Economico logo
Nova tecnologia exclusiva para utilizadores registados
Martin Wolf

Sequelas de uma união precipitada

22/06/12 00:01 | Martin Wolf 



“Antes que cases, vê o que fazes”. Foi com arrebatamento e paixão que, há 20 anos, os parceiros da Alemanha persuadiram – alguns diriam chantagearam – a economia mais poderosa do continente a sacrificar a sua independência monetária.

Porém, e citando o príncipe de Salina, personagem da obra "O Leopardo" de Giuseppe di Lampedusa, sobre a sua própria união indissolúvel: "Fogo e chamas por um ano, cinzas por trinta." Agora, chegou a hora das cinzas da zona euro.

Imagino que os chefes de governo do G20 exteriores à zona euro se sintam na pele de conselheiros matrimoniais, tentando reconciliar os cônjugues cujas personalidades e valores são demasiado diferentes para viverem felizes juntos. A concessão imprudente de crédito anterior a 2007 agudizou os problemas. Essa imprudência, empolada pela ideia de que o casamento tornava todos iguais, agravou ainda mais a crise.

O casamento pode ter sido uma escolha insensata, mas o divórcio seria uma solução terrível. É neste contexto que temos de analisar as opiniões do parceiro dominante: a Alemanha. Segundo uma tradução que recebi da embaixada alemã, Angela Merkel, a cautelosa chanceler, disse na semana passada ao Parlamento alemão que gostaria de dizer "a todos os que [...] estão empenhados em persuadir a Alemanha de que precisamos dos ‘eurobonds', dos fundos de estabilidade, de um esquema de garantia de depósitos bancários coordenado a nível europeu, de vários milhares de milhões de euros e muito mais: sim, a Alemanha é forte. Mas também temos consciência de que a força da Alemanha não é infinita. [...] A mediocridade passaria a ser a bitola da Europa e seríamos obrigados a abandonar a nossa meta de manter a prosperidade face à concorrência internacional."

A isto acrescentou: " O pacto orçamental é o primeiro passo rumo a uma maior unidade e a um maior controlo ao nível europeu. É, pois, crucial que apenas se abdique do poder nacional quando estiver claro que isso envolverá uma supervisão independente por parte das instituições europeias." Resumindo, a Alemanha não tenciona dar mais dinheiro, todos os membros da zona euro têm de transformar-se numa Alemanha e a Alemanha só estará disposta a abdicar de alguma soberania nacional quando - e apenas quando - houver regras firmes e controlos credíveis no plano europeu.

Haverá tempo para impor as novas regras e procedimentos num contexto de fortes desequilíbrios internos, de acentuada divergência ao nível da competitividade e de profundas pressões orçamentais? Independentemente da resposta é evidente que a abordagem alemã continuará a privilegiar uma política de forte austeridade nos países vulneráveis e, muito provavelmente, um crescimento medíocre na zona euro. Isto, por sua vez, tenderá a provocar crises políticas e económicas periódicas, mesmo que a zona euro sobreviva. É possível que os conselheiros matrimoniais se perguntem porque têm de suportar tudo isto. A resposta é clara: desta vez, a Alemanha quer garantir que os seus parceiros vão comportar-se como Berlim deseja.

Antevejo cinco resultados possíveis. Primeiro, um casamento feliz sob os termos da Alemanha, mas só depois de um doloroso período de ajustamento. Segundo, um casamento infeliz que apenas resiste porque a separação é demasiado onerosa. Terceiro, o casamento entra num processo de acomodação mútua, no qual o Norte se torna mais meridional e o Sul mais setentrional. Quarto, uma separação parcial em que os restantes membros adoptam uma das três categorias anteriores. Quinto, e último, a separação total.

A Alemanha não terá a Europa que deseja nem rápida nem facilmente. Se a separação total ou parcial for evitada, o período de dificuldades será longo e doloroso. Estimo, por isso, que a crise da zona euro seja uma longa novela - a não ser que acabe em tragédia.

Tradução de Ana Pina
____

Martin Wolf, Colunista do Financial Times




Comentários

Ainda não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!
Envie o seu comentário

Disclaimer: "O Económico apela aos leitores para que utilizem este espaço para um debate sério e construtivo, dispensando-se, para o bem de todos, o insulto e a injúria gratuitos. Comentários inadequados devem ser denunciados e quando tiverem mais de três denúncias serão eliminados automaticamente. O IP do leitor não será revelado mas ficará registado na base de dados".

Os comentários enviados serão publicados após aprovação. O DE reserva-se o direito de não publicar comentários considerados como ofensivos ou sem ligação alguma ao artigo em questão

Publicidade

Collapse

Bolsa

Close
-
PSI 20
-
FTSE 100
-
DAX 30
-
CAC 40
-
SMI
-
AEX 25
-
IBEX 35
-
DOW JONES
-
NASDAQ
-
BOVESPA

Acções do PSI 20

-
-
ALTRI
-
-
JERON. M.
-
-
BPI
-
-
BANIF
-
-
MOTA EN.
-
-
ESFG
-
-
PORTUC.
-
-
BCP
-
-
PT TELEC.
-
-
BES
-
-
COFINA
-
-
REN
-
-
SEMAPA
-
-
SONAE IN.
-
-
EDP EN.
-
-
SONAE
-
-
EDP REN.
-
-
SONAECOM
-
-
GALP
-
-
ZON
Feed com delay de 15 minutos

Divisas


 
 
A tecnologia que muda a internet.
MyTable
Collapse

Económico Digital

Close
Económico Investidor