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Quem são estes novos emigrantes de luxo

António Sarmento  
05/01/10 00:05

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Vivem e espalham talento pelo mundo inteiro.

Entre os membros da rede Star Tracker há portugueses com profissões e a viver em cidades muito diferentes: de um mixologista em Nova Iorque a um produtor de canais de filmes no Rio de Janeiro, passando por um consultor em Maputo. Todos eles têm uma opinião comum: trabalhar no estrangeiro foi a melhor coisa que lhes aconteceu. "Não me vejo a regressar a Portugal. Quando lá vou sinto-me um turista", diz João Mesquita. O director-geral da Telecine Brasil, que vive no Rio de Janeiro desde 2003, esteve em Lisboa há poucos dias para passar o Natal, mas já só pensava em regressar à cidade maravilhosa. Mesmo andando todos os dias num carro blindado.

Mais perto de Lisboa está António Lorvão, director de informática da seguradora Fidelidade Mundial em Madrid, há dois anos. Adora os restaurantes, os parques e os monumentos. "Só não vou ao cinema porque não gosto de filmes dobrados." Afinal de contas, nem tudo é perfeito. Por exemplo, Dálio Calado precisou de trabalhar num restaurante de Nova Iorque antes de triunfar no mundo dos negócios como mixologista - o que é um mixologista? Um ‘barman' chique. Já Nuno Lima Bastos, jurista, foi para Macau em 1995 e viveu as diferenças da mudança do território, para a administração chinesa.

Quem também já não consegue mudar é João Trincheiras, administrador de uma consultora. O clima e as praias de Moçambique são, para ele, imbatíveis.

Dálio Calado foi para Nova Iorque em 2003 e empregou-se como barman no restaurante-bar Giorgione, em Manhattan, e especializou-se na arte da mixologia (criação de novas bebidas). Por ali passavam nomes famosos como Meryl Streep, Lenny Kravitz, James Gandolfini ou Ivanka Trump. As bebidas eram elogiadas pelos clientes e, em 2007, o portuguÊs chegou à conclusão que podia ir mais longe. Tirou vários cursos de mixologia em Nova Iorque e fundou a empresa classical cocktails (www.classicalcocktails.com), que rapidamente se tornou um sucesso. Os convites multiplicavam-se e o telemóvel não parava de tocar. A empresa de Dálio, de 29 anos, dedicou-se a um nicho de mercado muito específico: organizar todos os pormenores relativos a um evento. "O meu negócio tem várias vertentes. Fazer um serviço de cocktails à medida de cada cliente, criar receitas sazonais para marcas de bebidas espirituosas, consultoria de menus e treino de staff para restaurantes, bares e hotéis", explica. O trabalho não pára de crescer. Além da empresa Classical Cocktails, o mixologista é consultor de bares. Quem vinga no mundo dos negócios em Nova Iorque tem pouca vontade de voltar a Portugal. "Só para visitar a família e fazer parcerias com empresas portuguesas."
Quando recebeu o convite para trabalhar em Madrid António Lorvão, de 38 anos, aceitou logo. O director de informática da seguradora Fidelidade Mundial já tinha trabalhado em Maputo e em Macau, mas Madrid apresentava uma vantagem inigualável: ficava muito mais perto de casa (mora em Oeiras) e podia visitar a mulher e o filho, um bebé de poucos meses, todos os fins-de-semana. "O facto de o projecto profissional ser aliciante e de compensar financeiramente também pesou na minha decisão de ir para Madrid", diz o director, que vive em Madrid desde Setembro de 2007. "O Star Tracker permite-me manter contacto com outras pessoas com quem trabalhei, por exemplo, em Macau", diz.
O ritmo de trabalho é alucinante. Entra todos os dias na empresa por volta das oito da manhã e só sai de lá às oito da noite. Depois, costuma jantar num restaurante do Bairro Salamanca. "Vou quase sempre ao Gorky, um restaurante tipo tasca", diz. Quando a mulher e o filho o vão visitar, António aproveita para passear no parque do Retiro, na zona histórica de San Lorenzo del Escorial e na serra de Madrid. "Ir ao cinema está fora de questão. Os filmes são todos dobrados e eu não me habituo."
 "Aqui, vivemos e trabalhamos. Em Portugal é o contrário", é assim que João Trincheiras, director financeiro da consultora Ernst & Young, descreve a vida em Maputo. João, de 40 anos, vai almoçar a casa todos os dias, não perde tempo no trânsito e farta-se de passear em cenários paradisíacos. "Já trabalho em Moçambique há 17 anos e gosto muito de estar aqui. Adoro o clima e não perco tempo em coisas inúteis", diz. Além do trabalho na empresa, é presidente da Academia do Bacalhau e dirigente do núcleo sportinguista. E é ainda o embaixador do Star Tracker neste país. "Temos 300 talentos portugueses." João, a mulher e os filhos vêm uma vez por ano a Portugal. A ilha de Bazaruto e a província de Inhaca são destinos turísticos de eleição. Na Europa, não há safaris nem praias de água quente com a mesma categoria.
"Não me vejo a regressar a Portugal. Quando lá vou sinto-me um turista." A frase é de João Mesquita, o director-geral da Telecine Brasil, uma produtora de canais de filmes para a televisão paga. Em Outubro de 2003, o gestor deixou o emprego na empresa Premium TV (uma intermediária para todos os canais feitos no Brasil para a televisão portuguesa) e aceitou o convite para viver na "cidade maravilhosa". "A indústria do cinema está a crescer bastante no Brasil e aqui trabalha-se com optimismo. Em Portugal há o pessimismo dos impostos, dos problemas com a segurança social e com o défice." A violência na cidade é a única coisa que o incomoda. João, a mulher e os dois filhos andam sempre num carro blindado e evitam andar a pé à noite. "Seja para ir ao cinema ou ao restaurante vamos sempre de carro porque é mais seguro. Tirando isso, a vida é fantástica. Aos fins-de-semana vamos ao clube, à praia ou passeamos a pé pelo calçadão", diz João Mesquita, que vive no Leblon e trabalha na Barra da Tijuca. Todos os anos, o gestor, de 41 anos, tem de ir em trabalho aos festivais de cinema de Cannes e de Berlim e, no Natal costuma vir a Portugal. Não fica com saudades quando parte. "É no Rio que me sinto em casa."
Ao folhear o jornal Expresso reparou num anúncio de oferta de emprego: uma vaga para jurista na Administração Pública de Macau. Estávamos em 1995 e Nuno Lima Bastos, na altura empregado no Instituto de Seguros de Portugal, concorreu. Dias mais tarde recebeu a resposta. "Tinha sido admitido e fiquei feliz da vida. Era uma grande oportunidade de conhecer Macau ainda como território português", diz. Quatro anos mais tarde, em 1999, a região passou a fazer parte da China. O jurista, de 41 anos, viveu as diferenças da mudança. "O território cresceu muito a nível económico. O governo chinês atribuiu novas licenças a operadores de jogo e o número de casinos aumentou. Isso fez com que viessem bastantes visitantes", conta. O jurista vem apenas uma vez por ano a Portugal e, para matar saudades do País, consulta todos os dias os jornais na Internet. O Diário Económico e o Público são os que lê com mais frequência. Também vê os noticiários da RTP 1 e RTP Internacional. O dia-a-dia em Macau é mais calmo do que tinha em Lisboa. "Como é uma cidade pequena, os serviços públicos e o comércio estão concentrados no centro e assim não perco muito tempo a tratar de assuntos burocráticos", explica o jurista, que também elogia a oferta cultural da região. "Muitos espectáculos musicais e exposições." Os fins-de-semana em Macau nunca são monótonos.





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Comentários (2)

Duarte M. Miranda, Montreal, Canadá | 06/01/10 02:48
Fico sempre pasmado ao ler comentários do tipo "Portugal, nunca mais!..." Saí de Portugal (Açores) há 47 anos, com 14 anos de idade, quando meu pai decidiu imigrar para me livrar do serviço militar e da guerra colonial. Formei-me cá. Reformei-me há dois anos como executivo do maior grupo financeiro canadiano, e um dos maiores no mundo, e onde passei 35 anos. Minha carreira profissional levou-me a viajar pelo mundo e, além disso, fui, durante alguns anos, executivo responsável pelas operações do dito grupo financeiro na América do Sul. Fui expatriado por duas ocasiões no Brasil (LINDA EXPERIÊNCIA!) e no Chile. Minhas funções abrangiam responsabilidades mundiais de financiamento exterior que me levavam a viajar frequentemente.
Durante todos esses anos, sempre senti uma grande dor pelo facto de meu pai me ter arrancado ás minhas raizes lusitanas. Ainda hoje, quando desço de um avião, não só nos Açores, mas também em Lisboa, ou no Porto, ou em qualquer outro aeroporto português, tenho de enxugar minhas lágrimas, pela comoção que sempre sinto de estar regressando à pátria-mãe.
Não posso entender, e nada me fará compreender, os comentários vazios do tipo daqueles atribuidos aos entrevistados desta matéria. Se é verdade que Portugal está enfrentando sérios problemas sócio-económicos, é pura covardia intelectual querer empurrá-los por completo para o quintal dos conterrâneos que continuam lá vivendo. Esses "problemas portugueses" são bem menos graves que o facto de ter de andar num carro blindado no Rio de Janeiro...
Bem haja!


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