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Carla Bergareche, de nacionalidade espanhola, é a nova directora-geral da Schroders para a Península Ibérica.
Em entrevista ao Económico, a nova líder do negócio da Schroders fala da actual situação de Portugal nos mercados de dívida, dos investimentos preferidos por esta casa de investimento para 2010 e dos desafios que se apresentam à indústria financeira no futuro.
Numa altura em que as ‘yields' da dívida nacional voltam a disparar, a situação de Portugal é ou não comparável à da Grécia?
Esse é actualmente o tema quente dos mercados. A situação não é a mesma. O que gera a semelhança é a quantidade de dívida que vence a curto-prazo, este ano. Na Grécia representa 22% do PIB e em Portugal 10% do PIB. Esta poderia ser uma semelhança. Mas se olharmos para a Europa existem muitos outros casos semelhantes: no Reino Unido a dívida vence na proporção de 18% do PIB e em Espanha de 16%. Logo, a situação de Portugal não é isolada.
Isso quer dizer que o preço que Portugal está a pagar neste momento para se financiar é fruto de especulação ou é de alguma forma justificado?
É um preço muito alto e está a ser afectado pela especulação. O mercado está focado na Grécia e basta que a Grécia não receba ajuda até 19 de Maio, por parte da União Monetária e do Fundo Monetário Internacional, e a volatilidade vai continuar altíssima e os níveis de preços que a dívida alcançou deverão manter-se. Acreditamos que, se a Grécia receber ajuda até 19 de Maio, e é esse o nosso cenário central, que a partir daí as tensões devam relaxar e os spreads devam reduzir-se, trazendo alguma normalização ao mercado.
Acredita que Portugal tenha de chegar ao ponto de pedir ajuda internacional, tal como aconteceu com a Grécia?
É muito difícil fazer previsões dessas. Acreditamos que se a Grécia receber ajuda, isso irá reduzir muito as pressões do mercado sobre países como Portugal e Espanha, tornando mais fácil o financiamento destes países. E também devolver a credibilidade. Porque se a União Monetária ajudou a Grécia, criando um precedente, os investidores vão pensar que, se Portugal estiver na mesma situação, a União Monetária deverá ajudá-lo também. E isso deverá permitir reduzir um pouco a ansiedade e o medo que existe, deverá reduzir o risco de contágio a outros países.
Os mercados accionistas também têm sido pressionados por esta crise da dívida soberana. Como vê a evolução destes mercados até ao final do ano?
Na Schroders acreditamos que entrámos na fase de recuperação. E nesta fase de recuperação os activos que se comportam melhor são os activos de risco. Portanto estamos positivos nos mercados accionistas e, dentro destes, temos preferência pelos EUA porque é a zona que está a liderar a recuperação. Está a surpreender todo o mercado com a sua rápida recuperação. As empresas fizeram um esforço muito grande para cortar custos, o que teve reflexos na taxa de desemprego do país, mas está a permitir que as empresas apresentem resultados muito positivos. Além disso, as empresas estão já a pensar em investir em capex e em contratar novamente, o que é um sinal muito positivo, e assistimos ainda a um aumento significativo da confiança dos consumidores. Tudo isto são as bases de uma recuperação sólida. Portanto, nas acções, é o mercado do qual gostamos mais.
E a nível de sectores?
O sector tecnológico, por exemplo, está a ser beneficiado por esta inversão do ciclo de capex. Portanto é um dos sectores dos quais gostamos nos EUA.
E quanto a classes de activos?
Gostamos de acções e, dentro das obrigações de taxa fixa, gostamos de ‘investment grade', de ‘high yield' e dívida soberana emergente, mas em moeda local mais do que em moeda forte, onde o ‘spread' está muito pequeno.
É portanto mais um ano de dívida corporativa?
Acreditamos que não vamos voltar a ver um diferencial igual ao que assistimos quando estávamos em níveis de grande pressão. O final de 2008 representou realmente uma oportunidade única. Mas, embora não devamos voltar a ter ganhos de dois dígitos no mercado de renda fixa como tivemos no ano passado, acreditamos que continua a ser um bom investimento. Principalmente quando comparamos com a dívida governamental ou com o que o ‘cash' está a pagar, que se lhe aplicarmos a inflação estamos a perder dinheiro. E portanto continuamos a acreditar que vale a pena investir nesse mercado. Os produtos de crédito foram os que mais contribuíram para as vendas líquidas no ano passado em Portugal e em Espanha.
Por falar em inflação, acredita que vamos sair desta crise com níveis de inflação muito altos?
De momento esperamos que a inflação vá manter-se controlada. Mas acreditamos que, mais à frente, a inflação vai ser um problema com o qual os governos vão ter de lutar. Vai ser difícil mantê-la controlada. Se olharmos para a quantidade de dívida ligada à inflação que os governos estão a colocar, é uma percentagem mínima no total de dívida que estão a emitir. E qual é o motivo? Provavelmente acreditam que lhes vai sair mais caro pagar essa dívida. Portanto, acho que a actuação dos governos nesse sentido dá uma sensação dos caminhos por onde acreditam que a inflação vá.
2008 foi o ano da crise, 2009 o da recuperação, 2010 está a ser o ano da dívida soberana. E 2011?
Vamos ver como a acaba o tema da Grécia e as surpresas que ainda possam surgir. A dúvida neste momento é se o mercado norte-americano está realmente a recuperar mais rápido do que poderíamos imaginar, creio que até os mais optimistas nunca acreditaram que pudesse recuperar tão rápido de uma crise tão severa como a que vivemos. Quem sabe se 2011 será um ano de moderação?
Tem-se falado muito sobre o papel das instituições financeiras nesta crise. O que espera da regulação que será criada?
Sim, fala-se muito da regulação das entidades financeiras... Como acaba isto não sei. Porque afinal também se falava muito da regulação dos ‘hedge funds', e de muitas outras regulações, mas a verdade é que não se colocou nada no papel. O que está claro é que é necessário que os bancos em momentos bons de mercado se preparem melhor para os momentos maus. E creio que a regulação provavelmente irá nesse sentido. Espero que a regulação não venha a ser excessiva, porque a regulação excessiva não é positiva. Mas espero que seja a suficiente para que não voltemos a encontrar-nos na mesma situação de novo.
E caso a regulação venha a ser bastante apertada, qual o impacto que isso poderá ter nas instituições financeiras?
Podem ver-se obrigadas a vender determinadas áreas de negócio ou até ter que alterar a sua forma estratégica de fazer negócio, limitando muito as suas possibilidades de crescimento.
E nesse caso, acha que as instituições poderão fugir para mercados menos regulados, como os asiáticos e os emergentes?
Por exemplo, nos dois maiores bancos espanhóis, grande parte dos seus lucros já vêm de mercados emergentes, na América Latina. E nas empresas europeias grande parte dos resultados também já vem de países emergentes. São os que estão a crescer e estão a dar um enorme contributo às economias europeias, EUA e até mesmo Japão. O que se está ver é que, claramente, existem duas velocidades no mundo e houve uma mudança estrutural neste sentido. Os países emergentes no ano passado foram os responsáveis por todo o crescimento, e acreditamos que, pelo menos durante os próximos anos, vão ser responsáveis por 70% do crescimento mundial.
Acha que há mesmo a possibilidade de assistirmos a um êxodo das sedes das instituições financeiras para estes mercados
Se a regulação for excessiva é um risco que existe.
Quais são os principais desafios para esta indústria nos próximos anos?
Penso que a indústria de fundos de investimento tem de alinhar-se com as necessidades do cliente final. E a forma de distribuição dos produtos também tem de ter mais em conta as necessidades dos clientes, no sentido de não colocar um produto sem antes analisar se este serve realmente e encaixa nas necessidades do investidor. Creio que vai existir uma tendência à especialização, no sentido de cada instituição concentrar-se no que realmente sabe fazer e deixar para outros as áreas onde não sejam ‘experts'. E creio que a indústria está também a olhar muito para formas de reduzir o custo final dos produtos. Em Espanha, por exemplo, as gestoras estão a concentrar os fundos, tornando-os maiores, e diminuindo o custo para os participantes.
Sobre a Schroders em Portugal, como foi a evolução do negócio em 2009?
2007 e 2008 foram anos muito difíceis, foram anos em que se perderam activos em Portugal e em Espanha como no resto do mundo. Já 2009 foi um ano muito positivo. A Schroders a nível global teve vendas líquidas recordes. E Espanha e Portugal não foram excepção..
Quais os objectivos estratégicos para este ano?
O nosso objectivo é crescer 12% este ano no consolidado de Portugal e Espanha. Em Espanha, por exemplo, acabámos o ano com a terceira maior quota de mercado dentro das gestoras internacionais. O nosso objectivo era estar no top cinco e conseguimos, e é para nós um ponto-chave manter essa posição. Em Portugal também temos uma posição muito boa, também no top três, e o nosso objectivo é manter essa posição.
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