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Marta Rebelo

‘Reality check’

22/10/10 00:03 | Marta Rebelo 



Já não chegava a especulação dos mercados, cuja sangria parece ter sido temporariamente estancada, e não termina a “especulação política” em torno da aprovação do OE/2011.

Renovam-se os pedidos de amor pátrio ao PSD, e entram em cena as contra-propostas à proposta governamental.

Terça-feira, à entrada para a Comissão Política social-democrata, a vice-presidente Paula Teixeira da Cruz afiançava que o PSD não estava a abrir negociações. Ontem, eram divulgados os "chefes de equipa" negocial: o ministro Teixeira dos Santos, por parte do governo; Eduardo Catroga, pelo PPD-PSD. Quando a Europa atravessa uma fase apocalíptica da sua existência unida ou desunida, com a França embrulhada em greves, o Reino Unido a anunciar cortes profundos nos seus amados "serviços públicos" e o despedimento de 500 mil funcionários públicos, o governo de Zapatero a sofrer remodelação e meia em nome do diálogo social, em Portugal prendemo-nos com a forma em lugar da prospectiva substância. Esta especulação política de alta intensidade acaba por desviar o olhar quer da "doença" propriamente dita quer da cura. Ninguém sai bem na fotografia. Mas no ‘trailer' deste filme vê-se um líder da oposição ziguezagueante, em discórdia com o seu mentor e com parte dos seus apoiantes, sempre pronto para governar mas nunca governando, e em contradição permanente consigo próprio...

Para lá da charada política, numa perspectiva mais edificante, os economistas debruçam-se sobre a adesão e permanência no Euro. Depois de mais de uma década no Eurogrupo, conclui-se que não estávamos prontos para seguir cumprindo as regras da moeda única. De keynesianistas e monetaristas renovados, passamos agora ao €uro-cepticismo. Soluções? Abandonar a moeda única? Ainda não ouvimos o mais bravo dos profetas avançar tão original sugestão. Mas ouvimos o BE dizer que não há necessidade de tamanho tremendismo face à possibilidade de ajuda externa, maxime do FMI. Declarações originais. No outro pólo, sugere-se a produção artificial do efeito de desvalorização da moeda: baixar os salários e os preços das ‘utilities', preponderantes na quota dos bens não transaccionáveis cuja produção pontua na nossa estrutura económica. O que permitiria realinhar os salários com a produtividade real e aproximar bens transaccionáveis e não transaccionáveis, deflaccionando o preço dos serviços públicos. Este ‘reality check' teria efeitos sociais potencialmente avassaladores, mas diz-se com segurança que não há como escapar a este encontro adiado com a realidade. Pela Europa fora aguarda-se a sugestão de outra "poção mágica", consentânea com a permanência ao menos da ideia de Estado Social. A(s) esquerda(s) ainda não apresentaram a sua alternativa.

Por cá, Vítor Bento, defensor da desvalorização "artificial" da moeda, tentando desatar o nó, afirma que nós "lidamos muito mal com a responsabilidade, mas enfrentamos muito bem a fatalidade". Será que Passos Coelho espera que o PSD se convença estoicamente que a viabilização do orçamento, depois de tudo o que vem dizendo, é o seu destino? Ou será tempo de fazer silêncio, que esta crise, já se viu, não é de escassez de palavras?
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Marta Rebelo, Jurista




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