As exigências da ‘troika' relativas à total privatização e rápida eliminação das ‘golden-shares' e dos direitos especiais que o Estado detém nas grandes empresas nacionais, vieram pôr a nu a enorme fragilidade dos nossos grupos económicos...
As exigências da ‘troika' relativas à total privatização e rápida eliminação das ‘golden-shares' e dos direitos especiais que o Estado detém nas grandes empresas nacionais, vieram pôr a nu a enorme fragilidade dos nossos grupos económicos fazendo antever que, dentro de pouco tempo, a maioria das grandes empresas nacionais, como a EDP, a REN, a PT ou a GALP, caiam nas mãos de investidores estrangeiros, não sendo por isso de admirar que, nos processos de privatização em curso, já só apareçam a concorrer grupos chineses, japoneses, indianos ou alemães.
É o óbvio resultado da total ausência de uma estratégia orientada para o controlo destas empresas, que o País prosseguiu ao longo dos anos, contrariamente ao que outros fizeram, como por exemplo a Espanha - que durante cerca de três décadas desenhou e implementou uma estratégia de globalização de uma dezena de empresas espanholas - e a China - que há duas dezenas de anos privatizou e globalizou cento e vinte empresas públicas, que passados poucos anos, algumas delas já se afirmaram como líderes mundiais em vários sectores de actividade. Dir-se-á que seria inevitável, tanto mais que a presente crise nos vem flagelando sobremaneira. Mas é pena que isso aconteça, conhecido o efeito induzido que tem uma distribuição de lucros retida no país e não exportada, tanto mais que grande parte destas empresas se encontram ainda em situações de monopólio, oligopólio ou com posição dominante nos mercados onde operam.
Provavelmente será tarde. Mas baseando-nos em experiências vividas noutros países poder-se-ia atenuar este problema se se criasse em Portugal um Fundo Soberano (ou instrumento semelhante), desejavelmente de capital garantido, vocacionado para a tomada de posições de capital nestas empresas, a subscrever exclusivamente por pessoas ou entidades residentes em Portugal. Seria certamente uma boa aplicação para as poupanças dos pequenos aforradores, dado serem na sua grande maioria empresas altamente rentáveis, que distribuem atractivos dividendos. Poderia ser-se mesmo um pouco mais ambicioso, criando um outro Fundo, destinado à captação de poupanças da nossa Diáspora, empresários e outros emigrantes espalhados pelo mundo, que adorariam contribuir para o desenvolvimento do seu País. E se quiséssemos apostar mais forte ainda, poder-se-ia inclusivamente considerar a possibilidade de abrir um destes Fundos aos residentes do espaço da Lusofonia, espaço que todos dizemos ser fundamental para a nossa estratégia de crescimento, mas do qual nos esquecemos frequentemente.
Tenho a noção clara de que estou sonhando mas... não é o sonho que comanda a vida?
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Francisco Murteira Nabo, Economista
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