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António Correia de Campos

Vamos a votos

04/04/11 00:05 | António Correia de Campos 



Em menos de dez dias, após a rejeição doméstica do pacote apresentado pelo Governo em Bruxelas, os juros da dívida subiram três pontos e meio, mais do que haviam subido nos três meses anteriores; algumas das grandes empresas públicas de transporte, deficitárias em todos os países, passaram a lixo; a banca nacional vê as fontes externas secarem; a reputação financeira da República baixa cinco escalões.

Impossível dissociar estes acontecimentos da coligação negativa, destrutiva e demagógica gerada e abençoada para demolir o governo na altura mais prejudicial ao País. A loucura continuou com revogações de reformas arduamente conseguidas, como a da avaliação dos professores.

Impossível igualmente dissociar a súbita crise, no seu súbito agravamento, da vertigem de contradições de que dá mostras a alternativa opositora. É a proposta de descida e de subida do IVA, a justificação da recusa do pacote por excessivo, com o argumento, para Wall Street, de que afinal seria insuficiente, a privatização "parcial" da Caixa, as pífias, incolores e inodoras "linhas de orientação para elaboração do programa eleitoral". Mesmo os prometidos estados gerais, até agora limitaram-se a um curto espectáculo de uma tarde, para mostrar sintonia com Belém, com homens do Presidente na primeira fila. Pouco, muito pouco e mau, como notaram os avaliadores que nos desgraduam. E como estão já os eleitores a notar, pelas primeiras sondagens após crise.

O ponto de encontro de oposições e alguns comentadores passou a ser o ataque ‘ad hominem' a José Sócrates. Desde "delinquente político, a "Drácula que culpa a vítima de lhe sugar o sangue", não há limites ao insulto. Cabeças outrora respeitáveis e agora desvairadas por ódio e intolerância usam linguagem política de contornos inaceitáveis. Fazem-se "apelos" ao PS para se libertar do seu líder, esquecendo que vivemos em democracia e que ela tem partidos, eleições e autonomia decisória.

A Pátria perde ânimo, por serem mais os que a puxam para trás que os que empurram para seguir caminho. A estrada perdeu sinais de trânsito e sobretudo o seu necessário regulador. Neste teatro, o contra-regra saiu do palco para a plateia.

E no entanto a Terra move-se, os dias sucedem-se. Sabemos como vai ser injusta, dura, incerta, quiçá improfícua a campanha. Alguns prefeririam homens providenciais, governos de salvações nacionais, coligações inviáveis, de súbito possíveis. Não é assim. Em democracia, cada voto conta e são os votos que vão contar, mesmo em difícil aritmética. Os dois meses que aí vêm não serão fáceis, seriam dispensáveis, mas tornaram-se necessários.

____

António Correia de Campos, deputado do PS ao Parlamento Europeu

 

 




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