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Na semana passada, dois conceituados gestores de fundos da praça financeira britânica envolveram-se numa discussão exaltada num tribunal de Londres.
De um lado, John Duffield, fundador da New Star Asset Management, do outro, Patrick Evershed, que processou o primeiro por despedimento ilícito.
Evershed disse ao tribunal que o seu antigo chefe era um brutamontes, que "se passeava regularmente pela sala com as garras em punho, emitindo rugidos e insultando os colaboradores, chamando-lhes atrasados mentais e criminosos". O tribunal também percebeu, contudo, que Evershed não é flor que se cheire. Perdeu as estribeiras em duas ocasiões e, numa delas, admitiu ter chamado ao director de investimentos da empresa "meia-leca nojenta".
Li estas peripécias com especial prazer. Primeiro, porque esta turbulenta historieta à moda antiga em plena City londrina funciona como o antídoto perfeito à pandemia de histórias sobre a recessão e eventual desagregação da Eurolândia. Segundo, porque enquanto a fauna de topo da City continuar a comportar-se de forma incivilizada, isso significa que o mundo, como o conhecemos, afinal não vai acabar.
Esta história, em particular, tem ainda mais interesse devido ao desconcertante da coisa. Passo a explicar. Quase todos os casos de ‘bullying' na City envolvem um homem com idade suficiente para já ter acumulado algum poder - mas não tão velho como isso - e uma pessoa jovem e indefesa, regra geral uma mulher. Ora, não se pode dizer que Duffield seja um jovem turco financeiro com níveis de testosterona nos píncaros que gosta de brincar aos donos do universo. Tem 72 anos. Evershed é praticamente da mesma colheita. Entre eles há quase um século de experiência a gerir o dinheiro dos outros, muito embora tenham sido mais bem sucedidos nessa empresa que a maior parte dos gestores de fundos.
A imagem de dois velhos à bulha é, no mínimo, caricata. Já serviu de mote ao filme Grumpy Old Men ("Dois Velhos Rabugentos"), onde Jack Lemmon e Walter Matthau passam o tempo a berrar um com o outro por cima de uma vedação e, a páginas tantas, Lemmon diz qualquer coisa como: Ora dou eu, ora dás tu, ora dou eu outra vez e com muito gosto! Ao que Matthau responde: "Boa sorte, meia-leca".
Esta troca legal de galhardetes entre dois velhos de carne e osso, e não personagens de ficção, mais do que uma história divertida é um episódio bastante importante. Porquê? Porque vem deitar por terra tudo o que pensamos sobre as pessoas mais velhas (neste caso profissionalmente activas). O facto de já termos muitos anos de trabalho não faz de nós pessoas mais sensatas ou mais calmas. Na verdade, isto vem provar que os "velhinhos" podem ser tão agressivos no trabalho como qualquer jovem imberbe com sangue na guelra. Talvez seja nisto que dá trabalhar na City: nem a idade refreia os ânimos.
Por definição, uma das qualidades do sector financeiro é ter uma certa aura de invencibilidade. Ou seja, as pessoas ficam com a impressão de que por ganharem fortunas estão dispensadas das regras de boa educação e têm o direito de fazer o que bem lhes apetece.
Na semana passada, num blogue da autoria de uns "cromos" da City, perguntava-se que importância tem este tipo de questiúnculas. Em suma, que mal tem os gestores de topo - com idade para terem juízo, digo eu - chamarem atrasados mentais aos seus colaboradores ou, como parece ter sucedido num conhecido ‘hedge fund', o chefe passear-se pela empresa com um taco de basebol numa atitude ameaçadora?
Os comentários postados no blogue não fugiam muito a isto: não tem mal nenhum, é uma atitude admirável, aliás. Há, contudo, quem seja mais drástico: "Se querem cobardes e maricas, o melhor é procurarem noutro lado". Disparates. Tudo é relativo, ou seja, depende muito das circunstâncias, do contexto. E se nuns casos não tem mal, noutros pode ser gravíssimo.
Usar em voz alta, no trabalho, expressões como "atrasado mental", "criminoso e "meia-leca nojenta" não é, por si só, conclusivo. Se usadas no momento e tom certos, até podem proporcionar momentos de boa disposição, galhofa e descontracção, vitais para contrariar o terrível hábito da má-língua, tão entranhado na vida laboral. Em certas empresas, porém, chegou-se ao cúmulo de banir palavras de conotação negativa com receio de ferir susceptibilidades alheias.
No jornal, há um colega a quem chamo "atrasado mental" e que retribui o cumprimento. Funciona como piada, terapia, e deixa-nos bem-dispostos. Embora não me lembre de alguma vez ter chamado a alguém "meia-leca nojenta" (MLN), confesso que gosto da sonoridade das três palavrinhas juntas. Aproveitei, aliás, para guardar a expressão num ficheiro especial para uso futuro. No entanto, se alguma vez decidir usá-la, vou fazê-lo com extremo cuidado. Chamar a alguém MLN até pode fazer sentido, mas só se estiverem reunidas três condições: a) o visado não pode estar por perto; b) tem de merecer o epíteto; c) e, quando usada, que seja entre pessoas que partilham da mesma opinião.
Este tipo de insultos funciona como catarse no trabalho. Tem o mesmo efeito que blasfemar. É óptimo para libertar a tensão entre colegas, mas pode ser catastrófico se tiver por alvo uma pessoa hierarquicamente superior. Dizer ao chefe que é um "meia-leca nojento" ou um atrasado mental pode ser fabulosamente gratificante no calor do momento, mas parece-me altamente insensato fazê-lo. Aplicar este tipo de vitupérios aos subordinados pode ser ainda pior: se isso não arrasar a sua motivação - e o mais certo é que isso aconteça - corre o sério risco de ir parar ao tribunal.
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