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Marta Rebelo

“Verdes Anos”

26/11/10 00:03 | Marta Rebelo 



A semana começou com a notícia do pedido de auxílio da Irlanda, que recorreu ao Fundo Europeu e abriu a porta ao FMI.

Em semana de aprovação do OE/20011, continua a especulação sobre o "contágio" da maleita irlandesa aos demais países periféricos, e não falta quem pregue que se segue Portugal. Entre todos os pessimistas, destaca-se Nouriel Roubini, esse génio da catástrofe que tantas crises previu até que acertou. Por mais que nomes sonantes afirmem incomparável a situação irlandesa e portuguesa, o receio instalou-se.

E instalado o receio, fez-se a greve geral. Calculo que no meio esteja a virtude, e entre os 30 e os 60 por cento que governo e sindicatos, respectivamente, anunciaram, fico-me nos 50 por cento de adesão. O país não parou mas a capital do Reino ficou quieta. Tal como os grevistas. Foi uma crítica silenciosa. De brandos costumes. A banda sonora do dia 24 de Novembro de 2010 não foram músicas de intervenção, mas antes a melancolia da guitarra de Paredes, nos seus "Verdes Anos". Foi uma greve pouco madura, os tempos não se prestam a protestos silenciosos.

No início do turbilhão, quando o capitalismo cedeu às nacionalizações da banca e por momentos todos revisitaram Keynes, houve a leve expectativa de mudar os vícios da sociedade ocidental moderna. O sistema de trocas não é, de facto, equivalente e a periodicidade das crises mostra que não há uma tendência natural para a harmonia, tal e qual afirmava Marx. A crise repõe a normalidade capitalista, resolve as contradições entre as forças de ruptura e de equilíbrio. Até à crise seguinte. Não sou marxista, não acredito no materialismo histórico e no fim do sistema, mas concordo com a análise dialéctica do capitalismo. A greve de quarta-feira mostrou às esquerdas mais extremadas isso mesmo: já não há proletariado para fazer a revolução. O proletariado desta crise é, sobretudo, a função pública. No sector privado a noção de direitos adquiridos e a relativização dos direitos laborais está, para o bem e para o mal, consolidada. Temos cerca de 900 mil trabalhadores no privado com contratos precários. E milhões que também estão verdes, a recibos. Só que esta "Frente burocrática Nacional", reunião dos funcionários públicos, não tem condições, sequer subjectivas, para revolucionar. Não são eleitorado da esquerda, senão da moderada. Oscilam entre centros. E num dia de greve nacional, fizeram silêncio e não saíram à rua, liderando a contestação e a luta.

Os nossos brandos costumes acalmaram os ânimos, e tal como a guitarra portuguesa dedilhada pelo Mestre Paredes, abafaram palavras de ordem. Perderam-se milhões de euros mas sobretudo a oportunidade. Que nestes tempos do capital, tem um preço muito elevado.
____

Marta Rebelo, Jurista




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