Um País que amontoa dívida externa enquanto destrói a capacidade produtiva necessária para a pagar, acaba inevitavelmente a exportar o que lhe resta: pessoas.
Essa inevitabilidade decorre, por um lado, da incapacidade financeira de um País endividado em investir o suficiente para empregar todo o capital humano acumulado, mas também das vantagens intrínsecas da emigração em tempos de crise para o futuro dos indivíduos.
O maior equívoco em relação à emigração de jovens qualificados é o do que defendê-la é sinónimo de desistir do país. Pelo contrário: a emigração qualificada pode ser a única opção para evitar o desperdício de capital humano em alturas de crise. A teoria económica diz-nos que existem dois factores de produção variáveis que se complementam e valorizam: o capital humano (trabalho), constituído por pessoas e conhecimento, e o capital financeiro, que se converte em capital físico (máquinas, equipamento e edifícios). Os dois factores devem crescer em paralelo, sob o risco de um deles se tornar excedentário e, até, inútil. Segundo o Pordata, desde 1991 o número de diplomados no ensino superior quadriplicou, contribuindo para o aumento do capital humano. Ao mesmo tempo, o Estado e as famílias endividaram-se perante os bancos, e os bancos perante o sistema financeiro internacional, esvaziando o país do capital financeiro necessário para rentabilizar o capital humano acumulado.
Este processo não será fácil de inverter: serão necessários muitos anos de poupança do Estado e das famílias para acumular o capital necessário para relançar a economia, libertando de novo o potencial humano do país. Este período de espera poderá ter efeitos destrutivos no capital humano. Muitos quadros qualificados ficarão inactivos durante longos períodos, ou em empregos onde não utilizem plenamente o conhecimento adquirido durante anos de estudo. Incapazes de utilizar e desenvolver esse conhecimento, arriscarão a perdê-lo com o tempo. Um estudo da economista Lisa Kahn da universidade de Yale concluiu que estudantes que terminam o curso em períodos de crise e desemprego nunca mais recuperam o tempo perdido em termos de salário e carreira, mesmo quando a economia recupera. A escassez, mesmo que temporária, de capital financeiro tem efeitos negativos duradouros para os indivíduos e para o crescimento da economia como um todo.
O fenómeno da emigração qualificada ajudará a atenuar estas perdas. A opção pela emigração permite que muitos indivíduos se mantenham no activo, desenvolvendo e rentabilizando o seu talento em países onde ele é mais valorizado (com o efeito colateral de ajudar a aumentar a poupança através das remessas). Defender a opção pela emigração em período de crise não é desistir do país, é aceitar que o país, paradoxalmente, desperdiçará mais talentos se os mantiver cá.
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Carlos Guimarães Pinto, Consultor de empresas no Dubai
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