Ao longo deste ano, muitos descobriram que Obama era, afinal, um “realista”, seguindo uma política externa pragmática, de acordo com os preceitos usuais da ‘Realpolitik’.
Não sendo este espaço adequado para proceder à análise do significado do realismo, do interesse de Estado e do conteúdo substantivo da ‘Realpolitik' identificável nas diferentes tradições históricas da política externa norte-americana, é preferível tentar responder a uma questão concreta: o que é que um presidente americano cuja política externa fosse orientada pelos princípios do realismo nunca faria nem permitiria?
A doutrina Monroe de 1823 é a primeira articulação de um interesse de Estado permanente no continente americano. Esse interesse traduz-se num propósito muito claro: impedir a interferência de qualquer potência não americana no continente. Apesar das distorções interpretativas provocadas pela ascensão do progressismo liberal no final do séc. XIX, a doutrina Monroe permanece como o acto político "realista" fundamental. Num artigo de 1997, o historiador Walter McDougall assegurou que no momento em que uma potência hostil aos EUA pretender instalar bases num estado sul-americano, ou um país islâmico procure estender a sua rede de terrorismo ao continente, a doutrina Monroe regressará à mesa presidencial, sob um eufemismo apropriado aos tempos.
Ou talvez não. Desde 2006 as ligações políticas, financeiras e militares entre a Venezuela e o Irão têm sido continuamente aprofundadas. O procurador nova-iorquino Robert Morgenthau tem feito avisos repetidos sobre a extensão e gravidade da associação entre Chávez e Ahmadinejad: a Venezuela possui 50000 toneladas de urânio que podem estar a ser vendidas à hierocracia iraniana; o gabinete do procurador dispõe de informação conclusiva do envolvimento do Hezbollah no tráfico de droga sul-americana; algumas instituições financeiras venezuelanas estão na linha da frente do financiamento do terrorismo e da sabotagem de sanções internacionais. Nas Honduras, o anti-judaísmo iraniano passou a integrar a ideologia dos zelayistas. Uma fuga recente de informação no "The Times" revelou o envolvimento directo de cientistas russos no programa nuclear iraniano, algo que tem consequências geopolíticas tremendas e que coloca a Rússia no mesmo plano do Irão em termos da interferência no continente americano. Até agora, o putativo "realista" de Washington não mostrou qualquer capacidade política para desfazer o nó górdio iraniano, premiou Chávez com apertos de mão e fez uma pressão incompreensível sobre um dos raros aliados na América Latina, por se livrar duma tentativa de perversão populista do regime através de meios cuja legalidade e constitucionalidade foram atestadas pela Biblioteca Legal do Congresso dos EUA.
Nenhum "realista" assistiria passivo à ascensão de um neo-bolivarismo violento apoiado pela Rússia e por países islâmicos, ou à obtenção de armas nucleares por um regime terrorista e milenarista. A identidade política de Obama permanece um mistério, enquanto os sinais de tempestade crescem no horizonte.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário
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