Medidas delineadas para “salvar” a Grécia: congelar os salários, até que a taxa de desemprego não exceda 10% dos activos; cortar 22% no salário mínimo, para os 586 euros; diminuir em 2-3% as contribuições patronais para a segurança social; extinguir os subsídios de férias e de Natal; e, suprema violência, eliminar 150 mil empregos do Estado até 2015.
É o caos social. Estamos a falar de um resgate planeado ou de uma morte assistida?
Antes de respondermos a esta pergunta, convém referir que estas medidas devem ser articuladas com o perdão parcial da dívida, cujo modelo ainda não está fechado. A dívida pública grega é hoje da ordem dos 160% do PIB, cerca de 350 mil milhões de euros, dos quais 200 mil milhões estão em mãos privadas. E é sobre este valor que vai incidir o perdão: algo como 50% a 70% do total. O objectivo é limitar a referida dívida a 120% do PIB até 2020. Aqui entram as contradições. De acordo com o pacote fiscal recentemente aprovado, 25 dos 27 países da UE, entre os quais a Grécia, vão ser chamados a subscrever um documento em que se comprometem a isolar a parte da dívida que excede os 60% do PIB - no caso da Grécia são 100% do PIB - e eliminá-la nos próximos 20 anos, através de 20 prestações anuais e iguais. Esta regra já não existe? Os seus autores desistiram? A Grécia é uma excepção?
O que fica dito, só por si, já seria grave. Mas há pior. A Grécia vive há quatros anos numa crise profunda e este novo pacote de austeridade só pode agravar ainda mais a recessão. E a taxa de desemprego já hoje se aproxima dos 20% da população activa, só comparável à da lendária Espanha. É difícil imaginar que alguém acredite que é este o modelo que vai salvar a Grécia. A verdade é que, enquanto país do euro, a Grécia não tem solução.
O que devemos então discutir é o porquê deste novo resgate. Eu penso que, por detrás dele, está uma enorme hipocrisia. Todos sabemos que a Grécia é um caso perdido, mas a saída do euro tem de ser controlada, para evitar males maiores. O que se pretende é que, no momento oportuno, seja a própria Grécia a pedir para sair. Ou seja, fingindo ajudar a Grécia, os senhores do euro estão a obrigar a Grécia a cavar a sua própria sepultura.
Kafka não faria melhor.
O ELO MAIS FRACO
Da recessão...(PIB real, variação (%))
Ao caos social (Desemprego, % p.a.)


Fonte: Eurostat
Dos três países intervencionados, a Irlanda começou a recuperar, Portugal continua em recessão e a Grécia afunda-se irremediavelmente. Os reflexos no desemprego não se fizeram esperar: Portugal e a Irlanda estãona casa dos 13-14% e a Grécia aproxima-se dos 20%. A tudo isto junta-se a dívida pública face ao PIB, com Portugal e a Irlanda acima dos 100% e a Grécia a exceder os 160%. Esta Grécia não tem solução.
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Daniel Amaral Economista
d.amaral@netcabo.pt
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