Se as coisas acontecerem como se anuncia, na semana que agora começa, a Assembleia recusará a actualização do PEC e na cimeira europeia imediata o primeiro-ministro terá que pedir adiamento da apresentação da proposta portuguesa, até que chegue um novo governo disposto a renovar o pedido. Só que já tudo terá então mudado.
O país terá que voltar ao mercado à procura de 4 milhares de milhões em Abril, e de 5 milhões em Maio, em condições financeiras hoje impossíveis de prever, certamente mais gravosas que as actuais. As medidas de reforço deste ano ficarão sem efeito e o governo em funções nada mais poderá fazer que cumprir o Orçamento de 2011. Os movimentos imprevisíveis do preço de combustíveis, alimentos e matérias primas, aliados à crise do Japão, confirmarão a redução do crescimento. Bruxelas exigirá as privatizações prometidas e a Zona Euro o reforço de capitais na banca privada nacional. E como, "onde não há, el-rei perde", eis que tudo será vendido barato, como aliás tem vindo a ser preparado pelos que especulam com a nossa dívida soberana. Algumas das jóias da coroa sairão de mãos nacionais e entre um quinto e um terço da banca privada terá o mesmo destino.
Um novo governo, qualquer que seja a sua maioria, chegará a Bruxelas com as calças na mão: o país estará à beira de uma falência artificialmente provocada, dividido e traumatizado por um prolongado debate, pejado de irracionalidades e falsidades e será então confrontado com novas exigências. Mais duras, muito mais que as anteriores, com o país desmoralizado. Os mercados permanecerão insensíveis à renovada cor política do governo, ávidos como sempre, exigindo mais suor e lágrimas. Bruxelas levará tempo a reconhecer as novas faces. Estas prestar-se-ão a novos equívocos. A ingenuidade do deslumbramento de recém-empossados (tal como a Irlanda) levantará mais olhares desconfiados, a química levará tempo a estabelecer-se. As medidas que hoje se recusam, mais por calculismo que por compaixão social serão agravadas na linha dura (haverá outra?), a classe média mais penalizada e a instabilidade social fará regressar a instabilidade política. A única coisa boa que sabemos é que chegaremos ao Verão com meio ano de boa execução orçamental. O governo incumbente dela fará ponto de honra. Este é apenas um dos cenários, pode haver outros, todos piores. Já pensaram no que acontecerá se das eleições artificialmente antecipadas pela imperícia de Cavaco e pela avidez dos barões que Passos Coelho deixou de controlar, resultar uma simples maioria relativa, mesmo com PSD e CDS juntos?
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António Correia de Campos, Deputado do PS ao Parlamento Europeu
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