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Marta Rebelo

Uma crise de coerência

19/11/10 00:03 | Marta Rebelo 



A economia move-se por factores objectivos mas também motivada por vectores altamente voláteis ou subjectivos. A psicologia é um destes.

A indução de estímulos pessimistas é elevada ao quadrado quando percepcionada pelos agentes económicos. Dito isto, e sem escapar à dura realidade do ‘crash' da nossa estrutura financeira - pública, que a privada continua desde a revolução em estado embrionário - continuo incrédula cada vez que oiço os nossos "políticos" desanimarem a nação.

A oscilação discursiva entre a presença de espírito de saber que temos todos os olhares centrados em nós, e a demência errática de profetizar o armagedão e induzir o pavor - eis o desconcertante rumo das declarações dos agentes políticos. Estamos para lá da concordância com as medidas tomadas no imediato, as reflexões sobre o passado têm de conviver com a acção concreta.

Não entendo o aproveitamento político dos pequenos partidos, que actuam como se nada fosse com eles dada a sua dimensão. Não encontro coerência nas posições do PP, que de "Popular", em nome do rigor verbal, deveria passar a "Populista". O zigue-zaguear do PSD é inominável. Desde Setembro que os sociais-democratas, com Pedro Passos Coelho, não têm relógio, não tem substância, não têm estrutura. A que encontram hoje perdem nas declarações de amanhã. Reclama-se ao Governo que fale num só tom, preferindo o agudo ao grave, deixando cair prioridades de um ministro (das Obras Públicas) que o ministro mais massacrado com o Estado da Nação (Teixeira dos Santos) não pode tolerar, nem contrariar. Nem pedidos, que parecem de encomenda, para aliviar fardos ministeriais. Olhando para este panorama, expressões como "coligação" ou "bloco central" parecem de concretização impossível. E vamos andando numa letargia desesperada até Janeiro de 2011, com a ameaça constante da moção de censura, da queda do Governo e outros desequilíbrios conjunturais.

Não encontre o leitor nas minhas palavras um desapego à livre manifestação de opiniões ou ao exercício do direito de oposição. Apenas apego à coerência: se há necessidade de coligar, para quê produzir diariamente ‘soundbites' que antagonizam? Se não podemos destruir a credibilidade da nossa economia - pelas ruas da amargura - nem destruir integralmente a confiança dos agentes, para quê fazer do susto e do medo profissão de fé, em cada minuto de tempo de antena televisivo?

Numa Europa que só a ferros se encontrou com a realidade, agora unida pelo infortúnio e guiada pela fria agenda germânica, são dois os tempos de acção: o imediato, que não se compadece com prelecções sobre o percentual das taxas de juro da dívida pública; o estrutural, que pede bons alunos para lições tão dolorosamente postas a nu. Solucionar esta crise passa pela poupança nas palavras. Mas como em tudo, também na vocalização desperdiçamos.
____

Marta Rebelo, Jurista




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