Na crónica que escreveu ontem sobre o Presidente Klaus e a Europa, Vasco Pulido Valente (VPV) está errado.
Se é verdade que, por razões históricas (sobretudo 1938) os checos desconfiam de alguns países europeus, não é por isso que o Presidente Klaus está a brincar com a ratificação do Tratado de Lisboa. A maioria dos outros líderes políticos checos olham para 1938 da mesma maneira que Klaus e isso não impede que defendam o Tratado de Lisboa. A leitura histórica de VPV condenaria os europeus a ficarem, para sempre, reféns dos traumas da sua história. Aliás, os traumas não são um exclusivo checo. Experimentem discutir a história com os polacos. E com os países bálticos. E, já agora, o peso da história não é um exclusivo da Europa central. Mais a oeste, os franceses também têm razões de queixa da história. Tal como os holandeses e os belgas. Todos eles ratificaram o Tratado de Lisboa.
Um dos principais méritos da construção europeia é o facto de um conjunto de países, cuja história é feita de desconfianças, rivalidades e confrontos, ser capaz de estabelecer uma ordem económica, jurídica e política que permite alguma cooperação e mesmo integração. O que separa a Europa de hoje de mais episódios como o de 1938 é precisamente a integração europeia. Numa Europa sem instituições comuns, o poder dos grandes como a Alemanha e a França seria muito maior e mais arbitrário do que é hoje.
Em segundo lugar, VPV fala do "liberalismo" do Presidente Klaus. É verdade que o presidente checo gosta de citar a Escola de Chicago, de elogiar a senhora Thatcher e defender o mercado. Mas isso não chega para se ser liberal. Muitos políticos dos antigos países comunistas que lideraram o processo de privatizações defenderam o mercado por uma questão de oportunidade e não de convicção. Veja-se, por exemplo, o caso das relações de cumplicidade de Klaus com Putin. Dificilmente um liberal aprovaria um regime como o que existe em Moscovo. Já agora, no caso das relações com a Rússia, os traumas da história não contam para Klaus? E no caso do conflito entre a Rússia e a Geórgia, em que Klaus se colocou claramente ao lado de Moscovo contra Tiblissi, a preocupação com os interesses dos pequenos países também não conta? Aí, as lições de 1938 foram simplesmente ignoradas.
Por fim, a preocupação de VPV com a democracia na Europa, supostamente ameaçada por uma "Europa pós-democrática". Todas as preocupações com a democracia são, por princípio, bem vindas. Agora fazer de Klaus um símbolo da legitimidade democrata constitui um equívoco. Um presidente eleito pelo parlamento que recusa ratificar um Tratado votado por esse mesmo parlamento constitui, na minha opinião, uma violação grosseira da democracia. Um acto de pura tirania política contra duas Câmaras eleitas pelos cidadãos. Meu caro VPV, esqueça a história, o liberalismo e a democracia. Klaus ainda não ratificou o Tratado de Lisboa por duas razões: para aumentar o seu poder político e por vinganças pessoais.
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João Marques de Almeida, Membro do Gabinete do Presidente da Comissão Europeia e Professor universitário
Comentários (7)
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O que pensará o tão democrático Membro do Gabinete do Presidente da C. E. sobre o facto de à maioria dos cidadãos da U.E. não se lhes ter pedido a sua opinião sobre tão importante assunto(mesmo quando prometido) e aos que disseram não... tiveram que repetir o exame !!!
Excelente artigo!
O tratado de lisboa é o melhor exemplo da actual democracia europeia. Não se pergunta nada porque a resposta pode não ser a que queremos.
Nem mais .Klaus não é um monarca absoluto, que possa impor o seu poder acima de instituições eleitas.Puro jogo de chantagem.O que terá VPV para nos oferecer ,sem ser a UE?