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Passa-se em Valência e, assim sendo, os políticos e os jornais falam de tumultos e incidentes “entre” estudantes e forças policiais.
Estes "tumultos" e "incidentes" entre estudantes desarmados até ao medo e forças policiais armadas até aos dentes são cenários típicos dos libérrimos jornais ocidentais sempre disponíveis e abertos para denunciar os atropelos de que as liberdades são alvo em países de outros sistemas, outros continentes, outras culturas ou religiões. Se os "tumultos" e "incidentes" se tivessem passado nesses outros países, na Tunísia, Egipto ou Líbia, por exemplo, com manifestantes sabe-se lá quem eram, financiados ou armados sabe-se lá por quem foi, chamar-lhe-iam "Primavera".
Acontece que a Primavera de Valência, chamemos-lhe assim, deu a cara. Começou por um legalíssimo protesto contra cortes orçamentais na educação, contra o qual as forças policiais reagiram com inaudita bestialidade. O número de feridos contou-se por dezenas, de um lado (estudantes) e do outro (polícias). As manifestações que se seguiram, exigindo a libertação de dezenas de estudantes presos e o fim da repressão assumiram então o carácter daquilo que o poder mais temia: uma verdadeira luta por uma "Primavera" política que, partindo de Valência, foi varrendo Barcelona, Sevilha, Málaga, Benidorm, Alicante, Cáceres, Granada e chegou a Madrid. A Praça do Sol volta ao cenário e à agenda da política em Espanha. Partidos da oposição chamam ministros ao Congresso dos Deputados, sindicatos convocam greves, o governo de Mariano Rajoy designa os estudantes por "o inimigo".
A luta pela liberdade volta à ordem dos dias, como a mãe de todas as lutas. Há quem lhe chame Primavera.
joaopaulo.guerra@economico.pt
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