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Fernando Gabriel

Ta’aruf

25/03/09 00:01 | Fernando Gabriel 



No decurso de uma viagem num dos táxis partilhados de Teerão, uma passageira pede ao condutor para sair.

Fora do carro, pergunta quanto lhe deve. O taxista responde, modestamente, que o pagamento fica ao critério da cliente. A mulher insiste. O taxista também. Depois de algumas trocas cerimoniais, estabelece finalmente um preço. A mulher informa o taxista que se trata de um roubo. O taxista insiste. A mulher também. Por fim, atira a quantia de dinheiro que considera razoável para dentro do carro, acompanhada de um sermão contra a ladroagem em épocas santas (aproximava-se o Ashura). Christopher de Bellaigue, um jornalista inglês residente em Teerão, era um dos passageiros do táxi. Ao longo dos anos assistiu a inúmeras variantes do diálogo: um dos intervenientes faz uma oferta obsequiosa e manifestamente falsa, que deve ser recusada pelo interlocutor com uma justificação igualmente falsa e cerimoniosa -é ‘ta'aruf'. Na generalidade dos países árabes, ‘ta'aruf' significa conduta apropriada; no Irão o termo foi deturpado e significa hipocrisia cerimonial.

Não me surpreenderia que o termo tivesse sido referido a propósito da mensagem vídeo que Obama dirigiu aos "líderes e ao povo iraniano": uma oferta de aproximação, educada mas falsa e inaceitável. ‘Ta'aruf'. Por entre referências lisonjeadoras à cultura e história persas, Obama repete o preço do costume da normalização das relações políticas e diplomáticas com o Irão: o abandono do programa de armamento nuclear e o fim do apoio ao terrorismo xiita. Poderia ter sugerido ao Ayatollah Khamenei e ao seu Conselho dos Guardiões que se suicidassem: politicamente era o mesmo, mas não seria ‘ta'aruf'. O verdadeiro propósito da mensagem é tão evidente quanto inconfessável: com a aproximação das eleições presidenciais no Irão, o governo americano pretende retirar credibilidade à ameaça externa do "Grande Satã", que serve como instrumento de demagogia populista, e desse modo reduzir a probabilidade de reeleição de Ahmadinejad. Mas as eleições no Irão contam pouco: uma série de enxertos constitucionais colocam o poder efectivo nas mãos da elite clerical. Acima do presidente eleito paira a autoridade ilimitada do Supremo Líder, o Ayatollah Khamenei -uma degenerescência tirânica do rei-filósofo platónico. Mesmo assim, a eleição de um moderado favorável à reintegração do Irão nas normais relações internacionais é impensável para o regime.

Algumas semanas depois do regresso de Khomeini, os iranianos aprovaram a transformação do Irão em "República Islâmica" com 98% de votos favoráveis. Hoje, o Irão e a sua revolução islâmica estão doentes e a sociedade é uma versão burlesca e sinistra do "reino de justiça" prometido em 1979. A prostituição é banal e o número de divórcios crescente. O ópio é a religião do povo: um estudo publicado em Novembro de 2008 pelo Office on Drugs and Crime das Nações Unidas estima que existam mais de 1,2 milhões de viciados em heroína no Irão.

As aspirações dos iranianos estão em conflito com os interesses da elite corrupta, cuja prosperidade depende do actual estado de coisas e para a qual uma maior abertura exterior implicaria ver o seu feudo político contestado. É com esta elite, e não com o "povo iraniano", que a presidência americana temde negociar. Sucede que os governantes não vão abandonar o programa de armamento nuclear: é o seguro de sobrevivência que os protegerá contra eventuais tentativas de interferência exterior. Também nunca deixarão de apoiar grupos terroristas como o Hamas ou o Hezbollah: são instrumentos úteis, não só na luta contra Israel mas também na oposição aos projectos de hegemonia sunita. Alguns entendimentos são possíveis, sobre a estabilização do Iraque, ou na luta contra os talibãs -adversários do Irão. Mas a revolução é uma realidade total que se esgota em si mesmo. A desistência do programa nuclear significaria a normalização do regime e anunciaria o fim irrevogável da revolução -e com ele da legitimidade da elite clerical que controla o Irão.

Em resposta à mão estendida de Obama, o Ayatollah Khamenei exigiu ver mudanças efectivas na política americana, em especial o descongelamento dos activos iranianos. Se, por equívoco, uma oferta feita por ‘ta'aruf' for aceite, será posteriormente negada: Bellaigue conta a história de um estrangeiro que descobriu isto ao ser acusado por um comerciante iraniano de roubo - depois deste último se ter recusado, repetidamente, a aceitar o dinheiro do estrangeiro em pagamento. Esperemos que Obama conheça as regras do jogo e não aceite as propostas de Teerão: mais do que um erro, seria falta de educação.
____

Fernando Gabriel, Investigador universitário




Comentários (5)

João, Lisboa | 25/03/09 19:11
Excelente artigo!


schieder da silva , munique | 25/03/09 19:09
aqui em munique ha muitos iranianos alguns muito ricos todos boa gente que se radicaram aqui aquando do komeni .sao ,eram todos contra o actual governo .atè este ter decidido pelo programa nuclear em curso .todos os que eram contra passaram a favor como se um jogo de futebol se tratasse .và là perceber esta gente - um aparte as mulheres iranianas sao lindissimas


vg, | 25/03/09 14:49
Afinal,quem falou em "eixo do mal"?Continuam lá todos..


CJ, | 25/03/09 12:21
Bom artigo !


joaquim, | 25/03/09 12:10
Excelente análise. Será muito difícil este regime clerical evoluir no sentido da comunidade internacional.Acabará por cair de dentro para fora. Uma intervenção militar para interromper o programa nuclear, poderá ter efeitos catastróficos na região.


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