À medida que as consequências desastrosas do sobreendividamento público se vão tornando claras, os responsáveis ensaiam as suas diferentes fugas.
Para os políticos, o problema são as regras que constrangem a acção (para que outra coisa serviriam?) e as agências de notação, que insistem em avaliar o risco de incumprimento (para que outra coisa serviriam?). Ao nível intelectual, a demagogia é a estratégia dominante. Os casos mais interessantes são os sociólogos de circunstância: entre estes, reapareceu uma "versão" da teoria Max Weber, sobre a relação entre o capitalismo e a "ética protestante" como explicação para as diferenças de desempenho económico entre o norte e o sul da UE.
Resumidamente, por alturas das guerras religiosas europeias ter-se-ia criado uma fractura religiosa e cultural. A norte, o sucesso da Reforma exigiu a transformação do protestantismo, de doutrinas de obediência política para doutrinas de resistência, que forneceram o fundamento para o constitucionalismo liberal e este, por sua vez, criou o quadro institucional que permitiu o sucesso do capitalismo. A sul, a Contra-Reforma apoiou-se em teorizações da monarquia absoluta, esta eliminou os contrapoderes medievais e abriu o caminho aos ulteriores despotismos iluminados e autoritarismos corporativos. A implicação relevante deste argumento foi exposta com insuperável boçalidade por um cronista da Spectator: o institucionalismo contemporâneo europeu, incluindo as instituições monetárias, não pode servir simultaneamente o norte protestante e industrioso, e o sul católico e preguiçoso. É evidente que a Grécia nunca foi católica nem deveria ter sido admitida no Euro e que o anglicanismo não salvou a Inglaterra do sobreendividamento, mas é mais importante compreender a ignorância e o oportunismo envolvidos no argumento.
Começando pela ignorância, desde logo, a doutrina política calvinista só cresceu para lá da sua base sectária de apoio quando adoptou argumentos correntes entre o movimento reformista católico, tendo-se constituído posteriormente como uma influência importante nas doutrinas católicas contra a tirania, desenvolvidas por Jesuítas como Juan de Mariana (aliás, se os banqueiros actuais tivessem estudado a teoria monetária de Mariana e as suas actualizações subsequentes, estariam melhor preparados para não se expor ao risco de insolvência). Depois Weber nunca estabeleceu a relação de causalidade que lhe é atribuída: não dispondo de uma teorização da contingência histórica, Weber mencionou apenas a existência de "afinidades electivas" entre a vocação ascética calvinista e a sua secularização, sob a forma do "espírito do capitalismo". Finalmente, o objecto de interesse de Weber não era a criação de uma "guerra cultural" artificiosa, mas uma parte essencial desse processo de secularização: a passagem da disciplina individual do carácter para a disciplina racional das leis. A actividade capitalista só poderia ser bem sucedida num quadro legal estável e previsível, ou seja: compreender Weber é perceber que os principais responsáveis pela situação actual são os incompetentes que brincam todos os dias com as regras fundamentais da UE.
Esclarecida a ignorância, resta compreender que estas espertezas sociológicas disfarçam uma receita para consumar a destruição de uma Europa segura e livre, substituindo - a por "duas Europas" instáveis - um Lebensraum económico e monetário e uma periferia tutelada. Agradecia que estudassem os antecedentes da ideia e que não envolvessem a história intelectual nesse desvario.
Fernando Gabriel
Investigador universitário
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