O País vive em pleno Ramadão político. Nos ministérios estuda-se e pratica-se o jejum político como forma de religião. Enquanto o Governo inferniza os neurónios, descobre-se um “desvio colossal” de 2 mil milhões de euros. Não há responsáveis.
Segue-se a sobretaxa no IRS e mais um prometido corte na despesa do Estado. Uma auditoria à dívida pública é uma sentença de morte num País em que o dinheiro se evapora ao mínimo sinal. Quando é que o País conhece a verdadeira dimensão da dívida que não vai conseguir pagar?
Neste ponto chegam os observadores da ‘Troika'. Falar em auditorias é colocar em cheque a imagem internacional de Portugal. Aliás, o Governo de Passos Coelho não governa para os portugueses, mas governa sim para a ‘Troika' ver. Este pormenor explica a sensação de que Portugal não tem Governo porque é governado por um Memorando infalível. Com o livro vermelho do Memorando, Portugal vive numa tranquilidade e apatia preocupantes.
E os sinais acumulam-se. Isento de responsabilidades, Portugal aguarda por uma solução da Europa. A Moody's é a principal aliada da Oposição, o Presidente da República fala na desvalorização do euro depois de criticar os mercados, outros exigem a emissão de Eurobonds ou a mutualização da dívida, mais a solidariedade da Europa e a condenação da conspiração do capitalismo internacional e especulativo, sem esquecer o egoísmo na indecisão crónica de Angela Merkel. Em súmula, com a crise na Europa, Portugal é absolvido de todas as culpas na governação interna, comportando-se como vítima de um mundo que não entende nem quer perceber. Os portugueses têm o direito de saber como é que a má governação nacional acabou por colocar o País nesta débil situação económica. Mas não. Portugal está viciado no facilitismo e pretende asfixiar a crise financeira com uma espécie de vudu económico - indolor e instantâneo.
Enquanto tudo acontece, o País confiante dos profissionais da satisfação dissertam sobre a política dos pequenos gestos simbólicos. O moralismo é um velho vício nacional. Primeiro, são as viagens em classe turística, depois é o estilo económico e sincopado do ministro das Finanças, sem esquecer a proibição dos carros ministeriais nas passeatas domingueiras, junta-se ainda o ministro da ‘scooter' e mais a proibição das gravatas no Ministério da Agricultura para efeitos da redução da pegada ecológica do Governo. A pegada política do Governo começa a preocupar pela timidez das reformas estruturais que não se vêem. O Governo precisa de um plano para os próximos 100 dias com 20 ou 30 decisões para começar a mudar Portugal. A este ritmo de governação, ainda se salva primeiro a Europa, e se Portugal se afundar, ainda sobra tempo para resgatar o náufrago pela segunda vez. O costume. Há qualquer coisa de ‘Oprah Show' neste País.
NaturezaDasCoisas@gmail.com
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Carlos Marques de Almeida, ‘Senior associate' do St. Antony's College, Oxford
Comentários (21)
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O ARTIGO TEM DOIS MESES MAS CONTINUA A SER UM RETRATO ANTECIPADO DO PAÍS. LEIAM O FINAL COM ATENÇÃO. FACILITISMO, VUDU ECONÓMICO (A MADEIRA), SEGUNDO RESGATE (ENTREVISTA DO PM) ...
ESTE HOMEM É UM SENHOR!
Depois de ler aqui alguns posts sobre a crise e sobre o junk fiquei na mesma.
quando começava a ler acreditava que era num destes post que eu iria perceber a crise.
Mas não! ora que chatice. Lá vou ter que continuar a procurar, mas não encontro.
Há por aqui muita gente que fala de pib e de deficit e dos juros e das percentagens da divida em relação ao pib. e etc, etc.
Mas na verdade todos este números são dados pelo governo e pelas Instituições que fazem estatísticas.
Lá isso é verdade e tiro o meu chapéu. há aqui gente de enorme valor cultural e não são balelas nem ironias.
Basta ler Lopes Carlos da Bélgica, O realista, zé povinho, para percebermos que sabem do que falam.
Mas, e sempre há um MAS, como é que se conseguiu governar este país de forma a que de repente somos todos "apanhados de surpresa" com uma imensa crise e com políticos a dizerem que isto é mais grave do se pensava. Ainda hoje Durão Barroso dizia que isto era muito grave! e, ninguém com poder, claro, se revolta contra a governação do PS? ou é contra o PSD?
Isto é, podemos e devemos discutir os números pois eles estão aí disponíveis e é por aí que se governa, mas, a razão da crise e como é que o BCE e a Alemanha deixam arrastar o cliente na lama????
E só depois do cliente estar na lama é que vêm dizer que não emprestam mais dinheiro ao cliente?
Então agora como é que ele sai da lama? sem dinheiro sem credibilidade sem forças, como vai fazer? na vida do normalíssimo peão ficam-lhes com as casas e com os carros etc. mas quando se trata de um estado?
lixam o zé povinho!
pronto isto nós sabemos.
mas quem desbaratinou com as contas públicas? e porque é que temos de pagar os 12 mil milhões aos bancos? ou será que isto nem é assim?
ou então o que é esta crise?
Há quem diga que começou com o celebre suprime mas também há quem diga que isso são desculpas.
Quem souber que diga.
O que o sr Carlos Almeida diz no seu comentário é o que dizem muitos de nós neste forum.
já li aqui vezes sem conta quem explica a divida? onde é que o dinheiro foi gasto?
Quem geriu mal até hoje os destinos de Portugal? porque é que temos de pagar os financiamentos aos bancos? 12 mil milhões de euros? porque é que temos de pagar os ordenados dos banqueiros?
Estas e outras perguntas lêem-se aqui quase diariamente.
eu sou um deles que faço religiosamente estas perguntas. nunca alguém respondeu!
E já agora porque raio não acabam com o segredo bancário??