Há quatro anos e meio, no discurso de tomada de posse, José Sócrates deu o tom para o que seria a identidade política do seu governo.
As "férias judiciais" e a "liberalização das farmácias" serviram como amostra do reformismo sem temor a corporações. Resultados à parte - que esse é outro tema -, a primeira impressão foi mesmo uma oportunidade para criar uma imagem. Ontem, ainda que de modo bem diferente, Sócrates deu também o tom do que será a identidade do novo executivo.
Depois de ter apresentado um elenco ministerial que pouco dizia sobre a identidade política do governo, restava saber se este executivo seria mais próximo da imagem do governo minoritário de Cavaco Silva ou do primeiro governo de António Guterres. Se dúvidas restassem, ontem ficou claro: esta não vai ser uma maioria de diálogo, como aconteceu com Guterres, mas sim um governo que vai tentar desviar o epicentro da decisão política para fora do parlamento, à imagem do que aconteceu entre 1985 e 87 com Cavaco Silva.
Foi, na verdade, um discurso com um nível de concretização inferior ao da primeira tomada de posse. Mas foi também um discurso em que Sócrates fez uma interpretação dos resultados eleitorais que serve para definir o que será a linha política do governo. O primeiro-ministro foi claro quando afirmou que "o voto dos portugueses foi um voto de confiança numa governação reformista", tendo mesmo acrescentado que "este facto encerra uma importante lição política para o presente mas também para o futuro: a lição de que é possível fazer reformas e promover mudanças, mesmo que exigentes, contando com o apoio dos cidadãos eleitores".
Para bom entendedor, as palavras são claras: o que foi a votos foi a identidade do governo definida há quatro anos e meio e o reformismo contra os interesses corporativos saiu vencedor. Para as oposições, a mensagem é também inequívoca: o caminho passará por prosseguir uma agenda reformista e o ónus da instabilidade política recairá sobre elas, nomeadamente se forem criadas coligações negativas. Em maioria absoluta, as oposições podem ser "irresponsáveis"; num contexto de maioria relativa serão naturalmente responsabilizadas pela instabilidade.
A linha apontada é de combate político. Mas é também uma linha em que a diferença entre sucesso e falhanço é muito ténue. Ora uma coisa é certa, o sucesso da estratégia depende de um elenco governativo politicamente robusto, capaz de resistir à exposição parlamentar e de alargar a base de apoio do governo para além da Assembleia da República. Ouvido o discurso de ontem, só podem por isso aumentar as perplexidades sobre a equipa ministerial que tomou posse. Pode haver surpresas, mas, em teoria, não é possível ter um governo de combate político com tão poucos políticos.
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Pedro Adão e Silva, Professor universitário
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Este governo não é uma equipa , mas um"baixo contínuo" do solo de Sócrates.Ele sente-se vencedor , no seu estilo .E mesmo eu, que não gosto dele, acho que tem razões para tal.Como é que depois de quatros anso e já conhecido, volta a vencer?
Não morro d'amores pelo 1º ministro. Mas mesmo assim espero que tenha já aprendido algo com os 4 anos de governação. E que melhore !
1. É evidente que o Governo tem um nucleo "duro" mais politico e uma maioria de ministros mais "técnicos".
2. O Governo tem de negociar e muito no Parlamento , mas tem de se dirigir DIRECTAMENTE à Opinião Publica e Publicada , explicando claramente a natureza dos assuntos, as várias opções técnicas possiveis e fundamentando as suas propostas concretas. Assim, as Oposições repartem a responsabilidade.
3. Pensar só nas sondagens, na actual situação interna e internacional ( ver cenarios de J. ATTALI , ROGOFF, B_H LEVY, BAVAREZ,etc ) é precipitar novas Eleições.
Para o comentador VG: É que alternativa era o regresso do Salazarismo. Agora usando saias.
NEM O SALAZAR FAZIA MELHOR ;O GOVERNO VAI IMPLEMENTAR O PROGRAMA DO PARTIDO SOCIALISTA ;CITO;O HOMEM NAO APRENDE QUE TEM QUE VIVE EM DEMOCRACIA E QUE TEM QUE HOUVIR OS OUTROS ;O POVO DISSE NAO À DITADURA ;MAS ELE INSISTE :A FRAU MERKEL DISSE ONTEM ACERCA DOS SEUS DOIS NOVOS PARCEIROS DE COLIGACAO ;CITO VAI SER UM PRAZER GOVERNAR COM VOCES;FIM DE CITACAO ;NAO TARDA NADA VAI HAVER ELEICOES OUTRA VEZ EM PORTUGAL;
Tirando de parte a "loa" costumeira ao Governo PS,a sua interpretação e a do sr. Pinto de Sousa,soam a mistificação.O Sr. Pinto de Sousa não pode,porque venceu, inferir que os Portugueses ratificaram a sua política anterior.O PS perdeu meio milhão de votos e devia reflectir sobre o significado desta perda.Os únicos partidos que ganharam foram o CDS e o BE.Todos os outros perderam.Perante um resultado destes era bom que o PS,o PSD e o PCP fossem mais comedidos na exuberância das suas comemorações.De qualquer modo já deu para perceber,que a política a seguir pelo Governo vai ser a mesma de mão dada com a arrogância e o autoritarismo costumeiros.Tudo isto acompanhado dos "momentos históricos",do anúncio das obras,a primeira pedra e as inaugurações hollywoodescas,e muito "foguetório".Com esta gente o País da Alice não tem melhoras...
FT, a alternativa era uma governante séria e honesta ,mas "velha e feia".Tudo ao contrário do seu "belo" chefe..
A dona Manuela foi eleitoralmente espremida. Já deu o que tinha a dar ! Venha novo/a lider laranja para...animar a malta !
Olhe meu caro Senhor:
Há-de explicar quando aconteceu o que carimba de liberalização das farmácias.
Só contaram para si.
Isso é mentira absoluta, descarada ou ignorância sua do tema.
Como ignorante é quem fala de "férias judiciais" querendo com isso significar que os juízes (todos) tinham 2 meses de férias.
Tudo piorou na Justiça após essa "coisa".
Tudo está pior, menos pluralidade, no acesso á propriedade da farmácia.
Tenha pena de si, já não digo dos leitores, quando debita "coisas" deste jaez do tipo chavões que, se o senhor tiver a humildade de as estudar vai ver que é precisamnete ao contrário do que diz.
Rigor, conhecimento, seriedade ... precisam-se!
Bitaites não,
O discurso de Sócrates, mais uma vez, entra em confronto directo com a realidade. "governação reformista"? Depois de 5 anos de maioria absoluta em que de todas as reformas prometidas se ficou pela Segurança Social (reduzindo as contribuições para evitar a ruptura)? Alguém com dois dedos de testa acredita que vai ser agora, em maioria relativa, que o PS vai conseguir reformar seja o que for? Depois de se ter desgastado e perdido credibilidade com a política da canelada inconsequente? De ter todos os visados pelas reformas que afrontou acérrimamente contra?
Vai ser um dificílimo "combate político", o conseguir convencer os portugueses que se está a fazer algo, quando é clarinho que não se vai fazer rigorosamente nada que incomode algum poder instalado.
Essa tem sido uma especialidade de Sócrates, mas sempre com a ajuda do barulho que respondia às suas afrontas, que ajudava na ilusão que havia reformas em curso. Sem barulho como continuar a ilusão de reformas?
E já agora como vai manter a ilusão de estarmos no bom caminho apesar de sucessivamente ultrapassados pelos nossos pares (este mês foi a Eslováquia que nos passou a ver pelo retrovisor)?