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Entrevista

“Só as exportações permitem conceber um futuro”

Sónia Santos Pereira  
24/06/12 09:40


A indústria portuguesa responde por quase três quartos do total das exportações.

O presidente da CIP, António Saraiva, defende em entrevista realizada por email a importância da indústria para a recuperação económica do País. Como salienta, a grande maioria dos produtos que Portugal exporta são provenientes do tecido industrial, que também é gerador de emprego. E salienta o esforço que as indústrias têm feito na qualidade e inovação, criando mais valor acrescentado.

No momento difícil que o País atravessa que papel a indústria nacional pode desempenhar para inverter a tendência recessiva da economia e impulsionar o regresso ao crescimento?
O papel da indústria é fundamental na medida em que este sector constitui o principal elo da integração da economia portuguesa na economia europeia e mundial. Grande parte das nossas exportações - quase três quartos do total - são bens produzidos pela indústria. Pela sua contribuição para o aumento das exportações, e também para a substituição competitiva das importações, a indústria é um sector crucial. A curto prazo, o aumento significativo das exportações é indispensável para compensar a inevitável contracção da procura interna que o Programa de Ajustamento implica. A médio e longo prazos, só o incremento das exportações permite conceber um futuro sustentável, com crescimento económico e geração de emprego.

No cenário nacional e internacional, será relevante apostar na reactivação da indústria portuguesa e no incremento da produção nacional?
Durante um ciclo de 14 anos sucessivos, apenas interrompido no ano passado, a indústria perdeu peso na economia portuguesa, significativamente penalizada face a sectores protegidos da concorrência internacional. Desde há muito que a CIP tem vindo a alertar para a necessidade de inverter esta tendência. De facto, o agravamento do desequilíbrio externo, os níveis que a dívida externa acumulada atingiu e a crise económica e financeira tornaram evidente o carácter insustentável do crescimento com base em sectores abrigados da concorrência internacional e a importância da indústria e, em geral, dos sectores produtores de bens e serviços transaccionáveis para o desenvolvimento equilibrado da economia portuguesa. Se não forem os sectores abertos ao exterior a ganharem um maior protagonismo na economia, qualquer sinal de recuperação será efémero.

Tendo por base a importância da indústria como factor de desenvolvimento da economia e de criação de emprego, qual deverá ser a estratégia da indústria nacional para vencer nos mercados?
Vencer nos mercados implica, em primeiro lugar, ir à procura desses mesmos mercados, apostar neles, aproveitar as oportunidades que encerram. Este é um esforço que, visivelmente, as nossas empresas estão a fazer. Mas o sucesso implica também maior competitividade, adequando a evolução dos custos aos ganhos na produtividade. No curto prazo, a contenção de custos é incontornável. Por isso a nossa insistência na redução da taxa social única, na redução das rendas do sector eléctrico, com equidade no esforço a exigir aos vários intervenientes e, em geral, na redução dos custos de contexto. A médio e longo prazo, as empresas terão de aumentar a sua produtividade, o que exige investimento e uma forte aposta na afirmação de marcas, no design, na inovação, na organização e na capacidade de gestão.

A indústria nacional deverá concentrar-se nos sectores tradicionais onde tem ‘know-how' ou deverá apostar mais na produção de bens e serviços com valor acrescentado?
A aposta na produção de bens e serviços com mais valor acrescentado nacional não significa subestimar o papel dos sectores ditos tradicionais. Muitas das empresas desses sectores têm prosseguido com sucesso estratégias de diversificação dos seus produtos com base na qualidade, inovação, criatividade e moda, aumentando o valor acrescentado e incorporando mais tecnologia. As empresas de vários desses sectores conseguem já vender os seus produtos no exterior a um preço médio significativamente superior ao dos seus concorrentes. Diria que é necessário reforçar toda a estrutura produtiva do país numa perspectiva inovadora, moderna e competitiva.

Trabalho publicado na edição de 21 de Junho de 2012 do Diário Económico

 





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