Comunidade
A crise económica está desde há meses a pressionar o abrandamento da inflação na zona euro e, também, em Portugal – permitindo a sucessiva redução das taxas de juro do Banco Central Europeu.
Foi, digamos, o lado bom de uma moeda má, a recessão que trouxe desemprego e travagem brusca do consumo das famílias. Até ontem, quando se soube que, pela primeira vez desde 1978, a variação homóloga dos preços foi mesmo negativa, em 0,4%.
Uma leitura apressada do comportamento dos preços em Março poderá sugerir duas conclusões: em primeiro lugar, que a descida dos preços a este nível é positiva para as famílias e empresas; em segundo lugar, que esta descida é estrutural e vai levar a um processo de deflação. Nenhuma das conclusões é verdadeira.
Comecemos pela primeira, que nos remete desde logo para o nível do bom senso. Quando existe a possibilidade de uma economia entrar no que se chama deflação ou variação negativa dos preços, as famílias incorporam de forma muito racional a ideia de que vale a pena esperar mais um dia para se decidirem por uma compra na expectativa de que o preço desse produto será ainda mais baixo. Só que, entretanto, a empresa que produziu aquele bem não consegue vendê-lo, arrisca aumento do seu ‘stock' de produtos e vai, provavelmente, continuar a baixar o seu preço, atingindo um valor que obrigará provavelmente a cortar custos, ou seja, a despedir. A consequência é uma armadilha de preço da qual é muito difícil sair, ainda mais quando os juros já estão a um nível tão baixo que não servem para impulsionar o consumo. São fáceis de perceber as consequências de um cenário destes.
Felizmente, apesar da quebra dos preços, é importante desmistificar esta variação. Uma análise fina dos números - como a que é feita hoje no Económico - permite perceber que a variação homóloga de 0,4% decorre especialmente do chamado efeito-base do preço dos transportes (impulsionado pela evolução do petróleo) há um ano. Excluído este efeito, a inflação homóloga teria atingido quase 1% de variação positiva. E, em termos de média anual, a evolução dos preços em Portugal está nos 1,9%.
Em termos técnicos e políticos, é mais difícil combater a deflação do que a inflação, e o Japão que o diga... o governo nipónico chegou, em tempos, a oferecer - e o termo é exacto - cheques com prazo de validade, mas os consumidores japoneses não os utilizavam. Quando há uma subida acelerada dos preços, há sempre juros mais altos para travar o consumo.
O risco de deflação não está completamente posto de parte, mas é mínimo. E mais: tendo em conta os planos de injecção de liquidez nos mercados internacionais, a subida acelerada de preços comporta hoje, de certa forma, um risco maior na zona euro - e também em Portugal.
Comentários (6)
Publicidade
Acções do PSI 20





Convido desde já o autor da estatistica, a ir comigo às compras amanhã de manhã e depois é obrigado a fazer outra estatistica, só que esta verdadeira e não de gabinete. É mentira, os preços dos bens essenciais não estão mais baratos!
Já consultou a sua bola de cristal, foi? As vossas previsões não valem um charuto!!! Vejam o caso das previsões da economia portuguesa dos vários orgãos económicos e monetários… uma descrepância incrivel!!! Continuem a fazer previsões cor-de-rosa!!!
este napoleao e um teso que vive na rua...
Napoleão tem razão. As empresas beneficiaram da baixa de custos de Produção, leia-se combustíveis, e estão a facturar essa diferença inteirinha a seu favor. Os custos no Produtor baixaram, mas os custos no consumidor não baixaram, até subiram. E quem é mais atingido pela inflação? Os mais pobres, como sempre. São os que nem têm capacidade para agradecer ao Sr. Trichet, sempre alvo de ataque dos que apenas vêm o seu umbido e o seu crédito à habitação. Tanto egocentrismo e falta de visão da sociedade, por exemplo na questão da comptitividade das PME's Europeias é sempre posto para trás quando o BCE aplica a sua política monetária nas taxas (esquecem-se da política monetária na circulação de moeda). Os factos estão aí: tanto o FED como o BoE estão sem margem de manobra, e o BCE ainda a tem. O resto é a conversa habitual dos interesses próprios a sobreporem-se aos interesses da sociedade. Onde já vi eu este filme? MMartins-Sintra
Estas leituras de descidas de preços não são feita por gente que vai aos mercados ou às redes de supermercadps. Peixe, hortaliças, fruta, pão, carne, nada disto baixou ! Agora, sentados à secretária. em ambiente climatizado, os preços terão outra leitura ! Todos os meses me sobra menos dinheiro e os luxoas não existem nem as extravagância para além dos 2 cafés diários !!!
A DESCIDA DA INFLAÇÃO DEVEU-SE SOBRETUDO AOS COMBUSTÍVEIS!!!É normal que quando temos o barril a custar 3x mais há 1 ano atrás do que o preço de hoje em dia, se reflicta na inflação homóloga.Não vale a pena fazer fitas nem estar preocupado com este acontecimento...pelo menos para já, não é uma realidade. Além disso, já se verificam muitos resultados positivos, principalmente onde a crise começou, que é no sector da banca.