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Daniel Deusdado

Sabor: o último crime

02/09/09 00:03 | Daniel Deusdado 



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Imagino que 95 – para não dizer 99 – por cento dos leitores deste jornal consideram essenciais as barragens prometidas pelo Governo.

São os mega-investimentos unânimes de Sócrates, sem críticas de Cavaco ou Ferreira Leite ainda que não incluam "rigorosos estudos custo-benefício" quanto à perda irreversível daquele pedaço último de um Portugal quase inóspito. Além disso, a formatação salazarista da "boa barragem" na consciência nacional não nos deixa ver que elas têm aspectos muito negativos - por exemplo, o impedimento da chegada de areias à foz dos rios e ao mar, o que evitaria uma parte da erosão costeira.

No essencial, queremos energia. O mais barata possível - seja de barragens, a carvão ou até nuclear... Por isso não é fácil de explicar que fazer a barragem do Sabor é um dos maiores atentados ao território praticado por esta geração de portugueses.

Um vale escarpado e "perdido", sem "utilidade económica", natureza pura... Isto ainda significa algo? Quanto vale o fluir de um dos últimos rios livres da Europa? Biodiversidade em estado selvagem? Águia-real, cegonha preta, para além de lobos, javalis, martas... com cadeia trófica interrompida? Barbos e bogas a subirem o rio? Pensamos sempre que vamos sobreviver a tudo, e que a sistemática quebra de ciclos naturais nos é indiferente e não faz mossa à nossa saúde. Mas a prazo, a conta chega. E isto só é possível porque as espécies não votam nem fazem manifestações.

Olhe-se para o vale do Sabor e de um lado temos uma promessa de produção de 0,6 por cento da energia nacional (ou 0,3%?, ou 0,5%?) ali. Do outro lado da balança estão 40 quilómetros (!) de albufeira num vale escarpado, cujos desníveis ultrapassarão os sete metros de altura. Ainda por cima, no Verão, o vale sentirá os efeitos da água esverdeada (eutrofizada) pelos 30 e muitos graus que vai atingir, tornando-a inútil até para o turismo...

Sim, vamos ter mais 0,6% de energia e a EDP fez questão em dizer-nos - através da maior e mais demagógica campanha de marketing de que me lembro - que poderemos andar lá de barco, e que a natureza vai agradecer, e que, aquilo sim, é energia limpa... Nenhuma medida compensatória da EDP desfaz a perda irreversível do vale.

Há barragens que, para o mal e para o bem, já estão feitas e estão a ser ampliadas. Outras, novas, situar-se-ão em pedaços do território onde já não há muito para salvar. Mas o Rio Sabor podia e devia ser salvo. É o último reduto do território português ainda selvagem. Vai morrer pela mão de Durão Barroso enquanto presidente de uma Comissão Europeia que tem ignorado uma avaliação rigorosa dos danos de um território em Rede Natura. A assinatura final é de José Sócrates e António Mexia. Assim se vai fazendo a História de Portugal.
____

Daniel Deusdado, Jornalista




Comentários (23)

Mrrm, | 02/09/09 19:57
As barragens modernas têm sistemas de circulação dos peixes e t~em sistemas de controlo automático da qualidade e da tempertura das àguas. A propósito essa tecnologia, como enorme percentagem da tecnologia (alta e baixa tecnologia) é de origem portuguesa. Pese embora que os ambientalistas têm razão em defender a biodiversidade e a defesa do meio ambiente, a sua argumentação soa muito a oco e a algum radicalismo. Como se sabe, o PNPG tem uma péssima relação com a população local e isso deve-se à falta de bom senso básico dos ambientalistas. Como infelizmente optamos por não ter o nuclear excepto em cerca de 20% da lectricidade que importamos então temps que fazer opções. A barragem do Foz Coa seria, dizem-me os engenheiros, perfeitamente compatível com um parque temático das gravuras, e a àgua proteje-as muito mais do que o ar. Por teimosia bacoca e por uma visita de rei de espanha não a fizémos. Agora temos lá uma lixeira a fazer de parque automóvel e ninguém a ver as gravuras, que têm interesse científico. Podíamos ter uma albufeira e visita às gravuras com um pequeno submarino como o usado há anos para ver golfinhos no Algarve. No Sabor não há gravuras (que se saiba, as obras do Foz Coa é que as expuseram) e alega-se ser uma paisagem pristina. Pois pode continuar a ser uma paisagem protejida, mais protejida até, dado o PNPG não ser, de todo, um exemplo correcto de proteção da paisagem.
MMartins-Sintra (paisagem algo protejida, mas mal)


Carlos santos, Lisboa | 02/09/09 18:52
Os rios são fábricas de peixes e de praias. As barragens aniquilam as praias por cortarem a circulação dos sedimentos para a costa. Além disso, as barragem aniquilam o peixe.


Manuel Gandarês, | 02/09/09 18:31
Não sei se o autor conhece a fauna de barragens já construídas.Eu com conhecimento de causa,e porque sou pescador,posso afirmar que no caso das barragens alentejanas,as bogas e os barbos continuam lá e a reproduzir-se todos os anos como "Deus manda".Quanto às aves houve um incremento espectacular em número e espécies.Esses argumento estão estafados e são usados por quem desconhece as coisas.As barragens só tem implicações danosas em relação á foz dos rios devido ao aumento do assoreamento,provocado pela diminuição do caudal.


Prudente, | 02/09/09 16:14
Os ambientalistas ou gostão de viver a luz das velas ou gostam de pagar muito caro pela electricidade.
As barragens são a forma mais rentavel de produzir energia limpa.
è por caus destes ambientalistas k este Pais não avança.
Enfim.....
Nada está bem , tudo se critica, mas os k criticam não tem soluções.
Enfim......


JB, | 02/09/09 16:04
"O do contra":De facto a linha de caminho de ferro entre Mirandela e Bragança, foi encerrada no tempo em que o Presidente da Républica actual era 1º ministro! Foi o começo da debandada transmontana! E se era uma viagem linda! Tudo acaba, aqui em Trás os Montes! Deixem vir investimento para cá, a terra precisa! Os bichinhos não morrem! Ou será que também têm medo que o rato Cabrera vá desta para melhor?! No litoral tudo é permitido...


NapoLeão, | 02/09/09 15:38
Agora qq casa velha ou calhau é...património, parque natural ou nacional. A maior parte destes patrimónios custam dinheiro, o que vai rareando. Depois, os tais parques são abandonados e servem de treino para os bombeiros (amadores=voluntários) treinarem ! Façam lá a barragem e deixem-se de tretas como a não construída no Foz-Côa ! Tenham juízo !


xx, | 02/09/09 13:40
LC é um bocado ôco e obtuso, mas não deixa de ter parcialmente razão. Assim como FFC. Apenas na parte que constatam o impacte ambiental - irreversível - e no facto que algum sacríficio de poupança de energia é necessário e benéfico.
Infelizmente, ambos são caturras por não perceberam em que prato da balança está a razão.


J Rodrigues, | 02/09/09 13:02
Sou apoiante de energias limpas e produzidas em Portugal tal como as barragens, mas não o contesto porque não tenho competência técnica na matéria que o senhor desenvolve. Todavia coloco-lhe a seguinte questão: A barragem de Castelo de Bode, inserida em ambiente natural idêntico ao que descreve, que efeitos nefastos trouxe para as gerações vindouras (nós)?
Poderá fazer uma crónica sobre isso?


LC, | 02/09/09 11:41
Claro. Quem pensa como o Sr. Daniel devia ser obrigado a viver com metade da energia que a média dos restantes cidadãos. Estamos contra tudo. Seja hidroelétrica, seja nuclear, seja carvão, seja lá o que for, estamos sempre contra. E depois queixamo-nos que os preços da energia são caros.


FFC, Lisboa | 02/09/09 10:59
É provável que a barragem de Foz-Coa, numa avaliação comparada, tivesse menores impactes ecológicos que a de Baixo Sabor. No entanto, vingaram as gravuras e o erro foi feito.
Penso que ninguém põe em causa que as barragens têm importantes impactes ambientais. A questão que se põe é sim de quais as alternativas de produção de energia renovável, de baixo custo e que permitem estabilizar o funcionamento da rede eléctrica? Sobre isto o autor nada diz...pelo que penso que por um pouco demagógica que seja a campanha da EDP, o seu artigo é-lo certamente mais.
A não ser que seja o primeiro a assumir que desiste das lâmpadas, telefone e computador, pelo que infelizmente teremos de deixar de ter o seu valioso contributo neste site.


LOPES CARLOS, Bélgica | 02/09/09 10:19
1. O investimento nas BARRAGENS é correcto e adequado. O Plano Nacional das Barragens merece todo o apoio do nosso Povo.
2. O erro gráve foi ter recuado no FÓZ CÔA . Era perfeitamente conciliável a Barragem com a preservação, estudo e exposição publica das Gravuras. Podíamos ter tido apoio dos Nórdicos nesse campo. Assim, espatifaram-se muitos milhões de contos na Barragem por ora incompleta , com enormes custos perdidos, e não se criaram condições de emprego duravel na região em apreço que poderiam ter beneficiado as Populações Locais, sobretudo os mais Jovens.


Julius, Penafiel | 02/09/09 10:08
O Gerês é o pior parque nacional da Europa. Está pior hoje do que quando foi criado em 1972, o que é um contrasenso. Está cheio de plantas infestantes, construções de cimento e arde todos os anos. Cerca de 8 entidades diferentes põem e dispõem dos recursos e ordenamento. As barragens estão cheias de lixo e as motos de água e outros "desportos" aquáticos tiveram que ser limitados para não erodir ainda mais as margens. Os nossos filhos e netos agradecerão estas imbecilidades. Para satisfazer as ambições dos empreiteiros e grandes grupos económicos, desaprece o que restava da nossa natureza tal como era co intervenção mínima humana.


Realista, Porto | 02/09/09 09:32
Só me faltava mais esta. Então tambem as barragens são condenáveis? O mal foi terem cedido em Foz Coa. E afinal para quê? Quantos dos leitores já foram ver as gravuras? Eu não fui nem tenciono ir.


mm, porto | 02/09/09 00:38
caro cidadãO.
-ERTAMENTE CONHECE O GERES.
-CERTAMENTE OUVIU FALAR EM VILARINHO DAS FURNAS.
-TALVEZ SAIBA DA EVOLUÇÃO,DIRIA GLOBAL,DESSA REGIÃO.
PORQUE NÃO PENSA UM POUCO ANTES DE MANDAR UMAS BOCAS SÓ PORQUE ALGUEM LHE FALOU QUE IA FICAR COM UNS TERRENOS INUNDADOS E OUTRO QUE GOSTAVA DE PESCAR BOGAS ?......


vg, | 02/09/09 00:38
Afinal ,porreiro,pá!


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