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Pedro Adão e Silva

Tempos sombrios

29/09/09 00:03 | Pedro Adão e Silva 



Os portugueses escolheram um Parlamento à imagem da Europa: fragmentado e com o partido mais votado na casa dos 30%.

A questão é saber se os partidos portugueses saberão responder ao desafio colocado pelos eleitores - procurar pontos de entendimento e garantir estabilidade política perante uma profunda crise económica e social.

A distribuição de mandatos não favorece as negociações. Desde logo porque há uma maioria de bloqueio à direita, tendo em conta que PSD e CDS juntos têm mais deputados do que o PS (o que não acontecia com os governos Guterres). Depois porque nenhum dos partidos à esquerda do PS pode, isoladamente, viabilizar as propostas governamentais, o que promoverá a competição pelo título de guardião do conservadorismo de esquerda.

O novo parlamento cria um contexto que desresponsabiliza individualmente os partidos de esquerda, que não se sentirão pressionados para contribuir, cada um por si, para a governabilidade; e representa uma ameaça para o PS, se optar por procurar o apoio à direita. Como, aliás, revelam os resultados eleitorais na Alemanha, quando o centro-esquerda se alia à direita, as perdas eleitorais à esquerda tornam-se inevitáveis. Esta assimetria nas relações do PS com a direita e com a esquerda num parlamento com clara inclinação à esquerda, colocará, paradoxalmente, dilemas políticos de difícil superação. Ficámos com um parlamento onde todos ganharam, mas onde a soma das vitórias parciais pouco contribui para a governabilidade e para responder aos problemas do país.

Perante este cenário, ao PS é exigido que revele propensão para a negociação interpartidária, o que manifestamente não teve na anterior legislatura. Acontece que as negociações, para serem virtuosas, têm de assentar num ‘trade-off', em que uma parte dá e outra recebe. Ora entre exigências maximalistas dos partidos à esquerda e um caderno de encargos dos partidos à direita que violenta a base eleitoral dos socialistas, o PS encontrar-se-á numa posição em que pouco ou nada pode oferecer perante o que lhe será exigido.

No fim, resta o mais importante - o contexto económico e social. Enquanto não se conhecem ainda os contornos exactos da crise, uma coisa é certa, não faltará muito para que se comecem a delinear, ao nível europeu, as estratégias de saída (i.e. a forma como o Estado vai diminuir o papel entretanto adquirido nas respostas à crise). Portugal terá de regressar, inevitavelmente, à disciplina orçamental, logo, às políticas de austeridade.

Ora é de todo improvável que os partidos portugueses se entendam em torno da redução sustentada do défice. Se o fizerem, não resistirão eleitoralmente; se não o fizerem, o país não resistirá económica e socialmente. Vêm aí tempos sombrios.
____

Pedro Adão e Silva, Professor universitário

 




Comentários (15)

Vêm aí..., | 29/09/09 19:46
...tempos sombrios. Ora que descoberta que o Sr Prof fez!! Eles não vêm aí. Já cá estão há muito tempo. E é pena que ainda não se tenha cruzado com eles: tx de desemprego, produtividade, valor da divida agregada ( do estado familias empresas), pessimismo, baixo nível cultural, baixa educação, esperteza saloia dominante, etc, etc. Gostaria de lançar-lhe um desafio: que comentasse e refectisse sobre as eleições ultimas na Alemanha, com a viragem à direita do eleitorado. Os eleitores Alemães devem ser uns tansos, mas como é que continuam a ter uma economia pujante que é o motor das outras na Europa? E nós espertos continuamos a votar Esquerda (60%) e conseguimos ter uma das Economias mais pobres da Europa? Estará o problema nos opinion makers deste País? Ficava-lhe grato pelas suas reflexões. Bem haja!


Zé Cardoso, | 29/09/09 14:46
Sr Adão, nos Países civilizados e desenvolvidos da Europa, os governos são formados por coligações, e todos se entendem muito bem. Sou completamente contra as maiorias absolutas, porque normalmente todas acabam por se transformar em poderes absolutos, ao ponto de por vezes fazerem perigar a democracia!


AdS, | 29/09/09 13:46
Mesmo à beira do abismo, ainda há quem feche os olhos justifique os suas responsabilidades imputando a culpa das sua distracção a outros. Haverá algum português que acredite que o BE e o PCP ou até o CDS alguma vez tentariam por em pratica as quimeras com que compram mais uns votos? Agora aqueles que votaram exijam dos partidos em quem votaram a realização das aldrabices com que se deixaram convencer ou ao menos contribuam minimamente para que não fiquemos maios pobres. Não tenho nada contra a existência de partidos mas não confundo aqueles que tem como objectivo criar 150.000 postos de trabalho dos que prometem aumentos sem criar riqueza, dos que prometem melhor saúde sem criar riqueza, dos melhor ensino sem criar riqueza. Portugal tem os políticos que merece.


sila, cascais | 29/09/09 12:28
Acho graça ao sr. Adão descarregar para cima dos partidos que aturaram o absolutismo do sr.Socrates, a responsabilidade de tornarem governável um país que foi desgovernado durante anos pelo sr.Socrates. Onde o fanatismo os leva !


alberto, lisboa | 29/09/09 12:16
Só em Portugal é que um parlamento fraccionado é sinónimo de ingovernabilidade, julgo que somos o único país europeu, no pós-guerra, em que se formaram maiorias absolutas, que são uma aberração política. A (falta) cultura política por cá vai contra os interesses do país, é preciso exigir aos partidos que se entendam sobre as questões centrais, não se prova a eficiência das maiorias absolutas em termos de reforma dos factores críticos da governação, talvez apenas a reforma da segurança social. Se 20% de votos caem em partidos que, sendo importante que existam, estão fora do arco governativo, tan pis, o PS tem de governar com o seu programa e procurar os consensos possíveis com o PSD e PP, e ir dando indicação à opinião pública das malfeitorias(caso existam lol) perpretadas aqui e ali contra a formação de maiorias parlamentares para a legislação mais importante. Um dos principais obstáculos à estabilidade possível é a situação actual do PSD que, em vez de ser um opositor prestigiado e credível, se transformou, pela mão da inenarrável dra Leite, num cadáver político em putrefação acelerada. Vamos a ver...


Il duce, | 29/09/09 11:44
Ai ai ai ai ai ai. A democracia é uma maçada…


Straedtel, Lisboa | 29/09/09 10:51
Em Portugal, ao contrário da maior parte da Europa, só se sabe/consegue governar em maioria absoluta. Isto revela uma profunda falta de cultura democrática no nosso país.
A democracia ainda é uma criança, mas não deveria consistir, sobretudo, na obtenção de compromissos em forma de acordos, coligações ou alianças que fizessem estar representada, nas orientações políticas e morais, a maior parte dos eleitores?


lucklucky, | 29/09/09 10:15
A Governabilidade não é necessária. O Resultado das Governabilidades passadas foram mais leis, mais regulamentos, mais despesa, mais impostos, mais corrupção legal e ilegal uma vez que quanto mais poder tem o Estado mais corrupto se torna. Logo o Resultado de ter Governos a passar leis foram desastrosos. Dêem uma chance a não ter Governo!!!

Um País a duodécimos seria o menos mau que nos poderia acontecer atendendo aos personagens desta novela chamada 3a Republica que vai acabar mal.


O PAS acordou agora, Lisboa | 29/09/09 10:08
O PAS, um dos grandes mentores do programa eleitoral socialista, até à semana passada, defendia afincadamente as grandes obras públicas, os TGVs, etc., ou seja, o despesismo. Passado um fim de semana, diz que "Portugal terá de regressar, inevitavelmente, à disciplina orçamental, logo, às políticas de austeridade". De repente, ficou muito preocupado com "a redução sustentada do défice" dado que se esta não for conseguida, "o país não resistirá económica e socialmente". Òh homem, isto foi o que a Manuela Ferreira Leite andou a dizer durante as últimas semanas!!!


LOPES CARLOS, Bélgica | 29/09/09 08:13
1. Não vejo quaisquer tempos sombrios.
2. Politicamente, as Eleições decorreram com absoluta normalidade e civismo, podendo os Eleitores escolher entre 15 Opções diferentes. A Abstenção deve lida ciom atenção.
3. A boa Governança tanto pôde ser feita em maioria como em minoria. Aliás, a maioria apenas permitiu concluir bem uma unica reforma: a da Segurança Social . Temos diante de nós cerca de 8/9 anos para estudar novas formas de financiamento. Um excelente livro editado pela Fundação Luso-Americana , muito bem documentado, até já aponta 2 soluções complementares de financiamento, sem sede fiscal.
4. A questão está na necessidade imperiosa de um novo MODELO, com novo PARADIGMA. Portugal tem de fugir a este longo ciclo de desaceleração do crescimento e tem de ,falando menos no "social", nos "afectos", etc, abandonar a cauda da Europa na desigualdade da distribuição dos rendimentos.Temos de exportar mais e melhor, e isso depende das Empresas e não do Estado.


FT, | 29/09/09 08:11
Para o comentador VG: ó homem! Pare com a publicisdade paga para o PSD. O PSD teve uma ESTRONDOSA derrota e a MFLeite já não tem dinheiro para pagar mais publicidade.


jorge, cascais | 29/09/09 07:51
Desde o 25 de Abril que apenas um Governo minoritário cumpriu a legislatura, pelo que não vejo razão para estar optimista quanto ao Governo actual sobretudo tendo em conta a falte de sentido de estado e de patriotismo que têm os nossos políticos. Aliás os senhores comentadores e fazedores de opinião estão viciados nesta politiquice. Assim fala-se em táctica dos partidos com vista a obterem o poder, ou seja o que é melhor para o PS ou para o CDS ou para os outros, quando o que se deve falar é no que é melhor para o país. O SPD alemão perdeu as eleições mas durante quatro anos prestou um serviço patriótoco e inestimável à Nação e essa é a principal ( se não a única ) razão da existência dos partidos.
O SPD será no futuro devidamente compensado mas mesmo que o não seja os seus dirigentes ficarão com a consciência tranquila de ter prestado um bom serviço aos seus concidadãos que deveria ser razão bastante também para os nossos políticos.Quero mesmo ser duro : estou-me nas tintas para o interesse egoístas dos partidos,
Claro que os portugueses a votarem desta forma tornaram o país ingovernável apesar dos vários exemplos históricos da 2ª república. Sendo assim, como dizia Fernando Pessao, cada povo tem o rei que merece.


mrrm, | 29/09/09 05:53
Não esteja tõ preocupado, o enredo é bem mais simples. Com o Psd o Ps não negociará senão aqueles tópicos em qtoda egnte vota sim senão até parece mal, do género voto de pesar pelo falecimento dum chefe de estado amigo ou um aumento dos salários dos deputados. De preferência até as duas moções ao mesmo tempo, para melhor disfarçarem a mordomia. Está a ver como eles se podem entender? Bem, apara ssuntos que dizem respeito aqui aos humildes eleitores é que já pia mais fino. Portas pode apostar na extinção a prazo do PSD, e em tornar-se parceiro incontornável da giovernação, num espectro que vai desde os acordos parlamentares até à participação no governo. Depois para as políticas sociais os votos do Blco e do Pc servem para contriar o lóbi da banca em Portugal. Como o CDS não depende da banca, apenas o Psd depende, aí é fácil salvar, caso haja outra ofensiva, tanto a segurança Social como o SNS. No ensino o Cds não está para as brincadeiras e a total irresponsabilidade dp PC, que teima na não avaliação e na defesa da imbecilização metódica do país, pouco pega.
Parece-me que o maior problema está não na governação do próximo gobverno, nmas antes na instabilidade e no vazio total de projecto do PSD.
Preocupe-se antes com isso, já que uma Democracia sem uma oposição minimamente credível tem tendência a enfraquecer ou até mesmo a desaparecer.
MMartins-Sintra


João, Lisboa | 29/09/09 00:27
Os Portugueses votaram naquilo que a Comunicação Social lhes vendeu e a Comunicação Social vendeu que "Maiorias absolutas é mau", agora não se queixem, pois Governos minoritários demoram meses a tomar decisões, porque tem de perder tempo a falar com A e B e C. Isto vai fazer com que o País ainda se atrase mais.


vg, | 29/09/09 00:25
O PS vai governar por dois anos ,ms não vai conseguir passar "entre os pingos de chuva".É que, entretanto ,os portuguess vão perceber o que fizeram..


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