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Quem quer viver num iate?

Nick Vinson  
23/11/09 00:10


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É um iate, mas a dimensão e o luxo fazem dele uma casa onde se pode viver como se estivesse numa ilha privada.

Quando Luca Bassani Antivari, presidente e director executivo do fabricante de iates Wally, e Pierre-Alexis Dumas, director artístico da casa de moda Hermès, decidiram unir esforços para conceber um iate, começaram por estabelecer duas condições muito importantes logo à partida. Em primeiro lugar, a ideia não era que Hermès equipasse pura e simplesmente um Wally; em vez disso, os dois homens combinariam as duas abordagens e processos e construiriam o barco conjuntamente. Em segundo lugar, em vez de trabalharem numa estrutura apostada na velocidade, optariam antes por uma aerodinamismo lento e estável.

O conceito de arquitectura aquática daí resultante e fruto desta ‘joint venture' daria pelo nome de WHY, ‘Wally Hermès Yachts', e foi revelado no Salão de Iates do Mónaco, em Setembro. É mais do que uma "ilha flutuante", como refere Bassani Antivari, mais do que uma "casa sobre a água", como diz Dumas, e muito mais do que um mero iate.

O casco extraordinariamente triangular não se parece com nada visto até agora: com os seus 3.400 metros quadrados de espaço, tem volumes interiores e exteriores semelhantes aos de uma vivenda, é estável mesmo em pleno andamento e tem uma velocidade de cruzeiro ideal de apenas 12 nós.

"Na Hermès não precisamos de nos fazer ao mar, pelo que precisamos de uma boa razão para tal", afirma Dumas. "A ideia de uma ilha é bastante apelativa. Navegar não é uma questão de ir de A para B mas sim de estar no mar, do tempo que passamos no mar".

O elemento mais invulgar do WHY é a sua estrutura baixa, quase triangular, com 58 metros de comprimento e um vau de 38 metros de largura, e ainda mais larga do que o de um navio de cruzeiro com 300 metros quadrados. Os aposentos estão no casco de onde só emerge o ‘cockpit'.

O começo

Bassani Antivari, Dumas, o arquitecto naval Mauro Sculli e o director de design da Hermès Gabriele Pezzini procuravam um vau amplo (para dar estabilidade) e já tinham desistido da ideia de um catamarã. Foi então que Bassani Antivari teve a ideia de um casco Ramform, usado em embarcações de pesquisa sísmica e desenvolvida e patenteada pela Norwegian Roar Ramde. A Sculli e a Ramde adaptaram isso depois ao projecto WHY.

A proa (parte da frente) tem uma piscina de 25 metros em forma de U e um heliporto. Uma pista de ‘jogging' de 130 metros percorre um espaço entre a proa e a popa (parte de trás). E na popa podemos encontrar uma "praia" de 30 metros, com o design do barco a criar a sensação de um prolongamento de mar totalmente plano quando o navio está ancorado. A cobertura, feita de células fotovolaticas, funciona como uma persiana gigante, acompanhando o movimento do sol ou recolhendo para expôr as varandas em baixo.

Ao contrário dos iates convencionais, o sistema de propulsão está na proa, também o local escolhido para os barcos salva-vidas e outros "brinquedos" (tem capacidade para um barco salva-vidas Wally 47 de 14 metros).

Uma casa num barco

Os aposentos estão divididos em dois níveis, todos virados para a popa, com amplas janelas de vidro de ambos os lados. No topo está o convés, com um apartamento de 200 metros quadrados que se abre para uma varanda privada. Por baixo está o convés para as visitas, com cinco ‘suites' - duas de 60 metros quadrados e três de 30 metros quadrados - a que se junta um lounge/biblioteca e uma varanda. Uma escadaria larga e em curva conduz ao salão principal de 720 metros com salas de estar, jantar, de media e música, um spa e um ginásio, todos eles com ligação à "praia".

Por baixo estão os aposentos da tripulação, para cerca de 20 membros (para além das cabines do capitão e do primeiro oficial, na parte de cima).

Os interiores, em parte inspirados na arquitectura norueguesa de Alvar Aalto e no Pavilhão de Barcelona de Ludwig Mies van der Rohe, são da responsabilidade da Rena Dumas Architecture Intérieure (RDAI), que há muito colabora com a Hermès. Os materiais incluem papel, madeira e cabedal; as texturas são opacas, as cores e as superfícies são suaves para um "conforto total, elegância e descontracção", diz Denis Montel da RDAI. Além disso, tentou-se reduzir a luz que normalmente incide nos barcos quando se está no mar. Assim, três pátios furam o barco, o maior deles com uma árvore e um jardim onde foi instalada também uma cozinha. Com as suas grandes janelas panorâmicas, os pátios melhoram a relação entre o exterior e o interior e, com as suas superfícies deslizantes ajudam a ajustar o espaço imenso à escala humana.

Para o seu lançamento, as duas empresas que estão a desenvolver o WHY, construiram uma maquete à escala natural, algo que normalmente só é usado na indústria da aviação. Instalada num estaleiro naval em Ancona, Itália, esta maquete tem duas finalidades: dar aos agentes comerciais e potenciais clientes algo real para verem e onde podem caminhar, e dar também à equipa a oportunidade de afinar o seu ‘design'.

Tratam-se, normalmente, de clientes com alguma experiência no que toca a ter barcos, mas o WHY pode abrir o mercado a outro tipo de clientes, mais precisamente todos o que nunca estiveram em contacto com o espírito de correr vários portos e passar os dias ancorados numa marina, ao lado de super iates, com o barulho dos convidados e da tripulação, o cheiro a gasóleo e vista para as boutiques internacionais extremamente caras e restaurantes caríssimos.

Com o WHY, a ideia de uma ilha privada que se move surge como uma verdadeira alternativa a este conceito menos agradável... mas só se tiver cerca de 90 a 100 milhões de euros para gastar.


Tradução de Carlos Tomé Sousa
Nick Vinson é editor de projectos especiais na revista Wallpaper

 


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