Portugal viveu ontem um dia de greve, contra a austeridade e a reforma do Estado que vai, necessariamente, pôr fim a direitos e hábitos estabelecidos.
É, obviamente, legítima e, dada a magnitude do empobrecimento organizado que o País vai viver nos próximos anos - sem o qual não poderemos regressar ao crescimento - até compreensível. Mas, hoje, dia 25, estamos melhor do que estávamos no dia 23? Não, não e não.
Em primeiro lugar, é preciso desmistificar dois pontos prévios que costumam dominar a discussão no dia seguinte à greve. Não vale a pena centrarmos a discussão na guerra dos números, nos dados do Governo e no dos sindicatos. Uma greve geral é uma greve geral e, por isso mesmo, tem impacto na economia e na vida das pessoas. Como se viu nos transportes, na educação e na saúde, por exemplo. E esta também teve. E também não é o caminho mais correcto discutir o que custa uma greve de um dia na economia, porque é apenas um dia, e porque a greve é um direito constitucional, não é um custo financeiro.
Dito isto, a greve geral de ontem cria outro tipo de problemas, internos e externos.
Um dia depois do manifesto de Mário Soares e de outras personalidades com responsabilidades políticas e cívicas no País, que compara, de forma muito infeliz, a situação portuguesa à revolução das ‘ruas árabes', a greve geral quase redundava num confronto grave entre manifestantes e grevistas, à ‘porta' da Assembleia da República. É certo que os denominados ‘indignados' que acamparam nas escadarias do Parlamento não são nem devem ser confundidos com os trabalhadores que contestam o aumento dos impostos e o desemprego, são, muitos deles, estudantes e membros de movimentos anarquistas e que vivem à margem do sistema. Mas que, obviamente, ganham força, até mediática, num dia como este. Está aqui um problema mais grave do que a própria greve, e que é a criação de um ambiente de instabilidade social irrespirável e que tornará impossível o caminho que temos que fazer. Faço, além disso, disso mea culpa: também porque os meios de comunicação social mostram à exaustão os que estão em greve e não os que estão a trabalhar, felizmente muitos, que estarão também descontentes mas que percebem que a greve não é a solução.
Depois, externamente, fomos, por um dia, mais parecidos com a Grécia, isto é, as imagens que passaram no mundo foi de um País parado e, pior, incapaz de perceber o que está em causa. Também isto não corresponde, felizmente, à verdade. Mas cria, internacionalmente, junto dos mercados, junto da ‘troika', junto dos líderes europeus, a ideia de que os portugueses vivem ainda na ilusão. De que é possível continuar a viver à custa do dinheiro dos outros, e não do que produzimos. Não é.
Por isso mesmo, o Governo não vai mudar nada de substantivo no programa de austeridade financeira que apresentou ao País para os próximos anos.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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