Em 1918 Franz Kafka redigiu uma carta dirigida ao seu pai, Hermann, que a mãe nunca teve coragem de entregar ao destinatário. Recordo-me sobretudo do prefácio do tradutor, sublinhando que Hermann não atraiu o ódio do filho pelo exercício prepotente ou violento da autoridade, mas por esperar dele algo de que Franz era incapaz: a normalidade.
O sarcasmo paternal exacerbou o sentimento de culpa de Franz e este retribuiu com uma denúncia histérica da vida familiar, cuja qualidade poética é inversamente proporcional ao conteúdo de verdade. No final, prevalece um sentimento de empatia pelo pai de Kafka, acusado pelo filho em desagregação mental.
A Carta ao Pai mostra como o ódio enquanto motivação da escrita produz facilmente efeitos contrários aos pretendidos. Recordei-me disto enquanto lia a recém-editada "biografia" de Marine Le Pen, presidente da Front National e candidata presidencial, escrita em co-autoria por Caroline Fourest e Fiammetta Venner. O ácido do ódio começa a abrir buracos logo na primeira página, quando as autoras comentam uma fotografia da família Le Pen em 1973 e descrevem os vestidos das três filhas como sendo em tom "rosa Vichy". Daí até ao fim, o livro é uma longa carta ao pai de Marine, acusando-o de todos os vícios políticos, desde o ‘poujadisme' até à proximidade a Dieudonné e ao seu racismo islamita. De quase tudo Jean Marie é amplamente culpado, mas e Marine? As autoras não lhe reconhecem autonomia moral e limitam-se à condenação filial: se não é o Diabo, é Marine por ele. Nada disse sobre uma posição política do pai? Encobrimento. Concordou? Culpada. Discordou? Hipócrita. Numa passagem ilustrativa do tom farisaico da prosa, as autoras descrevem com minúcia voluptuosa os ataques mais ascorosos a Marine, referindo-se-lhe como "vírus, cancro, gangrena". Depois desaconselham esse tipo de desumanização do adversário (ou será o inimigo?) por não pertencer ao "registo democrático".
Pois não, mas a ignorância é omnipresente no quotidiano democrático e talvez por isso as autoras não se apercebam da proximidade ideológica entre aquilo que defendem e algumas das principais políticas propostas pela FN. A paixão ideológica de Fourest e da amiga é a laïcité, um ideia que imaginam desprovida de ambiguidade, traduzida no "Estado-providência" e diametralmente oposta ao "tradicionalismo" defendido pela FN. Sucede que essa ideia de laicidade revela-se um ateísmo de Estado, dissociado do pensamento liberal francês sobre a relação complexa entre a religião e a política, desde Constant ou Tocqueville até Marcel Gauchet. Pior ainda, a sobrevivência do idolatrado "Estado-providência" exige o isolamento proteccionista defendido pela FN e por outros opositores da globalização, como Joseph Bové, mas esse proteccionismo é empobrecedor e a pobreza não carece da "providência" do Estado para ser distribuída. Resumindo, o nacionalismo da FN e o jacobinismo das autoras são complementares, as respectivas genealogias intelectuais têm uma intersecção comum e representam propostas políticas inviáveis.
No final, o auto de fé secular levantado a Marine Le Pen acaba por ter o efeito oposto do pretendido, mostrando-a como uma pessoa normal com preocupações compreensíveis, como o incómodo que sentiu quando aos 19 anos viu a sua mãe aparecer nua nas páginas da Playboy. Mais algumas "ajudas" deste calibre à campanha de Marine e uma segunda volta da eleição presidencial reduzida à escolha entre la rose e Vichy, pode tornar-se numa desagradável realidade.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário
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