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Fernando Gabriel

Poder e interesses

02/12/09 00:08 | Fernando Gabriel 



Quando Al Gore lançou o seu filme de propaganda ambiental, “Uma Verdade Inconveniente”, acusou os que não aceitavam a tese da causa humana como explicação para as alterações climáticas de recusarem a “verdade” em nome de “interesses” e citou Upton Sinclair...

Quando Al Gore lançou o seu filme de propaganda ambiental, "Uma Verdade Inconveniente", acusou os que não aceitavam a tese da causa humana como explicação para as alterações climáticas de recusarem a "verdade" em nome de "interesses" e citou Upton Sinclair, um santo patrono do progressismo, denunciador da corrupção e conluio: "é difícil fazer com que alguém compreenda algo quando o seu salário depende de continuar sem compreender".

O que já se sabe sobre a falsificação do "consenso" científico em matéria de ciência climática confere um carácter irónico à citação. De facto, grande parte da desonestidade exposta no Cimategate decorre de um sistema de incentivos perversos à investigação, que torna difícil a aceitação da refutação empírica de uma hipótese teórica: não existe incentivo a reconhecer o erro quando a reputação, os financiamentos que suportam a investigação e alguns dos empregos académicos podem desaparecer no momento em que tal acontecer. De certo modo, até se compreende.

Porém, como compreender a aceitação quase unânime pela comunicação social da tese da causa humana para as alterações climáticas? Não basta invocar uma suposta filiação ideológica dos jornalistas, falsa na sua generalidade, representando-os como militantes em busca de um ideal revolucionário. Nem serve como explicação a enorme pressão das ONG ambientais, em movimento auto-perpétuo de alarmismo, sem o qual não atraem fundos financeiros. Muito mais importante dos que as solicitações conjunturais foi a aceitação pela comunicação social de uma certa visão do mundo, uma aceitação que precedeu a histeria do ambientalismo.

É uma visão com origem na ‘Bildungsbürgertum' - a classe média instruída emergente no final do séc. XVIII- que hoje tem um estatuto hegemónico no discurso político e nos mecanismos de poder internacionais e que aspira a substituir a actividade política pelo planeamento "científico", o político pelo "perito" e a reflexão filosófica por teorias de ciência "social". É uma visão baseada numa distinção que Rousseau acentuou entre os interesses "aparentes" dos governantes que conspiram contra os interesses "reais" dos povos -a paz, a felicidade ou um planeta sem aparelhos de ar condicionado.

O mundo mudou e a comunicação social actual, em nome de pretensos interesses "reais" dos povos, defende hoje os interesses de poderosos como Al Gore e os ‘major players' no negócio da transacção de direitos de emissão de poluição; ou de empresas como a Apple e a Nike, que usam o ambientalismo para reduzir a concorrência, beneficiando de uma produção deslocalizada para países onde não existe legislação ambiental. A inversão é completa se considerarmos que a incidência económica do fardo fiscal imposto pela legislação climática recai desproporcionadamente sobre as famílias de menores rendimentos: são essas que gastam uma maior percentagem do seu rendimento nos bens e serviços cujo preço relativo subirá em consequência da legislação ambiental. Se os media quiserem recuperar o seu papel tradicional, precisam de começar por levantar o véu de hipocrisia com que a sua própria narrativa encobriu o poder.
____

Fernando Gabriel, Investigador universitário

 




Comentários (9)

O Raio, Lisboa | 03/12/09 03:14
Parabéns por este artigo, por este e por outros como o dos ursos.
O Fernando Gabriel que eu, infelizmente não conhecia, é actualmente uma voz isolada no meio de uma Comunicação Social totalmente rendida às alterações climáticas.
Nas vésperas da Conferência de Copenhaga em que se está a cozinhar como nos ir ao bolso com a desculpa do futuro da Terra, é importante ler artigos como este. Só é pena que sejam tão raros.

O Raio
cabalas, blogspot.com



Raposão, | 02/12/09 22:17
Parabéns pela coragem. Já agora, expliquem lá esta ó especialistas de sofá: o dióxido de carbono absorve calor com a mesma intensidade que o vapor de água, se bem que numa banda diferente de absorção. O seu efeito soma-se ao do vapor de água. Mas, como é que um gás com uma concentração atmosférica de 0,0385% (385 ppm), contra 24% do vapor de água, pode aquecer a terra ao ponto de a esturricar?
Porque não acabou o mundo no Período Quente Medieval, ou no Período Quente Romano, ambos mais quentes que a actualidade e com menos CO2 na atmosfera?


Ecotretas, Lisboa | 02/12/09 22:07
Fernando, os meus parabéns! É admirável o que escreve, especialmente a última frase!

Ecotretas
ecotretas.blogspot.com


LL, | 02/12/09 17:29
As provas científicas falam por si. Contrapor romances de ficção à literatura científica é ridículo, para não dizer ofensivo da inteligência alheia...


FFC, Lisboa | 02/12/09 12:33
Caro Realista,
Concordo parcialmente consigo. Há de facto algum alarmismo, embora o problema reconhecido seja muito grave, independentemente do grau de origem antropogénica. Penso que a questão da acção humana é importante para a argumentação político-negocial de quem vai pagar quanto a quem, mas a resolução do problema é um desafio que persiste.
A questão do excesso de população acaba por ser a mesma, porque o cerscimento das emissões de GHG está associado aos desenvolvimento económico e este naturalmente ao forte crescimento demográfico mundial que se observa e e se antecipa. Esperemos para ver quem será o primeiro país a falar em quotas demográficas...


Realista, Porto | 02/12/09 11:09
Na década de 60 e 70 do século passado já era evudente para um observador medianamente informado e isento que o comunismo (soviético) tinha falhado. Entretanto a maioria dos media e muitos intelectuais, como Sartre, continuavam a apregoa-lo. Hoje o comunismo ja não vende. E muita da "boa consciencia" do ocidente voltou-se para o ambientalismo. O exagero é tão acentuado que chega a ser ridículo. O clima está a mudar, mas sempre mudou. A acção do homem tem impacto sobre o clima? Sem dúvida. Mas até que ponto, em que medida? Por que é que ninguem põe o problema em termos de excesso de população?


schieder da silva, munique | 02/12/09 10:35
EU NESTA AREA NAO ESTOU MUITO PREOCUPADO ;PORQUE QUEM POLUI MUITO OU POUCO NAO TEM OUTRO REMÈDIO SENAO AQUI FICAR ;ENTENDA-SE NESTE PLANETA ;POR ISSO UM DIA QUANDO AS COISAS ESTIVERAM PIORES VAI ESTAR PARA TODOS ;È COMO A MORTE NAO POUPA NINGUEM POBRES OU RICOS


mrrm, | 02/12/09 01:30
Não fosse UM investigador estar sob inquérito da sua própria Universidade um exclente pretexto para fazer a festa. Temo arruinar a sua festa.
Espreite no website da Nasa. Veja por si mesmo o rol de provas em Climate Change Evidence (pondo estas palavras-chave no motor de busca interno do website). Julgue por si próprio, mas antes de julgar veja.
MMartins-Sintra


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