Política

07/05/12 00:05

Sarkozy acabou a ouvir “desaparece, meu palerma”

Luís Rego

Numa parte de Paris, fala-se mais de empregos e salários que de mercados.

Sarkozy acabou a ouvir “desaparece, meu palerma”

"Casse toi, pauvre con". A resposta infeliz do presidente Nicolas Sarkozy a um cidadão exaltado no salão agrícola em 2008, voltou ontem a ser ouvida na Bastille, onde milhares de apoiantes de François Hollande celebravam a vitória dos socialistas. "Sarko, desaparece meu palerma", gritavam. A mensagem nos últimos dias já tinha sido espalhada pela cidade com um tag, tentando fazer deste voto um sufrágio a Sarkozy. A violência verbal que, segundo os seus detractores, caracterizou parte da presidência de Sarkozy, voltou-se contra ele.

Ontem, na capital francesa foi preciso ir para os bairros mais abastados da cidade para encontrar, de forma aleatória, vários eleitores que dissessem à boca cheia que votaram no actual presidente. Semanas e semanas de vantagem em todas as sondagens deixou o eleitorado conservador desgostoso. Na mesa de voto de Faubourg Saint Honoré, no 8º distrito, a abordagem do jornalista estrangeiro foi recebida com uma boa dose de crispação. Com um ar distinto, Julien deu o primeiro nome muito a medo. Alto, casaco creme sobre os ombros, muito irritado, diz que Sarkozy "não é um homem perfeito mas é um capitão, e precisamos de ser homens fortes". E Hollande? Baixa o tom de voz para a mulher, que estava ao telefone, não o ouvir e explica: "Sabe que ele é divorciado...". Uma característica que também assiste ao actual presidente. Julien não se distrai. "Sim, mas sabe que Hollande viveu muitos anos com a Ségolène Royal, uma mulher mandona e muito difícil - isso define o homem que ele é ...". Nisto, a sua mulher desliga o telefone e Julien não pode concluir o seu raciocínio. De forma ríspida, muda de tema: "Hollande nunca foi ministro, é inadmissível ser presidente sem nunca ter sido nada neste pais", e saiu a correr.

Haverá apoiantes de Hollande neste bairro? "Claro. Não vê que tenho barba por fazer? Nunca poderia votar Sarkozy", atira Frederic, um jovem de 29 anos, com um enorme sorriso desdentado. Na outra ponta da faixa etária, Marie, vestida a rigor, explicava com voz trémula que percebe o desejo de mudança dos jovens. "Mas tenho muito medo de como os mercados financeiros vão reagir amanhã", explica. Esse era um dos temores mais ouvidos sobretudo até à primeira volta das eleições, tendo em conta as propostas expansionistas de Hollande.

No outro lado da cidade (a leste), fala-se mais de salários e empregos do que de mercados. José Duarte, um português que vende peixe num mercado municipal, diz-se desiludido com Sarkozy. "Prometeu-nos mais salário por mais trabalho. Nós cumprimos com a nossa parte mas ele não cumpriu com a dele e agora vai ter o que merece". Outro desiludido num bairro de esquerda em Paris é David, 32 anos, quadro de uma empresa de auditoria. "Sou estruturalmente de direita mas Sarkozy governou para ele e para os amigos dele, tenho pena que o seu partido UMP não tenha escolhido outro candidato".

Hollande não parece entusiasmar ninguém. Sophie Beaubert, técnica de som, na casa dos 30, foi votar com os seus dois filhos. "É verdade que Hollande é um pouco mole mas o Churchill também era", explica com optimismo. Na alternativa a Sarkozy também vale tudo na esperança de um mundo melhor. Na mesma assembleia de voto, na rua Turbigo, no 3º distrito, Lea é uma advogada de 45 anos, pede "um país mais radical, mais livre, mais credível, mais protector e menos rígido". A melhor imagem da vontade da maioria do povo francês foi dada por uma descendente de portugueses, na casa dos 40. Questionada sobre as expectativas para a noite eleitoral, rasgou o boletim de voto de Sarkozy à frente dos jornalistas. Como Sinead O'Connor com a imagem do Papa.

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