A 48 horas da decisão dos portugueses nas eleições legislativas, arrisco uma previsão, e não uma sondagem: Pedro Passos Coelho vai ganhar, Sócrates vai perder, Portas vai ganhar, Jerónimo fica como está e Louça vai, também, perder.
E as sondagens, essas, já ganharam. Esta previsão funda-se em sondagens, mas não só, também nos últimos seis anos, nos últimos dois meses, nas últimas duas semanas da vida económica, política e social do País. Cada momento, à sua maneira e com o seu peso, contribuiu para a mudança de ciclo, mesmo de regime, que se impõe em Portugal.
Somos um protectorado da Alemanha e do FMI, e seremos nos próximos três anos. Sócrates levou ao limite a independência financeira, e política, de Portugal, mas é o primeiro responsável, por mais voltas que dê, por mais culpas que atire para cima do PSD e dos partidos da Oposição que decidiram provocar eleições antecipadas, para os especuladores financeiros, para o mundo. Já tínhamos um nível de desemprego recorde, já estávamos a pagar juros insuportáveis, já tínhamos as finanças públicas num estado calamitoso. E, enfim, já estávamos num pântano, muito pior do que aquele que fez Guterres pedir a demissão há dez anos. Com PEC sucessivos a mostrarem os falhanços dos anteriores, e que só a si, Sócrates, podem ser assacados.
A crise política acelerou o que já era inevitável. E se aproveitarmos o apoio da ‘troika', o cheque de 78 mil milhões, o plano de austeridade e o plano de reformas e de crescimento, a crise valeu a pena. A custo, mas terá valido a pena.
Pedro Passos Coelho merece ganhar as eleições, apesar de algumas trapalhadas e erros de comunicação e, até, do ‘Nobre' fenómeno. Porquê? Desde logo, porque apresentou um programa eleitoral, aliás, um dos dois que vimos, o outro foi o da ‘troika'. Parece coisa pouca, mas não é, especialmente quando se pede que os candidatos a primeiro-ministro, leia-se Passos Coelho e Sócrates, digam ao que vão e o que nos espera. O presidente do PSD será melhor primeiro-ministro do que foi candidato, mas não escondeu as cartas. Aliás, deu ‘jogo a mais' e, em determinadas áreas, como nas privatizações, foi mais longe do que o próprio acordo de entendimento entre o Governo e a ‘troika'. E foi mais claro em matérias sobre as quais Sócrates tinha vantagem, apenas aparente, como se viu, como a descida da Taxa Social Única, porque negociou esta medida com as instituições internacionais. É verdade, nem tudo correu bem, e algumas das medidas apresentadas, percebeu-se, estavam mal-preparadas, como o tecto nas pensões, que até já existe. Mas esses erros são menores quando comparados com o silêncio ensurdecedor do PS e de Sócrates para os próximos quatro anos.
José Sócrates merece perder as eleições, porque, verdadeiramente, nunca as quis ganhar, optou por não as querer perder. O seu programa eleitoral, simplesmente, não existiu e, nos debates televisivos da pré-campanha e nas arruadas e comícios da campanha, limitou-se a dizer que quer continuar a fazer o que fez. Sócrates quer um Estado social que já não existe, e que a sua política acabou, também, por condenar.
Não é possível continuar, porque foi isso que nos trouxe até aqui, mas também porque não foi isso que negociou e acordou com a ‘troika'. Sócrates - às vezes primeiro-ministro, às vezes secretário-geral do PS - tentou aproveitar as ‘gaffes' de Passos Coelho e tentou impor o medo, o medo de uma mudança de vida que é absolutamente necessária. Mas como isso não é estratégia, é táctica, o que se discutiu, bem ou mal, foi o programa do PSD.
Sócrates tenta mobilizar, até paquistaneses, valeu tudo, mas está (quase) sozinho, mesmo dentro do seu próprio partido, que vai ter de se regenerar a partir do dia 6 de Junho. O primeiro-ministro e líder do PS já tem pouco a dizer aos portugueses. Embrulha, também não se livra de casos, como os diferentes acordos com a ‘troika', as nomeações de um Governo de gestão ou o défice público maquilhado com o atraso nos pagamentos, ganha tempo, com a qualidade e capacidade que só os políticos mais qualificados conseguem fazer. Mas já não chega.
A campanha eleitoral foi mazinha, pior do que a pré-campanha e muito pior do que se exigia, tendo em conta o momento especial do País. Pouco ou nada se discutiu, mas o que se discutiu, deveu-se a Pedro Passos Coelho. Por isso, suspeito, o PSD ainda vai subir mais, à medida que os indecisos deixem de o estar, porque percebem que vivemos um momento de decisões. As sondagens, essas sondagens que são úteis e muito válidas quando dão a vitória e ‘compradas' quando antecipam a derrota, já ganharam as eleições.
Portugal precisa de mais sondagens, não precisa de menos, e o mercado vai seleccionar as melhores. É, aliás, por isso, que os partidos, os maiores, realizam sondagens, ‘trackings' diários para saber em que ponto está o eleitorado. As sondagens promovem a transparência e, mais, democratizam a informação. Criticar as sondagens - que têm de obedecer a regras, formais e substanciais, éticas e deontológicas e são auditadas - é um exercício contra a Democracia, é o mesmo que criticar os jornais e as televisões por darem notícias.
Não deixa de ser curioso que o maior inimigo das sondagens seja um antigo jornalista. Paulo Portas mudou de lado e muda de opinião. A informação vale o que vale, como as sondagens, dirá hoje. O presidente do CDS-PP já ganhou. Sabe, há semanas, que estará no Governo qualquer que venha a ser o vencedor das eleições, e estica a corda. A partir de um pequeno partido, fez o que Passos não soube fazer, uma campanha focada, sem erros evidentes, a capitalizar votos junto do PSD, mas também do PS. A agricultura, a economia produtiva, a concorrência, os mais desfavorecidos, o valor do trabalho, a segurança. Não criou casos, aproveitou os dos outros, construiu uma equipa e vai ganhar.
O PCP e o Bloco de Esquerda avançaram para esta campanha com votos negativos. A decisão de não participarem nas discussões com a ‘troika' deixou-os fora do jogo, autoexcluiram-se do futuro do País. Mas se os comunistas têm, eleição após eleição, um voto estável e resistente ao tempo - aqui, a tradição continua a ser a que era -, os bloquistas vão desaparecer mais depressa do que apareceram. Francisco Louça usa a sua inquestionável inteligência de forma demagógica, e está muito longe da consistência histórica, e resistente, e limpa, de Jerónimo de Sousa. E nem a discussão em torno da renegociação da dívida, que lançou, é suficiente para disfarçar que o Bloco é um movimento, não é um partido, tem bandeiras e não um projecto, é o ‘Manuel Alegre' dos partidos.
Já a partir do dia 6 de Junho, é importante que Passos Coelho tenha a capacidade de fazer as pontes necessárias para formar um Governo forte e para ganhar o apoio do PS a um programa, o seu, mas também ao da ‘troika', que o próprio PS apoiou. O relógio já está a contar. E, nos próximos anos, a maioria aritmética no Parlamento não chegará para pôr em prática todas as medidas que já estão previstas, a redução anual do défice público e da dívida pública, calculada ao milhão na agenda da ‘assistência técnica' do FMI e de Bruxelas que, todos os meses, estará em Portugal. Serão necessárias maiorias sociológicas e, aqui, só o PS acrescenta valor. Especialmente um PS que, previsivelmente, vai regressar às origens, à esquerda.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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