O debate à volta da folga no Carnaval é tão inútil que parece obviamente desnecessário. Ainda assim, há uma parte do País que parece não desistir e, portanto, vale a pena tentar perceber o que está em causa.
A questão resume-se a um ponto: Portugal quer ou não mudar de vida. Quem defende mais um dia de descanso no Carnaval ainda não percebeu o que está a viver nem o que aí vem. Quer continuar a mascarar-se de palhaço rico quando nem sequer tem dinheiro para se esconder por detrás do palhaço pobre.
Vamos por partes. Não sendo habitante de Torres Vedras ou de Loulé, fico preocupado quando ouço os autarcas locais defenderem que o Carnaval é vital para a sobrevivência da economia autóctone. Estando longe do Carnaval do Rio de Janeiro, revela que defendem para as suas populações um nível de vida pouco acima da fronteira da pobreza. Muito mal vão os municípios que dependem de uma festa anual de dois dias para sustentarem o seu desenvolvimento. Este argumento é tão sólido como um castelo de cartas.
Assim sendo, a questão não é económica, é cultural. Entre o trabalho e o lazer, há quem continue a preferir a festa. É a velha rábula da formiga e da cigarra. Durante mais de vinte anos, Portugal viveu como a cigarra e acabou na actual situação de pré-falência. Agora tem que ser a formiga mas ainda há quem queira continuar a tocar e a cantar como a cigarra. O Governo de Passos Coelho tem razão quando diz que não faz sentido dar tolerância no Carnaval depois de cortar quatro feriados. É necessário virar a página no que se refere a certos hábitos.
Os portugueses vão ter de trabalhar mais e melhor e provavelmente ganhar menos nos próximos anos para pagar as dívidas que Estado, empresas e famílias foram acumulando. Custa ouvir mas é a verdade. Não há tempo para festas. O País pode mascarar-se de rico mas não é por isso que os créditos desaparecem.
Há debates que são importantes. Por exemplo, como distribuir os sacrifícios garantindo que quem tem mais, paga mais. Como recolocar a economia numa trajectória de crescimento sustentado. Como garantir a redução do desemprego, o maior problema social que começa a ter reflexos na subida da criminalidade e na insegurança nos meios urbanos. Isto vale a pena discutir, o resto é um samba de segunda dançado por uma parte da população que vai usando os privilégios para escapar aos impactos da crise. Basta ver quem diz que vai gozar o Carnaval para perceber os grupos de privilegiados. Quase todos continuam ligados ao Estado, prova que falta fazer a mãe de todas as reformas estruturais: a do Estado.
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Bruno Proença
bruno.proenca@economico.pt
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