O balanço da última sessão do 111º Congresso dos EUA foi particularmente positivo: aprovou um compromisso tributário histórico, ratificou um novo tratado estratégico de redução de armas com a Rússia e aboliu a polémica lei “don’t ask, don’t tell”, que proibia os homossexuais de se assumirem enquanto servem no exército americano.
Feitos notáveis, sem dúvida. Mas haverá razões para sermos optimistas sobre o que o próximo Congresso poderá fazer? Não propriamente. É difícil imaginar como um Congresso dividido pode vir a unir-se para apoiar um plano amplamente doloroso. Assim como ainda é mais difícil imaginar que o "veículo" para pô-lo em prática implique reavivar o centro político norte-americano. Infelizmente, os recentes esforços neste sentido suscitam mais desespero do que optimismo.
Antes do Natal, um grupo que se auto-intitula moderado lançou uma campanha contra o "hiper-partidarismo". Os ‘No Labels', assim se chamam, dizem no seu site que o grupo é constituído por "democratas, republicanos e independentes unidos na convicção de que não temos de abdicar dos nossos rótulos partidários, mas pô-los de lado para fazer o que é melhor para os EUA".
Um sistema que exige confronto entre lados opostos - e um Congresso dividido é disso exemplo - precisa de cordialidade na troca de ideias, porém, não há razões para pensarmos que o meio-termo entre posições irreconciliáveis tem qualquer mérito mesmo quando se pode identificar claramente esse "meio-termo", o que habitualmente não acontece.
Os centristas norte-americanos, se ainda há algum, não precisam de regras de etiqueta. Precisam, sim, de políticas e de vontade férrea para as defender. O meio-termo, ou centro, não é uma zona isenta de ideologia que nos oferece de bandeja as soluções para "o que é melhor para os EUA". O centrismo também precisa de uma ideologia e quanto mais exuberante melhor. Sem isso é oco, vazio. É ‘No Labels'.
Hoje em dia, parece que todos os Republicanos prometeram bloquear a acção do governo sempre que possível - excepto na Defesa -, apesar das falhas consideráveis na provisão social mínima, nomeadamente nos cuidados de saúde e na educação. Os Democratas, por sua vez, enveredaram por uma postura claramente anticapitalista: a Grande Recessão é uma vindicação filosófica. Tudo o que atormenta o país pode ser imputado à desregulação, ao ‘outsourcing', ao lucro e ao facto de os ricos pagarem poucos impostos.
A civilidade na política é um bem precioso. O respeito mútuo também ajudaria num país com fortes clivagens culturais como os EUA. No entanto, se o próximo Congresso não evitar o colapso orçamental, não poderá desculpar-se dizendo que os partidos colocaram os seus interesses acima dos interesses do país. A sua inépcia significará, antes de mais, que as duas ideologias em confronto estão esgotadas e que os dissidentes não querem que os eleitores se identifiquem com rótulos partidários.
Tradução de Ana Pina
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Clive Crook, Colaborador do Financial Times
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