As mudanças no conselho de administração do Banif, um dos bancos líderes da liga de honra do sistema financeiro português, são mais relevantes do que à primeira vista possam parecer.
Pelos nomes escolhidos - Luís Amado e Jorge Tomé -, pela situação de fragilidade do banco, quer ao nível accionista, quer de capitais, e pelo risco de efeito-borboleta, de um banco mais pequeno no sistema financeiro como um todo.
A banca está a fazer o seu próprio processo de reestruturação e de austeridade, em simultâneo com o programa de ajustamento económico e financeiro do País. As mudanças nas administrações, o ‘murro na mesa' dos principais accionistas, a saída de uns e a entrada de outros, são exemplos, não os únicos, desta nova dinâmica no sistema financeiro, que também tem de mudar de vida. Os grandes - da primeira liga - estão a limpar os seus balanços, como se prova pelas centenas de milhões de euros de imparidades de crédito. Os pequenos, à sua escala, têm também de fazer este trabalho. E o Banif é, talvez, o que mais tem de fazer.
Luís Amado não é propriamente um banqueir, é um diplomata de excepção e foi mais do que um ministro dos Negócios Estrangeiros, como se percebeu, cedo, quando sugeriu, contra a opinião de José Sócrates, a inscrição de um limite de dívida e défice na Constituição. ‘Leu' os ares de Berlim e Paris antes dos outros. E não se escondeu. Vai ter duas funções críticas: unir accionistas desavindos - particularmente a família de Horácio Roque que, com o seu desaparecimento, entrou em choque público e notório. E, mais importante, tem de cativar um ou dois novos accionistas internacionais que reforcem os capitais do banco e lhe dêem vida e futuro.
Jorge Tomé é um banqueiro na verdadeira acepção da palavra, e não apenas na que decorre do facto de ser presidente de um banco. A Caixa Geral de Depósitos perdeu, provavelmente, o administrador que mais sabia de banca, particularmente de banca de empresas, e que muita falta fará ao banco público que, de uma vez por todas, tem de concentrar-se em emprestar a quem quer criar riqueza e investir, e não em financiar participações ou grupos falidos. Nota de rodapé: Pedro Queiroz Pereira foi bater à porta da Caixa para comprar uma posição na Cimpor. Aí está um negócio que deveria ser proibido pelos estatutos do banco público, para isso há outros bancos, os privados. Como em tudo na vida, mais do que grandes desígnios, as instituições precisam de bom senso.
Tomé vai ter de gerir um banco que tem uma quota de mercado de 3,55% do crédito à economia e tem dificuldade em cumprir os seus rácios de capital. Vai ter de reduzir a relação entre créditos e depósitos, uma das mais desequilibradas do sistema, vai ter de vender a posição que tem no Brasil, um mercado demasiado grande para um banco que, nos dias de hoje, tem dificuldade em cumprir as exigências de capital para suportar a sua actividade no mercado português.
A dupla Amado/Tomé - como a dupla Monteiro/Amado no Millennium bcp - tem as condições para ter sucesso nestes objectivos. No final de 2014, o Banif vai ter de ser um banco diferente do que é hoje, na sua estrutura accionista e na sua estratégia. Sozinho ou, no limite, incorporado por outro banco.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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