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João Marques de Almeida

Um discurso de líder

14/12/09 00:07 | João Marques de Almeida 



Na cerimónia do Prémio Nobel da Paz, o Presidente norte-americano, Barak Obama, fez um dos melhores discursos desde que chegou à Casa Branca. Foi um discurso longo, repleto de mensagens políticas e claramente com um propósito doutrinário. e. n

Começou por reconhecer a natureza controversa da decisão de lhe atribuírem o Prémio, mas a partir daí deixou bem claro que se alguém julgaria que o poderia condicionar no exercício das suas funções, estaria enganado.

Obama teria, obrigatoriamente (e muito bem), que se distanciar de algumas práticas recentes dos Estados Unidos, como por exemplo o recurso a torturas ou a abertura de campos de prisioneiros sem estatuto jurídico. O poder do exemplo é crucial para a legitimidade política de uma grande potência como os Estados Unidos. Sendo a sua própria eleição um dos factores mais impressionantes do poder do exemplo americano, Obama sabe-o muito bem.

A partir das justificações e das qualificações necessárias, o resto do discurso demonstra uma força política e uma qualidade retórica muito grandes. Faz, em primeiro lugar, uma defesa cheia de convicção e sem compromissos do papel dos Estados Unidos na manutenção da "segurança global" durante "as últimos seis décadas", "com o sangue dos seus cidadãos e a força das suas armas". Ninguém teve dúvidas. Quem estava a falar era o Presidente dos Estados Unidos. Mas falou, simultaneamente, como líder político global. A capacidade de utilizar os "dois chapéus" constitui a primeira qualidade política do discurso. Integra-se, de resto, numa das tradições mais poderosas das doutrinas diplomáticas norte-americanas: o mundo será bem melhor se os Estados Unidos usarem a sua liderança de um modo positivo.

Em segundo lugar, Obama defendeu a necessidade da guerra, ou da "guerra justa", citando a sua expressão. Partiu da constatação realista, "o mundo é como é e não como gostaríamos que fosse"; e, por isso, por vezes é necessário recorrer à força militar. Evocou igualmente o precedente histórico, sem guerra não se teria "derrotado os exércitos de Hitler". Há um ponto muito interessante, mas quase ignorado pelos analistas, na definição "Obamaniana" de guerra justa: é uma concepção política e não jurídica. Defendeu a guerra justa, sem falar das Nações Unidas. A justiça da guerra é definida por critérios relacionados com os valores que se prossegue e a natureza dos inimigos que se combate.

Ou seja, colocou os Estados Unidos e os seus aliados do lado da justiça e os seus inimigos, como a "al-Qaeda, o Irão e a Coreia do Norte", no lado da injustiça. Sendo assim o empenho dos Estados Unidos na justiça global, se necessário através da força, vai para além da guerra do Afeganistão e inclui futuras ameaças à paz.

Só Obama poderia, na sede do Prémio Nobel da Paz, defender a liderança global dos Estados Unidos e uma interpretação política da guerra justa, omitindo a ONU. Brilhante.

____

João Marques de Almeida, Professor universitário




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