Análise Económica

10/02/12 19:00
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Reforçado o cariz acomodatício da política monetária na Europa

Teresa Gil Pinheiro, do Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

Num cenário de baixo crescimento económico e de ausência de pressões inflacionistas, os bancos centrais reforçam o carácter expansionista das suas políticas monetárias.

Reforçado o cariz acomodatício da política monetária na Europa

Depois da Reserva Federal ter indicado que a taxa dos fed-funds permanecerá em níveis próximos de zero até finais de 2014, o Banco de Inglaterra anunciou o alargamento do programa de compra de dívida pública, contribuindo para que as taxas longas permaneçam baixas, deixando em aberto a possibilidade de novo aumento em Maio. Por sua vez, o Banco Central Europeu não anunciou alterações na reunião de Fevereiro, mas as preocupações quanto à evolução do agregados de crédito e a avaliação negativa dos riscos para o crescimento deixaram em aberto a possibilidade de redução da taxa refi, bem como a possibilidade de que a operação de refinanciamento a três anos de Fevereiro não seja a última.

Perante os sinais de estabilização dos indicadores de actividade relativos ao início de 2012, o BCE manteve a taxa directora em 1%. Mas deixou em aberto a possibilidade de relaxamento adicional da política monetária. Por um lado, porque a estabilização dos indicadores recentemente divulgados acontece em níveis reduzidos, sugerindo fracos (ou inexistentes) níveis de crescimento. Por outro lado, as declarações de Mario Draghi foram claras no que se refere às preocupações em torno do comportamento dos agregados de crédito, sobretudo às empresas, que continuam em desaceleração. Mais, no que concerne à oferta e procura de crédito, o resultado do último inquérito realizado aos bancos, continua a indicar maior apetência pela aplicação de critérios mais restritivos na concessão de crédito, bem como perspectivas mais desfavoráveis quanto à procura de crédito por parte dos agentes económicos. O elevado grau de incerteza e a maior dificuldade de financiamento da banca junto do mercado justificam uma postura mais cautelosa tanto no que se refere à procura como à oferta de crédito à economia. Neste cenário, e apesar do Presidente do BCE considerar que o último inquérito ainda não reflecte totalmente os efeitos da operação de refinanciamento a três anos na evolução do crédito, deixa também em aberto a possibilidade de que a operação de 29 de Fevereiro não seja a última, mas que novas operações de prazo alargado venham a ser anunciadas.

Ou seja, a perspectiva é de que o cariz acomodatício da política monetária da zona euro seja reforçado no curto prazo, através de um corte de 25 pontos base da taxa principal de refinanciamento, provavelmente na reunião de Março e, eventualmente, através do alargamento do período de vigência das medidas de cariz não convencional. A redução da taxa directora para 0.75% - novo mínimo histórico - ditará um período de taxas de juros baixas durante um longo período de tempo: pelo menos, até finais de 2013, (recentemente a Reserva Federal norte-americana indicou que a política de taxa de juro próxima de zero não deverá ser alterada antes do final de 2014).

No último dia de Fevereiro realiza-se a segunda operação de refinanciamento a três anos, antecipando-se que a procura seja elevada (na operação de Dezembro a procura foi de 489 mil milhões de euros). Embora o preço da segunda operação possa não ser tão atractivo quanto o da primeira - a taxa do swap do euro a 3 anos está actualmente a 1.25%, quando na altura da primeira operação estava em torno dos 1.45% - no actual ambiente, a perspectiva dos bancos fixarem o seu custo de financiamento em níveis muito reduzidos é certamente uma boa oportunidade. A reforçar o sentimento de que a procura será elevada acresce o facto de que a alteração das regras de aceitação de colateral por parte do BCE deverá, segundo esta autoridade monetária, aumentar em 600-700 mil milhões de euros o montante de colateral disponível para recorrer a financiamento junto do BCE.

O carácter acomodatício da política monetária é também evidente na decisão do Banco de Inglaterra em aumentar em 50 mil milhões de libras o montante do programa de compra de dívida pública, para 325 mil milhões de libras. A maturidade mínima dos títulos a adquirir por este banco central é de três anos. Esta decisão vem na sequência da divulgação de dados indicativos de enfraquecimento da actividade desde o último trimestre de 2011. Este banco central deixou em aberto a possibilidade de reforço deste programa em Maio. Para escrutínio da próxima decisão será importante a divulgação do relatório de inflação, dia 15 de Fevereiro.

 

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