Depois das intervenções humanitárias e da promoção da democracia, a estratégia de contenção está de regresso ao centro da diplomacia ocidental.
A aliança estratégica entre a NATO e a Rússia foi a notícia mais positiva da Cimeira de Lisboa dos aliados. Foi um passo importante para um dos objectivos estratégicos mais importantes do pós-Guerra Fria: a integração da Rússia no sistema diplomático e comercial ocidental. Podemos fazer um paralelo com a Alemanha após a II Guerra Mundial. Tal como na altura os aliados ocidentais, especialmente os Estados Unidos, perceberam que a vitória, para ser completa, exigia a integração da Alemanha no Ocidente, também agora se exige a aliança com a Rússia. Devemos reconhecer que a administração norte-americana foi decisiva. A alteração na política russa não só possibilitou esta aproximação, como contribuiu para uma maior coesão europeia em relação à Rússia. Foi o "momento Truman" de Obama. Seguiu com a Rússia o exemplo seguido pelo seu antecessor com a Alemanha no pós-Guerra.
Reside aqui o maior triunfo diplomático de Washington nos últimos dois anos e será muito negativo se a maioria republicana no Congresso não o entendesse. Esta administração é a primeira com uma cultura "pós-Guerra Fria" na relação com a Rússia. Espera-se que os republicanos também abandonem a Guerra Fria quando olham para Moscovo. Na Europa, a Polónia foi decisiva na viragem diplomática em relação à Rússia, quando o actual governo colocou a reconciliação com Moscovo no topo da sua agenda externa. A próxima Cimeira entre a União Europeia e a Rússia, no princípio de Dezembro, irá fortalecer o "espírito de Lisboa".
Mas a viragem nas relações entre o Ocidente e Moscovo não aconteceu por acaso. Foi, em grande medida, o resultado da emergência de ameaças comuns. Por um lado, o terrorismo islâmico continua a ser o maior perigo para segurança dos cidadãos europeus, norte-americanos e russos. Juntamente com esta ameaça, a possibilidade de um regime como o iraniano poder adquirir capacidade nuclear levaram os aliados ocidentais e a Rússia a olhar do mesmo modo para algumas das questões de segurança do Médio Oriente. Resta saber quais serão os limites dessa cooperação.
Por outro lado, o fantasma da China paira sobre a aproximação da Rússia ao Ocidente. Ninguém o dirá em público, mas todos penam nisso. Ninguém na Europa teme tanto o crescimento da China como a Rússia. A elite russa começa a perceber que não pode ficar isolada entre o Ocidente e a Ásia. Simultaneamente, 2010 ficará para a história como o ano em que os Estados Unidos abandonaram a estratégia do "G2", com a China, e decidiram conter a potência asiática. Foi o que Obama fez na sua visita à Ásia, nomeadamente com o reforço das relações com a Índia e o Japão, ambos muito preocupados com a expansão da China. De Nova Deli a Lisboa, eis o percurso da política de contenção de Obama em relação ao poder da China. Pelo meio, o Presidente chinês visitou Lisboa onde, aparentemente, assinou acordos. Convém começar a pensar sobre possíveis tensões entre a estratégia de contenção de Washington e a estratégia de expansão da China. Bem sei que o ideal seria que tudo corresse bem e fosse possível conciliar ambas as estratégias. Mas, como os últimos dois anos mostraram, por vezes as coisas correm mal.
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João Marques de Almeida, Professor universitário
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