Com o desemprego jovem a níveis preocupantes, paira sobre a Europa do Sul o espectro de uma geração sobrequalificada. Em Portugal, onde o percurso feito ainda não permitiu recuperar o atraso histórico no domínio das qualificações, o problema exige um olhar cuidado.
Segundo a OCDE, em 1998 apenas 9% dos licenciados na faixa 25-34 anos ocupava empregos que tipicamente não exigem formação superior, abaixo da média de 17% em 18 países europeus. Em 2007, antes da crise, o valor subira para 21%, alinhado com a média europeia. O desemprego, porém, era mais alto, em particular no grupo 25-29: 10,8% contra a média europeia de 5%. A evolução resulta de um crescimento mais rápido dos licenciados - foram 640 mil os diplomados entre 1998 e 2007 (só existiam 521 mil na população em 1998) - do que de empregos qualificados, fruto da transformação mais lenta da estrutura ocupacional.
A situação, que piorou desde 2009, necessita ser estudada para saber o que resulta da dessincronia conjuntural na corrida entre qualificações e empregos, e o que releva de um desajuste mais sério. É impossível uma economia em contração em 11 dos últimos 15 trimestres criar emprego suficiente para jovens qualificados. E é essencial não usar os efeitos da recessão para atacar uma política de qualificação de jovens que, se Estado e empresas apoiarem, poderão continuar a aprender, reorientando estrategicamente as suas competências.
O malthusianismo elitista, porém, dispensa análises: não avisou que muitos licenciados acabariam em ‘call centers'? Talvez quem defenda a universidade como espaço reservado à elite seja indiferente à especialização do país em setores de baixas qualificações e salários. Mas, para além de empobrecedora, esta estratégia é míope: o problema é menos haver conjunturalmente muitos jovens qualificados para a atual estrutura ocupacional do que essa estrutura ainda exigir poucos qualificados. O fosso principal está entre a estrutura de ocupações atual e a que ambicionamos no futuro. No Centro e Norte europeu, quase metade do emprego está em ocupações que exigem formação superior; em Portugal, menos de um 1/3 (era menos de 1/4 há 15 anos).
Mas é preciso ir ao fundo da questão. No passado recente, muitos governos elegeram as qualificações como o motor do crescimento ao mesmo ritmo que cediam instrumentos de política económica. Parte da esquerda caiu na armadilha de pensar que, no ‘slogan' de Blair, a "educação é a melhor política económica", como se o incentivo à qualificação dispensasse o papel do Estado numa estratégia de desenvolvimento. Hoje, pela Europa fora, é difícil defender que o problema é a falta de jovens qualificados; o que falta são bons empregos. Financiar estágios profissionais reduz a severidade da crise, mas não substitui a necessidade de uma política industrial coordenada a nível europeu, orientada para setores estratégicos, e com um real orçamento.
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Hugo Mendes, Sociólogo
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