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Francisco Ferreira da Silva

Uma greve sem sentido

09/12/11 00:04 | Francisco Ferreira da Silva 



As greves podem ter como objectivo melhorias de condições remuneratórias ou de trabalho, para que não sejam retiradas regalias adquiridas, para protestar contra medidas de austeridade, etc., mas para ter direito a 20% do capital no âmbito do processo de privatização, como pretendem os pilotos da TAP, é, no mínimo, uma originalidade, sobretudo nos tempos que correm e estando a empresa e o País no estado em que estão.

Em 2010 a companhia aérea nacional teve um prejuízo de 57 milhões de euros. Este ano, em Setembro, as perdas atingiam já cerca de 67 milhões. Os capitais próprios da empresa, eram, em Junho deste ano, da ordem dos 406 milhões de euros negativos. A situação financeira é, por isso, desastrosa e o número de funcionários considerado demasiado elevado. Razões que, associadas ao elevado risco de conflitualidade laboral, podem afastar alguns dos potenciais interessados.

Os pilotos esgrimem o direito que lhes terá sido conferido em 1999, pelas autoridades de então, a até 20% do capital da empresa numa operação de privatização. Um acordo que nunca foi tornado público e que os pilotos costumam dizer que está guardado num cofre. Independentemente do conteúdo, o certo é que alguma coisa deve existir ou então o Governo não teria entrado em negociações. Parece, porém, que esse acordo será muito duvidoso, uma vez que privilegia uma parte dos trabalhadores da TAP - os pilotos - sobre todos os demais de forma desproporcionada.

Os pilotos são cerca de 800, ou seja pouco mais de 10% da TAP SA. O seu peso negocial advém do facto de serem determinantes na condução dos aviões. Também por isso têm um peso especial na lista de pagamentos, cabendo-lhes um salário médio bruto da ordem dos 8.600 euros. E é disso que estes profissionais parecem esquecer num momento em que todos os portugueses são chamados a contribuir com metade do subsídio de Natal e os funcionários públicos e os pensionistas se vêem confrontados com cortes nos 13º e 14º meses de 2012 e 2013, além de todos os aumentos de impostos e de preços de bens e serviços.

Os pilotos da TAP têm, como todos os outros trabalhadores, um direito constitucional à greve, mas decretar uma paralisação de oito dias, dividida em dois períodos, em plena quadra natalícia, terá consequências nefastas. Quem tiver marcado passagens na companhia nacional e se vir confrontados com a greve, pode ter vontade de nunca mais usar os serviços da companhia. As únicas que ganham com isso são as companhias concorrentes. Por isso, porque estão a prejudicar muitos outros trabalhadores da empresa e também o País, os pilotos deviam pensar bem antes de avançar para este tipo de acção. Não só se arriscam a ficar com 20% de nada, se a TAP for à falência, como também a que o Governo, se agir como outros já fizeram por essa Europa fora, feche esta empresa num dia e abra outra ao lado no dia seguinte. Como, além disso, não parece haver condições para satisfazer a reivindicação dos pilotos, é caso para dizer que esta parece ser uma greve sem sentido.
____

Francisco Ferreira da Silva, Subdirector
franciscofsilva@economico.pt




Comentários (1)

Salésia da Fonseca, | 14/12/11 09:12
mas este senhor jÁ nÃo acha originalidade o facto de o presidente executivo da tap, ter assinado um contrato com a mesma em que se compromete a indemnizÁ-lo em caso de do despedir, com 15 anos de antiguidade, mesmo que seja despedido, a fim de 1 ano.
15 x 465.000 = 6.975.000€ para quem trabalha ou trabalharia um ano.
isto nÃo É original


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