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Pedro Adão e Silva

Sair, ficando

19/05/09 00:03 | Pedro Adão e Silva 



A decisão “saio, mas fico” de Manuel Alegre acabou por ser a melhor solução para todos. Para Alegre, que mantém a autonomia face a Sócrates e para Sócrates, que não fica mais fragilizado à esquerda.

Até porque Alegre, depois das críticas substantivas e do distanciamento em questões centrais da Governação (ex. o código do trabalho), sairia descredibilizado se aceitasse integrar as listas ao Parlamento, ao mesmo tempo que essa decisão de pouco serviria a Sócrates. Mas para além da personalização, há questões mais relevantes suscitadas pela relação tensa entre Alegre e o PS.

Pese embora as sondagens dos últimos anos revelarem uma pulverização eleitoral sem paralelo nos últimos anos, as eleições europeias encarregar-se-ão de fazer regressar a bipolarização. Uma bipolarização que, no essencial, não assentará em transferências de votos entre campos políticos mas que ocorrerá, por um lado, entre partidos de direita e, por outro, entre partidos de esquerda. Quando chegarem as legislativas, o que vai estar de facto em causa é uma escolha entre uma vitória do PS e uma vitória do PSD - cenário tanto mais credível quanto maior for a proximidade entre os dois nas europeias.

Na sexta-feira, Alegre afirmou que "não entrará em nenhum combate para derrotar o PS e que estará sempre ao lado dos socialistas numa luta eleitoral contra a direita". Ora, esta declaração não apenas sugere que Alegre se envolverá na escolha do próximo Governo, como, pelo peso político que, de facto, adquiriu, ajudará a definir os termos em que ela ocorrerá, condicionando a linha discursiva do PS para a campanha eleitoral. Com o PSD com resultados em redor dos vinte e pouco por cento e com um peso igual ao dos votos somados no PCP e no BE, o PS podia fazer uma campanha em que "malhava" de modo igual à esquerda e à direita. A partir do momento que o PSD começa a concentrar os votos da direita, o PS precisa de mobilizar os votos do seu campo político e apostar de novo na bipolarização.

Nesse exercício, Sócrates beneficia da competição directa com Ferreira Leite, na medida em que é o único que é, de facto, percepcionado como sendo candidato a primeiro-ministro. Mas não basta. É preciso que os portugueses, e nomeadamente os que votaram PS mas que agora se sentem menos ou nada inclinados para voltar a fazê-lo, por um lado, sintam que o regresso do PSD ao poder é um mal maior do que um novo Governo PS e, por outro, que os socialistas se revelem capazes de apresentar um programa de resposta à crise económica e social, para além das soluções de emergência que têm dominado a agenda. Manuel Alegre, simpatizemos ou não com o seu percurso político e com as suas opções recentes, pode ser determinante para o PS concretizar este duplo objectivo. O que só serve para provar que, por vezes, estar fora acaba mesmo por ser a melhor forma de ter mais peso interno.
____

Pedro Adão e Silva, Professor universitário




Comentários (4)

Gamelas, lisboa | 19/05/09 20:55
Este comentário político, feito por uma pessoa que faz parte do aparelho do PS e é, nomeadamente, um dos speechmakers de José Socrates, não deixa de ser curioso: faz uma análise pretensamente neutra, mas é politicamente comprometido; afirma como "melhor solução" a paz podre, não conflituosa, entre PS e Alegre; fala de uma relação tensa entre Alegre e o PS, como se de uma tensão entre um indíviduo e um partido se tratasse (na verdade, Alegre tem uma representação considerável, não só em termos de votos no eleitorado nacional, mas também no que respeita à própria representação partidária); e afirma como facto o desejo de uma bipolarização partidária, entre PS e PSD, quando há bem pouco tempo o PS surgia nas sondagens como vencedor inequívoco das eleições que estão para vir (futurologia?). Uma questão é ser analística político, outra é ser político: qual dos papeis prefere assumir? Professor Universitário, seja uma coisa ou outra e, se quiser ser as duas, seja mais coerente e explícito nos seus desejos.


NapoLeão, | 19/05/09 12:51
Alegre devia ter sido coerente consigo: devia ter saído "de cabeça erguida". Assim, continua "a comer da gamela" da AdR como os outros. Era altura de sair "à francesa" com um grande "au revoir" !


LL, | 19/05/09 09:45
Manuel Alegre cometeu aqui o seu suicídio político. Cavalgou com o "seu" milhão de votos sobre o pavor do PS ao aparecimento de um novo PRD que o afastasse do poder por mais uma década, à semelhança do que aconteceu com Cavaco Silva (por favor não lhe digam que os votos foi o PS e Mário Soares que os perderam e não ele que os ganhou, não vá ficar deprimido). Tudo se resumiu na declaração de uma apoiante: criar uma cisão formal e iniciar um partido "dá muito trabalho". Entende-se que Manuel Alegre não esteja para isso, que não queira abdicar do seu estilo grande-burguês para se dedicar ao verdadeiro e consequente combate político. É sem dúvida mais fácil ser um franco-atirador de "fogo amigo" para dentro do PS, municiado de irreal lirismo, atingindo de tempos a tempos a realpolitik de "neoliberalismo" imberbe que por lá se usa. Mas então esqueça as ambições presidenciais, porque ser presidente também dá trabalho e muito. O cargo é demasiado sério para que o PS aposte num poeta bon vivant. Ainda por cima depois da tareia que o erro de casting de Vital Moreira lhe vai custar...


vg, | 19/05/09 00:16
O grande ganhador foi o BE.Só faltaria que a Alegre fôsse prometido apoio para eventual campanha a Belém.Que grande fingidor, o poeta..


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