No calvário em que o PSD adora transformar a vida dos seus presidentes, enquanto líderes da oposição, Pedro Passos Coelho enfrenta três ideias feitas – por talento político dos seus adversários e também por falta de afirmação do próprio.
A primeira é uma criação do Bloco de Esquerda segundo a qual nada de relevante separa hoje o PSD do PS. Esta tese assenta no pressuposto de que os dois partidos poderiam governar com o mesmo programa e, portanto, não são alternativas mas, sim, farinha do mesmo saco.
A segunda ideia é a de que o PSD é hoje uma sociedade por quotas com dois rostos: Passos Coelho e Miguel Relvas. Ou seja, é um partido incapaz de se renovar e de atrair novas caras num projecto que seja mobilizador.
A terceira é a de que a liderança do PSD não é um assunto fechado e que uma vaga de fundo poderá entronizar Rui Rio, talvez numa noite de nevoeiro, concretizando um sonho antigo de Cavaco Silva.
As três ideias fizeram o seu caminho num partido em auto-questionamento permanente e numa conjuntura que era penosa para Passos Coelho, por lhe colar o rótulo de bengala de Sócrates.
Sem programa definido e com uma estratégia de comunicação ciclotímica, Passos Coelho esgotou o estado de graça e começou a assistir a um ‘brainstorming' laranja na praça pública.
Até que o processo protector da inércia foi interrompido pela mão involuntária do seu maior adversário, José Sócrates. E as três ideias feitas, ainda que relevantes, deixaram de ter tempo útil para a sua afirmação. Ao quebrar um acordo e as regras de convivência democrática, José Sócrates mudou o paradigma, convocando a ansiedade reprimida no PSD e oferecendo-lhe de bandeja o pretexto que Passos Coelho procurava: o de uma ruptura natural e inevitável que até o cidadão comum entende. O que parecia querer arrastar-se por uma eternidade, consumindo Passos Coelho, terá, em circunstâncias normais, um desenlace no curto prazo.
Em simultâneo, o tempo das angústias e dos ressentimentos esgotou-se, encerrando a janela de oportunidade dos descontentes no PSD.
Eis-nos, pois, em plena crise política, exigindo foco e concentração no essencial. Passos Coelho está obrigado a " dar corda aos sapatos": apresentando rapidamente políticas alternativas e exequíveis e uma equipa disponível para a execução do projecto. É muito? Não é fácil, mas é a exigência normal de um tempo exigente.
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Miguel Coutinho
mcoutinho@ongoing.com
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