Olhemos para a Grécia. Com a dívida pública descontrolada (163% do PIB) e o produto em recessão profunda (-5,2%), só se vislumbram duas saídas possíveis: o perdão ou a bancarrota.
E o perdão está muito difícil. Mas a Grécia é um pequeno país, incapaz de por si só ameaçar a estabilidade do euro. A solução deverá passar por uma saída controlada, para minimizar eventuais contágios, logo seguida da entrega ao FMI. Vai ficar em boas mãos.
Ao lado da Grécia está a Itália, a terceira maior economia da zona euro. E aqui tudo fia mais fino. A Itália enfrenta um cenário explosivo: grande endividamento (121% do PIB), altas taxas de juro (à volta de 6%) e crescimento na vizinhança de zero (0,5%). Mas há duas armas que jogam a seu favor: de um lado, Mario Monti, primeiro-ministro; do outro, Mario Draghi, presidente do BCE. Enfim, a Itália é demasiado grande para se deixar cair.
À Itália segue-se a Espanha, em dimensão e em problemas. O país tem uma dívida pública aceitável (70% do PIB), mas também um crescimento paupérrimo (0,6%) e uma taxa de desemprego angustiante (23% da população activa). A diferença é de natureza subjectiva: os mercados ainda acreditam na Espanha e noutros países não. Em tudo o resto é igual à Itália: demasiado grande para falir, suficientemente forte para arrastar o euro atrás de si.
Falemos agora de Portugal. Ao dobrarmos o ano de 2012, vamos encontrar-nos em recessão profunda, com uma dívida ingerível e com as agências de ‘rating' a classificarem-nos como lixo. Sem outra saída que não seja avançar para a reestruturação, com perdão ou sem ele, como é que os mercados vão reagir? Só vejo duas hipóteses: ou recusam financiar-nos ou admitem fazê-lo a taxas de juro proibitivas. E lá teremos nós de acompanhar a Grécia.
Estou a ser racional. Este é o cenário mais provável. Mas nada impede que os senhores do euro acordem um dia destes bem-dispostos e, por uma vez, decidam emitir ‘eurobonds', financiar sem limites os países endividados e pôr finalmente a economia a crescer. A Europa rejuvenescia. Fica então a promessa: na minha próxima ida a Fátima, vou acender uma vela gigante e esperar que esta chama ilumine a cabeça híbrida e casmurra de Merkozy.
Seria o milagre do século.
DÍVIDAS SOBERANAS
| Pequenos amocham...(% PIB) | Grandes sobrevivem(% PIB) |
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Fonte: Eurostat.
Claro que Portugal não é a Grécia. Mas a diferença é apenas de escala: na hora da verdade, nenhum deles vai conseguir financiar-se e o sonho do euro morreu aí. Do mesmo modo, a Espanha não é a Itália. Mas a diferença é apenas de escala: na hora da verdade, ambos são grandes de mais para falirem e os senhores do euro têm de arranjar-lhes uma solução. Cenário mais provável: os grandes sobrevivem, os pequenos amocham.
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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt
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