A germanização da Europa avança a ritmo impressionante. Se a Europa tinha como objectivo inicial a europeização da Alemanha, o projecto europeu é hoje uma ruína política.
O poder económico e político da Alemanha colocam o país no seu lugar de sempre na longa história do continente europeu - demasiado grande para ser uma nação igual às outras; demasiado pequena para se projectar enquanto super-potência. As dificuldades da Europa são também um reflexo da afirmação de uma nova velha Alemanha.
Com este cenário em fundo, a troika chega a Lisboa para garantir que a germanização de Portugal segue sem obstáculos o Memorando de Entendimento. Sem grandes reflexões ou estados de alma, tudo será visto e revisto com o propósito vital de se libertarem mais 15 mil milhões de euros do pacote global de ajustamento. Com Portugal na formatura em pose de inspecção, o Governo aguarda em silêncio enquanto os portugueses experimentam a clássica política de austeridade. Aliás, Portugal tem primeiro de empobrecer antes de poder enriquecer, consequência de anos de incúria financeira e de uma despesa pública e privada insustentáveis. Passos Coelho está apaixonado pelos grandes números que, tal como o sexo, já não excitam os portugueses.
O dia-a-dia dos portugueses faz-se de pequenos números, grandes contas e muita ginástica financeira. A oposição do PS não está contra a austeridade e resume tudo a uma política da dose - venha mais tempo, venha mais dinheiro. Passos Coelho alinha na política do choque contra a dívida, Seguro defende a anestesia política contra a crise. A grande dificuldade na afirmação de Seguro enquanto líder do PS reside no silêncio do passado e no Grupo de Paris. O Grupo de Paris é a oposição no interior do PS. O Grupo de Paris é o fiel depositário da herança de Sócrates e a fiel garantia de que Sócrates ainda terá um futuro político em Portugal. O Grupo de Paris inventa uma narrativa revisionista e simplista para iludir as responsabilidades de uma governação que os factos mostram ter sido desastrosa. O Grupo de Paris parou no PEC IV e delira com PECs V e PECs VI que atribui ao governo de Passos Coelho. O Grupo de Paris prejudica o PS, engana os portugueses e gera um clima revanchista que só perturba a recuperação de Portugal.
De novo um olhar pela Europa. Na Praça Syntagma joga-se a viabilidade da Grécia, as perspectivas da Europa e o destino de Portugal. Quando se fala na humilhação de um país, surge logo a memória de Versailles em 1919 com a Alemanha no lugar do mais fraco. A solução para a crise na Europa não pode estar na opção do colapso do euro e no extremo de uma nova guerra, nem numa Alemanha objectivamente proprietária da Grécia. A Europa precisa de reinventar a mais óbvia das armas políticas - o equilíbrio do bom senso.
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Carlos Marques de Almeida, Investigador em Teoria Política
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