Comunidade
Os diferentes diagnósticos sobre as fraquezas nacionais são unânimes quando apontam o dedo à educação. A baixa produtividade é, em grande medida, explicada pelas deficiências generalizadas na formação, que não deixam ninguém de fora.
Desde o trabalhador mais indiferenciado até ao empresário, em Portugal há dificuldades resultantes de um sistema de educação desfasado da realidade e em estado de guerra civil.
Independentemente dos culpados - essa contabilidade pouco interessa quando chegam os indicadores de desenvolvimento do país -, a verdade resume-se a quatro factos. Primeiro, apesar de todos os esforços, há ainda muitos problemas no pré-escolar que prejudicam sobretudo as famílias mais pobres. Segundo, apesar de muitas promessas, não há maneira de colocar o ensino obrigatório em 12 anos. Terceiro, há um discurso dual: fala-se de banda larga nas escolas e, em simultâneo, não se consegue fechar a discussão sobre a avaliação dos professores. Quarto, as universidades estão falidas.
Portugal está a divergir dos países mais ricos desde o início da década devido ao conjunto errado de políticas públicas. E na educação, apesar de todas as paixões, isso foi particularmente penoso. O actual Governo socialista, mesmo com todo o voluntarismo, não conseguiu inverter a situação. Em alguns casos, como no financiamento do ensino superior, poderá estar a agravar os problemas. As insuficiências financeiras ultrapassam os 88 milhões de euros e este ano os problemas de pagamento de salários começam já em Abril, como relata uma carta do conselho de reitores.
Como é que isto aconteceu? Nos últimos anos, o Governo cortou as transferências orçamentais para as universidades para as obrigar a racionalizar custos e a procurarem receitas próprias ao abrigo do estatuto de autonomia que sublinham e de que não prescindem. Dito assim, não parece mal. Mas Mariano Gago esqueceu-se de que isso só resultaria se mudasse o modelo institucional e de financiamento das universidades. Caso contrário, é uma ameaça sem sanção. Por isso, ineficaz. Ou seja, no final do ano as universidades continuam a ser do Estado e, portanto, quem as dirige tem sempre o conforto de uma transferência extraordinária do Orçamento do Estado. Uma vez mais, políticas públicas erradas tiveram o pior dos resultados: não só não acabaram com as dificuldades do ensino superior como ainda criaram novos obstáculos.
Mariano Gago devia, em primeiro lugar, atacar a questão institucional e de financiamento, fosse com o modelo de fundações - o seu preferido - ou outro. Só depois, cortar nos dinheiros.
As universidades são fundamentais para ajudar o país a criar os centros de excelência necessários para dar o salto na cadeia de valor a que todos aspiram. Mas assim é difícil. Não há investigação que resulte quando se estão a contar tostões. Mais do que o TGV, aeroporto ou estradas, o país devia estar a discutir o problema da educação. O futuro do país são obrigatoriamente as pessoas - com melhor educação e formação para enfrentar a competição global - não são as auto-estradas.
Comentários (17)
Publicidade
Acções do PSI 20





1 | 2 | »»
Que me lembre, nestes últimos 35 anos, não houve nenhum governo que, como este, fizesse um tão grande esforço para pôr alguma ordem no caos e na anarquia que tem existido no ensino deste país. O resultado é o que é e não podia ser outro. Quando passei pela Universidade poucos catedráticos davam aulas. Isso era para os assistentes. Não sei como isso evoluíu mas deve ter evoluído para pior como o restante ensino. O que me causa estranheza é que economistas, tão liberais, pareçam achar que o governo tem culpas ou é 'economicista, como agora é moda dizer-se, só porque quer pôr os recursos, que são escassos, a render o máximo. Mas isto não é de bom senso? Claro que o governo tem tido muitas resistências, mas será possível a algum governo fazer alguma coisa na educação e na justiça sem autoridade. Não! Não é possível! E foi por não haver autoridade que as coisas chegaram aonde estão. O governo pode ter sido voluntarista, honra lhe seja dada por isso, agora insinuar que se fosse mais 'meigo' teria melhores resultados é um logro. Eu creio que há professores a mais em todos os graus de ensino, estarei errado?
A paixão socialista
pelo ensino de qualidade,
esbarra numa política irrealista
de duvidosa aplicabilidade.
Com a falência das universidades
e toda a propaganda dual,
este é o resultado de prioridades
de eficácia residual.
O mexilhão realista,
com sentido de oportunidade,
considera miserabilista
o acutal nível de democraticidade.
O problema da educação não está nas universidades mas na ausência de ensino pré-escolar público e no crime que é cometido contra a geração actual no ensino pré-universitário. Enquanto o bom-senso não obrigar a rebentar com o edifício do malfadado "eduquês" e com a "experiência educativa" digna de um Josef Mengele, que é imposta a quem não pode pagar o ensino provado, não podemos esperar melhor.
Enquanto o sistema educativo não premiar o mérito não podemos esperar melhor. Enquanto não se impuser aos sindicatos que o sistema educativo público existe para formar os cidadão e não para arranjar emprego e benesses automáticas aos professores, não podemos esperar melhor.
Não vamos lá com paninhos quentes nem reformas. O que é necessário é uma vassourada no ministério e uma afronta firme aos defensores do status quo. Porque a situação actual interessa a muita gente: os anafados do ministério continuam entretidos a experimentar, sem nunca prestarem contas das experiências dos últimos 30 anos; os professores, também eles vítimas das experiências, só protestam quando vêm em causa a suas progressões de carreira automáticas.
Os alunos... deformam-se, desistem e desenrascam-se.
Não há dinheiro! Afinal parece que o dinheiro está nas riquezas naturais das nações e nasce também nas bancadas de trabalho de quem sabe fazer alguma coisa,
Não há dinheiro! Afinal parece que o dinheiro está nas riquezas naturais das nações e nasce também nas bancadas de trabalho de quem sabe fazer alguma coisa,
"Não há investigação que resulte quando se estão a contar tostões." Esta afirmação é enganadora. O que é verdadeiramente necessário é distribuir a verba disponível para a investigação, que não tem parado de aumentar nos últimos anos, da forma mais rentável. Isto significa valorizar os melhores projectos e das melhores equipas. Atribuir de uma forma indiscriminada mais dinheiro a todas as Universidades, independentemente da sua performance, seguramente não irá melhorar o nível da investigação.
Muito bom artigo...mas pior que a educação, está a justiça. Essa sim, devia ser a prioridade.
Parece que o necessário são mais achas para a fogueira! tinhamos também as universidades à bulha com o ministro! O Sr. Comentador não vê que o mal é dos parecidos consigo que diz meias verdades e deppois fazer nem pensar!
Uma análise certeira. Mas um apelo que vai cair em saco roto. Já é tarde demais para levar o "engenheiro" do terceiro-mundista Classmate disfarçado de "Magalhães" a inverter marcha. Sócrates está a levar o país para um bêco sem saída. Perante o aplauso da maior parte da imprensa e dos empresários do regime...