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João Ferreira do Amaral

Salários e competitividade

06/03/10 00:03 | João Ferreira do Amaral 



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Recorrentemente, alguns economistas estrangeiros e portugueses vêm sugerir uma descida de salários nominais como forma da nossa economia ganhar, ou melhor, recuperar a competitividade externa que tem perdido desde meados dos anos noventa.

O problema de se fazerem afirmações como estas é que elas se referem a um assunto muito sério, que afecta de forma directa o rendimento de milhões de famílias e que, portanto exigiriam à partida uma fundamentação económica clara. O justificado alarme público que tais declarações provocam imporia, com efeito, que quem as faz demonstrasse com cálculos credíveis a justeza da sua proposta.

Do nosso ponto de vista, a proposta de redução salarial no sentido de melhorar a competitividade não tem qualquer fundamento técnico-económico sólido e revela que quem a sugere não fez um mínimo de cálculos sérios sobre o assunto.

Tentámos, por isso avaliar em que medida se justificaria uma redução salarial nominal para obtermos uma melhoria da competitividade. Para isso, como base na matriz de relações inter-industriais de 2005 (fluxos nacionais) calculámos o conteúdo em salários - conteúdo directo e indirecto (este último através das matérias-primas e outros fornecimentos que o sector exportador consome) - do sector exportador. E chegámos à conclusão que esse conteúdo é de cerca de 33%, ou seja, se os salários diminuírem (ou aumentarem) 10% os preços das exportações, tudo o resto se mantendo constante, caem (ou sobem) 3,3%. O que é que isto significa? Significa que a descida de salários é um instrumento particularmente ineficaz para melhorar a competitividade externa. Por exemplo, para se atingir uma melhoria de 20% na competitividade externa os salários teriam de descer 60%!

Porque é que isto sucede? Por um a razão evidente: é que o conteúdo directo e indirecto em importações das exportações portuguesas é muito elevado (cerca de 40%, de que uma parte importante tem a ver com o petróleo) pelo que só os restantes 60% do valor das exportações são repartidos entre salários e rendimentos do capital.

E, note-se, nem sequer argumentamos com outros efeitos da descida salarial claramente inaceitáveis, como seja o seu impacte na solvência das famílias que recebem rendimentos salariais, as quais veriam os seus rendimentos descer ao mesmo tempo que as dívidas que contraíram se manteriam no mesmo valor.

A nossa conclusão é a de que quem advoga uma descida geral dos salários nominais para melhorar a competitividade externa teria toda a vantagem em fazer algumas contas.

Com a co-autoria de João Carlos Lopes, professor no ISEG
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João Ferreira do Amaral, Professor do ISEG




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