas em regra beneficia a qualidade de crédito das empresas, possibilitando ganhos de capital que acrescerão à remuneração variável. O que se deve recomendar é que se constitua uma carteira devidamente diversificada destas obrigações.
Para um investidor particular qual é o instrumento mais adequado para apostar na queda de um activo? (CFD's, Warrants, ETF's).
R: A pergunta é extremamente interessante porque um investidor não deveria fazer nenhuma das duas coisas nela implícitas: nem apostar, nem tentar beneficiar da queda de um activo. O resultado do investimento no mercado de capitais é por natureza incerto, mas pode reduzir-se a incerteza actuando em duas dimensões: diversificação e tempo. Diversificar uma carteira num leque suficientemente alargado de investimentos reduz o seu risco total. Aceitar a manutenção do investimento por um prazo suficientemente longo aumenta a probabilidade de que observe nesse período a rendibilidade média dos activos pela qual decidiu investir. Esta rendibilidade esperada é por natureza positiva. Depreende-se que quem procura beneficiar da queda de um activo o faz contra a sua tendência de valorização, pelo que também num prazo relativamente curto, o que aumenta exponencialmente o risco a que fica sujeito. Por esse motivo se diz que quem o faz é um especulador, não um investidor. O termo não é de forma alguma pejorativo e o mercado beneficia da existência de especuladores, mas assim conseguimos distinguir claramente os objectivos e os riscos de uns e de outros. Há vários instrumentos que se podem utilizar para especular na queda de um activo financeiro. Alguns deles têm um risco substancialmente superior ao do activo em si porque encerram um mecanismo de alavancagem que faz com que a sua variação de preço seja um múltiplo do activo subjacente mas, por todos os motivos apresentados, estas são transacções que fogem do âmbito do consultório do investidor.
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- Edição de 2 de Julho de 2010
A subida das taxas Euribor vai levar os bancos a aumentar os juros dos depósitos? E quais são os indicadores que os investidores devem ter em conta quando escolhem uma acção? Estas são algumas das dúvidas nos nossos leitores.
Com a subida nas taxas Euribor e as dificuldades da banca em obter financiamento, é expectável que os bancos portugueses aumentem as remunerações dos depósitos nos próximos meses?
R: As recentes subidas das taxas Euribor reflectem mais as condições de crédito no mercado interbancário do que uma previsão dos bancos sobre uma subida das taxas directoras do Banco Central Europeu - que a própria Schroders neste momento prevê que aconteça apenas em Junho 2011. Noutros países, a acção - muitas vezes preventiva - dos bancos tem sido de aumentar as taxas de remuneração dos seus depósitos, garantindo assim uma diversificação de financiamento e um custo de passivo que no imediato não excede o que teriam se insistissem apenas no financiamento no mercado de obrigações de médio e longo prazo. Este caso é particularmente evidente nos países do sul da Europa, onde a recente crise de dívida pública veio agravar o custo de financiamento para a generalidade dos seus agentes económicos. É também uma forma de endurecimento das condições concorrenciais entre bancos de diferente tamanho e capacidade de recurso a crédito. No entanto, e como a experiência recente demonstra, é uma estratégia que permite fácil réplica por parte dos restantes bancos de primeira linha e que tem como resultado principal o agravamento do custo de financiamento para todos, com poucas vantagens para o primeiro a tomar uma decisão muito agressiva nessa direcção. Em todo caso o caminho genérico das taxas de juro daqui em diante é de subida lenta, com reflexo imediato nas taxas cobradas no crédito concedido e, mais cedo ou mais tarde, nas que são oferecidas como remuneração de depósitos.
Tem havido um grande interesse nos investimentos em dívida de países emergentes. Na vossa opinião quais os mercados emergentes que apresentam melhores perspectivas?
R: Em geral, as perspectivas da equipa de dívida de mercados emergentes da Schroders são de um baixo potencial de valorização da classe de activos no futuro imediato. Na base desta análise está a sua opinião de que se esgotaram por agora os efeitos positivos das políticas expansionistas dos governos ocidentais e da China. Além disso, esta equipa considera que a redução do endividamento do sector privado em algumas economias de importância crítica para o crescimento mundial continuará a exercer pressão no sentido de reduzir a actividade económica. Consequentemente, há uma escassez de boas oportunidades de investimento e, mesmo em algumas economias emergentes em bom estado, poderemos encontrar casos em que os títulos estão sobreavaliados, os investidores já estão demasiado investidos, ou os mercados apresentam uma evolução técnica fraca. Na Ásia, os nossos mercados favoritos são as Filipinas e a Índia, na Europa de Leste destaca-se a Polónia, e na América Latina o México.
No actual cenário, quais as características que os investidores devem privilegiar na escolha de uma acção? Ex: Baixo nível de endividamento da empresa ou forte componente de internacionalização
R: Diferentes gestores irão privilegiar diferentes características, de acordo com o seu estilo específico de investimento, mas em geral a nossa filosofia de investimento está assente na convicção de que os mercados são ineficientes e que o valor acrescentado de um gestor está em identificar os casos em que os títulos estão mal avaliados. Quer isto dizer que, embora estejamos de acordo que as características que refere, entre outras, definem uma boa empresa, temos que reconhecer que nem sempre são suficientes - ou sequer adequadas - para definir um bom investimento. Uma empresa com um alto grau de endividamento e baixa exposição a mercados internacionais que tenha sido excessivamente penalizada pelo mercado por essa razão, e cujo modelo de negócio seja em tudo o resto são, pode ser um excelente investimento, embora talvez mais arriscado que outros. Inversamente, uma muito boa empresa pode estar demasiado cara em bolsa e ser, portanto, um mau investimento. A avaliação fundamental de uma empresa e a sua comparação com o preço cotado, ou seja, a disciplina quanto ao preço a pagar pelos nossos investimentos, continua a ser o factor que melhor explica os resultados.
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- Edição de 18 de Junho de 2010
Que alternativas de investimentos escolher em Portugal? Ainda vale a pena investir em ouro atendendo aos recentes máximos históricos? Estas são algumas das dúvidas que foram colocadas pelos leitores.
Que tipo de investimento me aconselharia com o montante de 35 mil euros, em Portugal?
R: Hoje em dia os investidores têm à sua disposição um vasto conjunto de fundos de investimento, acessíveis através de vários bancos, quase todos com acesso a ferramentas de informação e análise, que permitem construir uma carteira diversificada não só em várias classes de activos como também em vários mercados geográficos. O primeiro conselho é que aproveite o acesso a uma gestão profissional que esses veículos lhe proporcionam. Em seguida deverá diversificar o risco do seu investimento em várias classes de activos e mercados geográficos. Não o fazer é incorrer num enorme custo de oportunidade, já que se poderão excluir à partida boas oportunidades de investimento, e num custo real de volatilidade, dado que a inclusão de vários investimentos em diferentes mercados pode contribuir para uma volatilidade total mais baixa, através dos benefícios de correlações baixas ou até negativas. A composição exacta da sua carteira vai depender muito da sua tolerância pelo risco bem como do prazo de investimento que se propõe. Com tudo o resto constante, a uma maior tolerância ao risco e prazo mais dilatado corresponderá uma maior percentagem em activos com uma rentabilidade esperada mais alta, como por exemplo acções. Os mercados costumam evoluir em ciclos com duração semelhante à dos ciclos económicos, ou sejam cerca de 5 anos. Para que tenha alguma segurança de que o seu investimento poderá ser mantido até que os eventuais efeitos cíclicos de mercado se neutralizem deverá ter um horizonte de investimento pelo menos igual a este. Para que consiga apurar de forma empírica a sua tolerância ao risco imagine o peso máximo em acções que conseguiria suportar ao longo de uma queda de mercado como por exemplo a de 2007-2009. Uma vez determinado esse valor, e se não quiser estar sempre a ajustar a sua exposição geográfica, escolha um bom fundo de acções globais, activamente gerido, e com acesso a mercados emergentes. Assim o gestor do fundo será quem ajustará a exposição geográfica por si. Para a componente de obrigações escolha um fundo de obrigações de retorno total, dos quais encontrará vários no mercado, como por exemplo o Schroders ISF Strategic Bond. Tome esta carteira como ponto de partida e fale com o seu gestor de conta no seu intermediário financeiro. Pergunte-lhe de que forma a poderia ajustar mais ao seu caso particular.
Venho desta forma solicitar um esclarecimento quanto a uma matéria que não domino. Recentemente após um negócio com o exterior, parte do pagamento acabou por ser feito em dólares americanos. Tenho portanto em minha posse um determinado montante em moeda americana que por ter algumas duvidas acabei por ainda não efectuar o cambio. O que eu pergunto é se é conveniente efectuar o cambio neste momento de quebra do euro ou se por ventura no futuro seria ainda mais vantajoso?
R: O que tem neste momento é um activo em moeda estrangeira. Caso não tenha normalmente actividade comercial ou pessoal nessa moeda que suponha alguma correlação entre as alterações de valor desse activo e correspondentes alterações de valor em sentido contrário de eventuais passivos ou despesas futuras em dólares, está a correr um risco. Tentar obter um ganho extraordinário através da previsão de movimentos num futuro próximo é literalmente especulação cambial. Além disso o risco cambial é de todos os riscos financeiros o que pior relação tem entre os ganhos potenciais e volatilidade que se tem que suportar. A nossa recomendação, independentemente da nossa opinião sobre a direcção futura do dólar face ao euro, é de que converta esse activo para euros e utilize esse montante para investir em activos que tenham um rendimento corrente razoável, uma tendência identificável de apreciação, e uma melhor relação rentabilidade/ risco.
O ouro continua a subir. Consideram que ainda vale a pena investir nesta matéria-prima? Ou será que o preço já subiu tanto que este é um mau momento para apostar neste metal precioso?
R: A tendência tem sido claramente positiva, e os nossos gestores têm mantido posições de investimento consideráveis nos últimos meses, mas mais recentemente preocupa-nos a falta de pressão de procura no mercado, bem como o facto de não haver confirmação da tendência de subida por parte dos preços da prata, nem tão pouco das acções mais ligadas ao ouro. Apesar de em Maio se ter continuado a valorizar em Euros, quando analisada a evolução da sua cotação em dólares vemos que foi bastante mais modesta, e apenas conseguimos a algum custo alcançar um máximo de $1249,40 no dia 14, após o que o mercado teve uma queda considerável. Do ponto de vista técnico parece haver ainda algum potencial, mas também alguma dificuldade em romper os $1250. Para que nos possamos sentir confiantes em reforçar investimentos a estes níveis teríamos que ver uma clara aceleração para além destes níveis. Caso contrário será mais prudente reduzir posições.
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- Edição de 4 de Junho de 2010
Quais as perspectivas para as acções europeias? E quais serão os factores que mais determinarão a evolução das bolsas até ao final do ano? Estas são algumas das questões colocadas pelos leitores.
Enquanto as acções europeias estão a sofrer, as acções americanas sobem. O que explica esta diferença?
R: Desde há algum tempo que a Schroders recomenda uma sobreponderação do investimento nos EUA e uma posição neutra no investimento na Europa. As razões são várias: entre os factores que favorecem os EUA estão a dianteira que tomou o país na recuperação económica iniciada em 2009, a maior intensidade dos planos de estimulo fiscal ai aplicados e a reestruturação mais profunda empreendida pelas empresas americanas, que as deixa agora em melhor posição para converterem a recuperação económica em lucros. Entre os factores que desfavorecem especificamente a Europa está a crise de dívida pública, que se iniciou com o caso grego e cujas ramificações acabaram por afectar, de uma ou outra forma, todos os países da UE. Entretanto já começamos a assistir a alguns ajustes que a prazo tenderão a favorecer a economia Europeia, como a desvalorização do Euro, mas no imediato achamos prematuro sobreponderar esta região.
Quais são os principais factores que determinarão o desempenho das acções até ao final do ano?
R: A Schroders continua moderadamente optimista face às perspectivas para os mercados de risco em geral, se bem que estamos conscientes da volatilidade típica desta fase do ciclo. Se quisermos sistematizar, os factores que irão condicionar o desempenho do mercado de acções são, em primeira analise, o nível de actividade económica, a capacidade que as empresas têm de transformar essa actividade em lucros e quanto os investidores estão dispostos a pagar pelo ‘cash flow' que pensam vir a receber no futuro sob a forma de dividendos. O nosso cenário central para a economia é de uma recuperação modesta e lenta, muito condicionada pelo processo de deslavancagem do sector privado e agora em risco de o ser ainda mais pela necessidade imposta pelo mercado de controle mais rápido do que até aqui se esperava das finanças publicas. Temos consciência que o intervalo de possibilidades quanto ao caminho que iremos percorrer até à consolidação orçamental é bastante alargado, e que existe um risco não desprezível de erro na condução das políticas fiscais. Em todo o caso, mantemos o nosso cenário central de uma recuperação que deverá não só prosseguir o seu curso como evitar o temido "double-dip
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