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Entrevista

"Portugal tem de ter uma companhia de bandeira"

António Costa  
02/09/10 08:35

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Fernando Pinto apoia a privatização da empresa, mas acrescenta que deve manter a sua base em Portugal.

No dia seguinte à publicação do relatório da Parpública sobre as contas da TAP, Fernando Pinto concedeu uma grande entrevista ao Etv. Está confiante no cumprimento do objectivo de ter lucros em 2010, mas diz que a empresa tem um problema estrutural, de que fala desde 2000: precisa de ser recapitalizada. A privatização tornaria a TAP uma empresa "normal".

Revê-se na avaliação que a Parpública faz das contas da TAP?
Já tínhamos apresentado os resultados mostrando as perdas no primeiro semestre, de 79 milhões de euros. Infelizmente, é normal. Dentro da sazonalidade das empresas aéreas europeias, o primeiro é o pior semestre, mas recupera-se no segundo.

Pode garantir que é possível fechar o ano com lucros?
O compromisso nem sempre é possível porque temos variáveis que influenciam o negócio. Por exemplo, no primeiro semestre tivemos uma influência muito grande da desvalorização cambial. No caso do dólar, as variações não chegam a ser catastróficas, mas o combustível é. Não é possível fugir a um aumento como o que aconteceu com o preço do combustível: o preço médio subiu mais de 50% do primeiro semestre do ano passado para o deste ano.

É possível proteger-se contra essas variações do petróleo...
Contratualizamos as protecções financeiras necessárias, mas há um aumento efectivo de preços. Contra isso, temos um ponto fundamental: um deles é a evolução da receita, que tem tido um bom comportamento, e isso tem muito a ver com o Brasil e com África. O transporte para o Brasil cresceu 30%.

É o grande mercado de crescimento?
Sim, e África também tem crescido bem... este ano está a crescer 13%.

O combustível não explica todos os prejuízos. O grupo TAP teve 36,9 milhões de euros de prejuízo no tráfego aéreo e depois há actividades que também são deficitárias, como o ‘handling', engenharia no Brasil... A Parpública, accionista da TAP, não prevê resultados positivos em 2010.
O transporte aéreo não é deficitário, foi deficitário no primeiro semestre, como sempre é. Agora, o transporte aéreo da TAP é rentável há muitos anos e em 2009 bateu um recorde.

A situação líquida da TAP é negativa em cerca de 300 milhões de euros. Como é que uma empresa vive com uma situação financeira assim, monstruosa?
A realidade, desde que assumi a presidência da TAP em 2000, é a de que esta empresa precisa de ser capitalizada.

O que aconteceu?
Ao longo dos últimos dez anos, a empresa voltou a ter resultados positivos, excepção feita a 2008, ano daquele ‘tsunami' nas contas por causa do petróleo. A TAP gastou 220 milhões a mais no consumo de petróleo, o que levou aos resultados negativos desse ano. Mas, se tivéssemos tido a capitalização da empresa no devido tempo, não teria acontecido nada. A empresa teria até pago dividendos ao accionista Estado ao longo dos vários anos e, em 2008, não pagaria dividendos, mas voltaria ao normal. Para onde vai este dinheiro todo? Para suportar os juros dos empréstimos bancários.

Por que é que a TAP não foi capitalizada?
Porque o Estado não pode fazer isso. Este é o problema. É engraçado... a TAP é conhecida como uma empresa que consome recursos do Estado. Será possível que ninguém aprendeu ainda que a TAP não pode receber apoios do Estado e que, pelo contrário, a empresa tem hoje um potencial de crescimento brutal. A empresa foi, no ano passado, a maior exportadora do país. Exportou perto de 1,4 mil milhões de euros, ou seja, mais de 60% das vendas foram feitas no estrangeiro. De que é que o País precisa? Só disso.

Há várias formas de capitalizar a empresa. Quanto é que vai ser a factura de juros à banca em 2010 devido a esta situação?
Nos últimos seis meses, a TAP reduziu o endividamento em cerca de 100 milhões de euros, fora todos os impostos e juros. Só para ter uma ideia, quando iniciámos esse processo em 2000, a empresa tinha um endividamento de mil milhões e uma facturação, também, de mil milhões de euros. Hoje, tem uma facturação de 2,4 mil milhões e uma dívida de 1,3 mil milhões de euros. E está previsto que, até 2016, tenha pago todo o seu endividamento.

Mas é aceitável gerir uma empresa com esta nível de situação líquida negativa?
É daí que vem o problema da TAP. Se a empresa estivesse capitalizada, estaríamos muito bem. Por isso, pergunto: é possível fazer a privatização da empresa? É, assim, a TAP seria uma empresa normal.

Possível é. Acha que é desejável?
Sim, preservando o que esta empresa tem de importante para o povo português.

Mas é importante para Portugal ter uma companhia aérea de bandeira?
É fundamental. Portugal tem de ter uma companhia de bandeira. É um país pequeno e precisa de ter uma placa giratória de distribuição. Mas uma empresa de bandeira não é sinónimo de empresa pública, mas tem de estar localizada no país. O importante é que tenha e um centro de decisão em Portugal.

Mas não vê o problema da privatização da maioria do capital?
Isso é uma decisão do accionista [Estado].

A privatização é um dos caminhos para capitalizar a empresa. Mas há outros, como a fusão com outra companhia aérea. Falou-se na brasileira TAM... Faz sentido, neste quadro, procurar entendimentos internacionais que garantam uma capitalização da empresa?
A TAP é uma empresa suficientemente interessante pelo seu aspecto estratégico. Citou o caso da TAM, mas essa possibilidade nunca esteve em discussão, e até se entende [pelo acordo da TAM com a a LAN]. Uma aproximação tem que existir ao longo do tempo...

A TAP está num processo de aproximação a outras companhias internacionais?
Não directamente. Mas a TAP tem um óptimo relacionamento com várias empresas internacionais. Muito próximo até. A TAP está na Star Alliance, pertence ao conselho da associação das empresas europeias e da IATA. Ora, tudo isto nos aproxima de empresas internacionais e, muitas vezes, é a partir daí que as coisas podem acontecer.

Tem condições para concretizar esse objectivo até ao final do seu mandato actual, em Dezembro de 2011?
Até lá, gostaria muito de o concretizar. É um dos objectivos, até porque, desde o início, sempre houve a necessidade de capitalização da empresa.

Esse processo deve ser posterior ou anterior a uma privatização pura e dura?
O mais correcto é dizer que a TAP precisa de uma abertura de capital. Essa é a forma correcta. Se vai ser através de um parceiro estratégico ou não... O Governo tem dado sinais de que está preocupado com isso.

Sente apoio do ministro das Obras Públicas, António Mendonça, para esse objectivo estratégico?
Sim. tenho tido contactos e sei que há uma seriedade muito grande na aviação desse objectivo.





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