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Vitor Bento

Serei só eu?!

11/11/09 00:02 | Vitor Bento 



As Previsões do Outono da Comissão Europeia mostram que a situação financeira do país se continua a degradar a um ritmo já insustentável.

Começando pelas contas externas, Portugal apresentará este ano o segundo maior défice da balança de transacções correntes da zona euro (a seguir a Chipre) e o terceiro da União Europeia (também atrás da Bulgária). Comparando com 2007, a Espanha reduz o seu défice de 10% do PIB para 5.4%, a Grécia de 14.7% para 8.8%, a Bulgária de 22.5% para 13.7%, mas Portugal aumenta de 9.8% para 10.2%. Não se trata, pois, de uma consequência (geral) da crise internacional, mas sim de um problema estrutural, que nos é específico. Devendo já mais de um ano de rendimento e com metade do crédito anual destinado a pagar juros, alguém consegue provar a sustentabilidade deste rumo?!

Mas, surpreendentemente, os custos unitários do trabalho, em termos reais, registam o sexto maior aumento da UE (entre 27) e o quarto da zona euro (entre 16). Compreende-se que é uma consequência "natural" do ano eleitoral, de a economia estar (erradamente) orientada para o sector não transaccionável e de este estar cada vez mais imbricado com a política. Mas mais ninguém vê que isto é suicida para o emprego e o potencial de crescimento?

Passando às contas públicas, Portugal apresenta o quinto maior défice (8%) e a quarta maior dívida (77.4%) da zona euro e o oitavo défice e quinta dívida da União. Mas isto apenas se refere ao "perímetro oficial".

Se alargarmos a vista (recorrendo a dados oficiais), observamos o seguinte. No final de 2008, a dívida oficial representava cerca de 66% do PIB. Mas, ao mesmo tempo, a dívida das empresas públicas não financeiras representava 25% do PIB e os encargos futuros com as PPP (descontados a 5%) - substancialmente equivalente a ‘stock' de dívida - somavam mais 15% do PIB. Mesmo que se considere que, da dívida empresarial, uns 10% do PIB pertence a empresas "auto-sustentáveis", ainda assim fica um valor considerável (15%). Ao longo desse ano e não obstante o défice oficial ter sido contido abaixo dos 3%, o endividamento de todo este perímetro público alargado, aumentou em mais de 10% do PIB. E em 2009 aumentou certamente muito mais do que isso (só 11% do PIB é à conta da dívida oficial). O que significa que os direitos de saque constituídos sobre os impostos futuros (descontando os 10% de dívida de empresas "auto-sustentáveis") já devem exceder os 120% do PIB. E não há indícios de parar.

Não podendo inflacionar a economia, surpreende-me que se não consiga, ou queira, ver que isto deixa inexoravelmente inscrito no nosso futuro o aumento de impostos e/ou a redução de prestações sociais. E que, além de problemas sociais, isso tornará ainda menos atractivo investir em Portugal, agravando a espiral empobrecedora.

Espanta-me por isso que a esquerda política não tome estas preocupações como suas, porquanto a factura acabará paga, inevitavelmente, pelos mais pobres e desfavorecidos.

Gostava muito que me demonstrassem estar errado, mas sem meter fadas nem duendes.
____

Vítor Bento, Economista




Comentários (11)

Capitalista, | 10/12/09 00:11
Concordo que o défict externo é excessivo.
Como podemos mudar isto?
Talvez seguindo o conselho do presidente da Jeronimo Martins: subindo radicalmente os salários mais baixos ( potenciando a produção interna destinada a escalões de baixo rendimento) e congelando os salários mais elevados ( diminiundo a propensão á importação). Não nos devemos esquecer que 5% de aumento em salários de 5000€ ( o corrente no mercado) corresponde ao aumento de 30 pessoas que ganham o ordenado mínimo à taxa de 2%
Por outro lado, o crescimento com base nas exportações está condenado:
Ainda ninguém viu que com a globalizção, o mundo está num modelo de economia fechada, e que o raciocínio corrente nos últimos 150 anos acabou.
Tudo terá que mudar: todos os paises pensam crescer com base na exportação, restringindo o consumo interno. Só que na Lua e Marte ainda não há consumidores....
Talvez o ultimo trabalho de Paul Krugman seja a primeira abordagem, a esta situação, ainda que não explícita


rr, | 11/11/09 16:17
Excelente artigo.


alberto, lisboa | 11/11/09 12:37
Concordo em absoluto com a análise. Portugal não se livra de aumento de impostos e/ou redução das prestações sociais, SNS incluido.Em alternativa, cortar brutal e rápidamente na despesa pública, que o mesmo é dizer, nos salários dos funcionários públicos, por redução do quadro ( aí há que financiar o corte do vínculo legal, ouro ??? ), mas o caminho é esse e é cada vez mais estreito. A outra via ( a mais saudável ) é voltar ao crescimento que, mesmo que modesto ( 2% ), já seria um grande contributo. Mas aqui, depois do desmantelamento da indústria transformadora, não vejo como se aumenta a quantidade de bens transaccionáveis que possam aumentar as exportações. Uma quadratura do círculo a que as más políticas nos conduziram, incluindo-se nestas a impreparação para a entrada na moeda única, principal responsável pelo estado da dívida externa.


Ana Costa, | 11/11/09 11:51
Embora não tenha preparação em economia para analisar o debate em relação aos números que apresenta,dou-lhe razão num aspecto,era sobre tudo isto que os nossos recem-eleitos deputados se deviam preocupar e debater.Contudo quem ouvir os seus representantes andam muito atarefados com a avaliação dos professores,tema que já foi por eles considerado prioritário,bem como outros,taxas moderadoras que todos já sabem que vão acabar,taxas do multibanco que já sabem que para já não vão ser implementadas,no fundo num campeonato para ver quem leva a taça para casa.


PPP, Lisboa | 11/11/09 10:21
Excelente artigo, como sempre.

No meio da argumentação extremada e politizada a que nem mesmo os economistas mais ilustres da nossa praça têm sabido resistir, haja ainda quem, com clareza e lucidez, coloque a questão como ela deve ser colocada.

Trata-se "apenas" do nosso modelo de desenvolvimento e da necessidade de o alterar; de continuarmos alegre e conscientemente a ignorar o óbvio; e de escolhermos, como cidadãos , que futuro queremos para este (ainda) nosso país.


Realista, Porto | 11/11/09 08:53
A ver se desta vez me deixam passar. Quanto ao deficit da balança de transacçoes correntes eu considero que este é de facto o pior indice da nossa economia. Mas, tanto quanto sei, ele tem melhorado com a crise, passando de cerca de 10% do PIB para perto de 8%. O autor tem a certeza de que piorou? Quanto ao deficit das contas públicas tambem me surpreende que seja o quinto da zona euro. O autor tem a certeza de que o deficit vai ser de 8%, como previu a UE? Tenho à minha frente previsoes da revista The Economist, que (não inclui todos os paises) prevê para Espanha 10,8, UK 14,5, França 8,2. Tambem me surpreende que com 77,4 (???) tenhamos a quarta maior dívida da zona euro. No que respeita a deficit e dívida pública, depois da turbolencia gerada pela crise, o melhor será esperar pelos valores reais. Mas ainda que estas últimas previsões da UE estejam correctas elas serão assim tão alarmantes? Não é muito pior a falta de crescimento económico, a divergencia em relação à Europa em termos de crescimento? Para mim é aqui que bate o ponto. TEMOS QUE VOLTAR A CRESCER PELO MENOS AO NIVEL DA MEDIA EUROPEIA. E para isso precisamos de investimento público.


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