Economico logo
Nova tecnologia exclusiva para utilizadores registados
VÍDEO

“Pode ser necessário um bloco central para garantir estabilidade”

António Costa   e Francisco Teixeira
04/05/09 00:05

enviar noticia
1 leitores

Jorge Sampaio está apreensivo com a situação do País e diz que o bloco central pode ser a melhor solução para garantir estabilidade depois das próximas eleições legislativas. Veja aqui o vídeo.

O ex-Presidente da República fala também da economia, de Durão Barroso, de Obama e dos seus desafios actuais.

Jorge Sampaio assume que a sua "melhor frase de sempre" ganhou um novo fôlego com o instalar da actual crise. De facto, tem havido mais "vida para além do défice".

Sobre o plano do Governo de ataque à crise, Sampaio considera-o "sensato". O ex-presidente da República admite um bloco central político, mas rejeita de forma clara o que chama de bloco central de interesses. Durante hora e meia, Sampaio recebeu o Económico no Gabinete que ocupa na Tapada das Necessidades, junto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A sua frase "há mais vida para lá do défice" ganhou uma nova actualidade. À medida que a crise ganha força os governos colocam a contenção orçamental em segundo plano. Revê-se nesta estratégia?
Essa foi, talvez, a minha melhor frase de sempre! O nosso espaço de manobra é infelizmente muito escasso. Graças ao que se fez em matéria orçamental nos últimos três anos temos, agora, alguma margem de manobra, o que é muito útil. Não quero ser pessimista e não sou economista, mas o défice, em 2009, deverá ir até ao 6%. Se não houvesse essa margem isto estaria muito pior. Chegará o momento em que os défices terão de voltar a cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento, por isso, não devemos ser demasiado expansionistas. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ficar parados perante o risco de uma crise social com o desemprego a aumentar. É preciso criar empresas, é preciso investimento público e era muito bom que houvesse investimento privado. Os afectos vão ser, também, necessários. O fosso que existe entre a vida política, a social e familiar é muito preocupante e, como os instrumentos económicos não abundam, temos de ter austeridade pessoal e política.

Tem visto essa austeridade?
Não tanto como gostaria. E já que não temos todos os instrumentos de que gostaríamos, aos menos reforcemos a proximidade. Este momento eleitoral exige uma grande contenção de propostas porque a margem vai continuar a ser pequena.

Concorda com a política de investimentos públicos seguida pelo Governo?
O programa do Governo de combate à crise parece-me sensato. Aposta em sectores de futuro. Mas é preciso ter uma noção mais clara dos critérios dos apoios às PME, o país devia ter mais informação nesta matéria. Ouvimos dizer que os bancos se estão a capitalizar com as linhas de crédito que o Governo criou. Agora também não faz sentido olhar para a Caixa Geral de Depósitos como se fosse um banco como outro qualquer. Sendo um banco detido a 100% pelo Estado, este é o momento para o usar mais como um instrumento de política económica - sei que isto não é muito ortodoxo, mas é o que penso -, a CGD podia ser usada, por exemplo, como um elemento de apoio directo às PME, que não estão condenadas ao fracasso.

A crise internacional apanhou o país com várias debilidades. Elas foram corrigidas nos últimos quatro anos?
Tenho a preocupação de não me pronunciar sobre casos particulares e em concreto. Um ex - Presidente da República não está na luta politica diária. Em geral, há balanços positivos em relação a este Governo, outros menos positivos.

Mas é, no geral, positivo?
Sim, mas agora a crise vai ter repercussões grandes. Gostaria, apesar de tudo, que não se esquecesse o que foi feito na Saúde e na Educação (apesar da metodologia), na Segurança Social (onde algo muito importante foi consolidado). Faço um balanço positivo, mas o ímpeto, a força reformista tem de continuar. O que me preocupa mais é a governabilidade do país. Como Presidente vivi momentos de profunda instabilidade. São péssimos para a governação e para os cidadãos, mas às vezes são inevitáveis.

Teme uma ruptura social?
À escala mundial tem havido uma extraordinária calma, o que é surpreendente. Temos de ter cuidado, evitando que o desespero tome conta das pessoas porque estamos a viver um tempo muito difícil.

E, Portugal, corre esse risco?
O desemprego e a desigualdade são dois factores que pesam.

Revê-se nesta onda de "ataque aos ricos" que tem estado na agenda política do país?
Não, até porque em geral não sou de "ir em ondas"... agora, uma coisa, totalmente diferente é defender - e isso faço-o com convicção - que a grave crise que atravessamos exige esforços excepcionais de solidariedade por forma a reforçar a coesão social de uma sociedade que, como a nossa, continua marcada por profundas desigualdades. Nesse sentido, subscreveria de bom grado políticas de redução das desigualdades e de reforço da coesão social.

Não precisamos de populismo nem das invejas do costume. Precisamos, sim - e, isso, de que maneira ! -, de pudor democrático e social, precisamos de elites exemplares.

Concorda com o levantamento do sigilo bancário feito pelo fisco como propõe o Governo?
A alteração do regime do sigilo bancário e as modalidades da luta contra a corrupção necessitam de claros aperfeiçoamentos legais e inovações que requerem estudo, audições parlamentares e ponderação, de modo a que querelas de somenos não toldem a clareza e a eficácia do que é necessário legislar. É um trabalho inadiável, urgente, que tem de ser assumido como claramente independente de quaisquer propósitos de campanha eleitoral - pelo contrário, esta é uma matéria estruturante da democracia portuguesa. Espero que não se perca a ocasião rara de se conseguir um trabalho bem feito e que corresponda equilibradamente àquilo que passou a ser uma aspiração claramente maioritária. É das raras oportunidades em que isto que digo é possível e desejável no contexto da Assembleia da República.

Oxalá este momento de um consenso útil e necessário não seja falhado.

E a criação de tectos para salários e prémios de gestores?
Este é assunto delicado a vários títulos que tem desencadeado vivos debates de sociedade, por exemplo, nos Estados Unidos. No sector privado, não me parece viável a imposição de tectos salariais e de limites nos prémios a não ser que seja algo de negociado e concertado internamente entre as partes interessadas, ou então, indirectamente, através de um endurecimento do regime fiscal. Já no que respeita às empresas públicas, em que o dinheiro dos contribuintes está em causa, não me repugnaria que se aplicasse uma política de contenção apropriada aos tempos de crise que atravessamos até porque é demasiado chocante quando se compara o salário mínimo, ou mesmo médio, nacional com os elevados montantes auferidos por certos gestores, entre salários e prémios, sobretudo neste período. Se queremos um país com coesão - elementos indispensável sempre e mais agora do que nunca -, as desigualdades corroem a esperança e matam a confiança.

Que efeitos práticos tem tudo isto? Não é, apenas, dar a sensação que se está a fazer alguma coisa?
Não, no meu entender não são meras medidas de cosmética, como a sua pergunta parece indiciar ... primeiro, porque daí resultariam benefícios significativos que poderiam ser utilizados em medidas de coesão ou, por exemplo, para um Fundo de Solidariedade; depois porque há medidas que podem ter um impacto real limitado, mas que são manifestações fortes de solidariedade...poderão não encher os porta-moedas, mas enchem a alma... ora a vida em sociedade também é uma questão de afectos, cuja demonstração recai, em primeira linha, nos principais agentes políticos e económicos.

Obras como o TGV e o aeroporto são uma resposta eficaz à crise?
O território é um dos nossos elementos que mais nos distinguem e nesse sentido qualificam. O que podemos ser deste ponto de vista?
Claramente, que somos uma plataforma logística, ou melhor, estratégica dada a nossa localização geográfica - logo, isto significa que aeroportos, portos e caminhos-de-ferro são absolutamente cruciais, assim como, as ligações a Espanha. Agora temos de definir o que é prioritário neste momento de crise. Não sou especialista, mas custa-me naturalmente pensar que há decisões que, se não forem tomadas, podem vir a "atrasar o nosso futuro". O novo aeroporto é essencial, mas ainda estamos na fase do concurso para o estudo de impacte ambiental, meu deus do céu! Andamos nisto há trinta anos, enquanto outros já fizeram os seus aeroportos. Agora eu distinguiria entre os investimentos que são estruturais, os investimentos de combate à crise e os que têm um impacto negativo na reacção à crise. O aeroporto e o TGV têm de ser ponderados deste triplo ponto de vista, mas isso é para os especialistas. Pela minha parte, o que posso dizer é que, politicamente, quero um país estruturado, logisticamente apetrechado e ligado à Europa.

Mas falta informação sobre os grandes investimentos?
Mais informação era útil para esclarecer e acalmar as pessoas.

Mais estudos custo-benefício?
É preciso perceber se este é ou não o momento para estes investimentos serem feitos. Não pode haver crispação sobre isto!

Como vê a postura da banca no combate à crise?
Não são, apenas, os spreads que aumentaram porque, naturalmente, com a crise o risco é maior. A banca tem de estar capitalizada, mas também tem de ter uma ligação ao sector produtivo e tem de ser um factor de confiança.

A crise internacional apanhou o País com várias debilidades. Elas foram corrigidas nos últimos quatro anos?
Tenho a preocupação de não me pronunciar sobre casos particulares e em concreto. Um ex - Presidente da República não está na luta política diária. Em geral, há balanços positivos em relação a este Governo, outros menos positivos.

Mas é, no geral, positivo?
Sim, mas agora a crise vai ter repercussões grandes. Gostaria, apesar de tudo, que não se esquecesse o que foi feito na Saúde e na Educação (apesar da metodologia), na Segurança Social (onde algo muito importante foi consolidado). Faço um balanço positivo, mas o ímpeto, a força reformista tem de continuar. O que me preocupa mais é a governabilidade do País. Como Presidente, vivi momentos de profunda instabilidade. São péssimos para a governação e para os cidadãos, mas às vezes são inevitáveis.

Teme uma ruptura social?
À escala mundial tem havido uma extraordinária calma, o que é surpreendente. Temos de ter cuidado, evitando que o desespero tome conta das pessoas porque estamos a viver um tempo muito difícil.

E Portugal, corre esse risco?
O desemprego e a desigualdade são dois factores que pesam.

Revê-se nesta onda de "ataque aos ricos" que tem estado na agenda política do País?
Não, até porque em geral não sou de "ir em ondas"... agora, uma coisa, totalmente diferente é defender - e isso faço-o com convicção - que a grave crise que atravessamos exige esforços excepcionais de solidariedade por forma a reforçar a coesão social de uma sociedade que, como a nossa, continua marcada por profundas desigualdades. Nesse sentido, subscreveria de bom grado políticas de redução das desigualdades e de reforço da coesão social. Não precisamos de populismo nem das invejas do costume. Precisamos, sim - e, isso, de que maneira ! -, de pudor democrático e social, precisamos de elites exemplares.

Concorda com o levantamento do sigilo bancário feito pelo fisco como propõe o Governo?
A alteração do regime do sigilo bancário e as modalidades da luta contra a corrupção necessitam de claros aperfeiçoamentos legais e inovações que requerem estudo, audições parlamentares e ponderação, de modo a que querelas de somenos não toldem a clareza e a eficácia do que é necessário legislar. É um trabalho inadiável, urgente, que tem de ser assumido como claramente independente de quaisquer propósitos de campanha eleitoral - pelo contrário, esta é uma matéria estruturante da democracia portuguesa. Espero que não se perca a ocasião rara de se conseguir um trabalho bem feito e que corresponda equilibradamente àquilo que passou a ser uma aspiração claramente maioritária. É das raras oportunidades em que isto que digo é possível e desejável no contexto da Assembleia da República. Oxalá este momento de um consenso útil e necessário não seja falhado.

E a criação de tectos para salários e prémios de gestores?
Este é assunto delicado a vários títulos que tem desencadeado vivos debates de sociedade, por exemplo, nos Estados Unidos. No sector privado, não me parece viável a imposição de tectos salariais e de limites nos prémios a não ser que seja algo de negociado e concertado internamente entre as partes interessadas, ou então, indirectamente, através de um endurecimento do regime fiscal. Já no que respeita às empresas públicas, em que o dinheiro dos contribuintes está em causa, não me repugnaria que se aplicasse uma política de contenção apropriada aos tempos de crise que atravessamos até porque é demasiado chocante quando se compara o salário mínimo, ou mesmo médio, nacional com os elevados montantes auferidos por certos gestores, entre salários e prémios, sobretudo neste período. Se queremos um País com coesão - elementos indispensável sempre e mais agora do que nunca -, as desigualdades corroem a esperança e matam a confiança.

Que efeitos práticos tem tudo isto? Não é, apenas, mostrar que se está a fazer alguma coisa?
Não, no meu entender não são meras medidas de cosmética, como a sua pergunta parece indiciar... primeiro, porque daí resultariam benefícios significativos que poderiam ser utilizados em medidas de coesão ou, por exemplo, para um Fundo de Solidariedade; depois porque há medidas que podem ter um impacto real limitado, mas que são manifestações fortes de solidariedade...poderão não encher os porta-moedas, mas enchem a alma... ora a vida em sociedade também é uma questão de afectos, cuja demonstração recai, em primeira linha, nos principais agentes políticos e económicos.

Obras como o TGV e o aeroporto são uma resposta eficaz à crise?
O território é um dos nossos elementos que mais nos distinguem e nesse sentido qualificam. O que podemos ser deste ponto de vista? Claramente, que somos uma plataforma logística, ou melhor, estratégica dada a nossa localização geográfica - logo, isto significa que aeroportos, portos e caminhos-de-ferro são absolutamente cruciais, assim como, as ligações a Espanha. Agora, temos de definir o que é prioritário neste momento de crise. Não sou especialista, mas custa-me pensar que há decisões que, se não forem tomadas, podem vir a "atrasar o nosso futuro". O novo aeroporto é essencial, mas ainda estamos na fase do concurso para o estudo de impacte ambiental, meu deus do céu! Andamos nisto há 30 anos, enquanto outros já fizeram os seus aeroportos. Agora, distinguiria entre os investimentos que são estruturais, os investimentos de combate à crise e os que têm um impacto negativo na reacção à crise. O aeroporto e o TGV têm de ser ponderados deste triplo ponto de vista, mas isso é para os especialistas. O que posso dizer é que, politicamente, quero um país estruturado, logisticamente apetrechado e ligado à Europa.

Mas falta informação?
Mais informação era útil para esclarecer e acalmar as pessoas. É preciso perceber se este é ou não o momento para estes investimentos serem feitos. Não pode haver crispação sobre isto!

 

  • "Libertaria o senhor Presidente e os colegas do Conselho de qualquer constrangimento..."


Foi Presidente da República durante dez anos e hoje ainda é Conselheiro de Estado. Existindo suspeitas sobre o seu envolvimento no caso BPN deve o conselheiro de Estado Manuel Dias Loureiro abandonar o cargo?
Só posso responder "a solo", isto é, com o que eu faria se, por hipótese, estivesse colocado em posição semelhante. Não sou julgador do que quer que seja, nem faço imputações. Mas, naquela hipótese, libertaria o senhor Presidente da República e também os colegas do Conselho, de qualquer constrangimento.

 

  • "Lisboa precisa de António Costa"

Espera uma vitória de António Costa em Lisboa?
A única vez que tomei partido numas eleições nos últimos três anos foi para apoiar António Costa. Acho que a coligação de esquerda que eu formei foi útil para a cidade e representou um programa estratégico e que a cidade precisa, novamente, disso. Por razões de natureza programática e estratégica, tenho mais confiança naquilo que António Costa pode dar. É pena que não se viabilize um entendimento à esquerda.

 

  • "Resultado das legislativas vai condicionar presidenciais"


O caso Freeport não sai dos jornais e telejornais. Surpreende-o as sucessivas violações do segredo de justiça?
Não me surpreende, mas indigna-me, como é óbvio e a esse respeito sempre se dirá que a repulsa por essas violações tem de ser clara e insofismável por parte de todos... se fosse o caso, pode querer, que haveria muito menos violações do segredo de justiça!

O PGR tem gerido bem a instabilidade interna que tem vindo ao de cima?
Qualquer PGR carece sempre de todo o apoio do Governo e do Presidente da República. Resultando a sua nomeação pelo Presidente da República, na sequência de uma proposta do Governo, entendo que conta, à partida, com particulares garantias para assegurar a sua actividade bem como os canais próprios para poder exercê-la, à cabeça de uma magistratura hierarquizada, que comanda.

Mas compreenderá que me não vou pronunciar sobre o desempenho de quem quer que seja, sobretudo nestes tempos em que serenidade e a confiança devem ser as palavras mestras.

Corremos o risco de ter uma República dos juízes?
Para eliminar esse risco, só há um caminho, o reforço do Estado de Direito. Mas para que cesse a intranquilidade social e o mal-estar que o mau funcionamento da justiça tem gerado, é absolutamente indispensável melhorar o funcionamento e a imagem da justiça.

Reconheço que tal mal-estar tem sido potenciado por excessivas intervenções públicas de magistrados, denunciadoras de uma crispação corporativa, que, por si só, causa enorme dano à pacífica aceitação pela generalidade dos cidadãos seja da independência dos juízes, seja da autonomia do Ministério Público. Ora sem essa independência, sem essa autonomia, não há verdadeiro Estado de direito, o que constitui acrescido estímulo para que os magistrados, também eles, sejam exemplo de que a Justiça se faz nos tribunais e não na praça pública.


Está o primeiro-ministro fragilizado por ver, sucessivas vezes, o seu nome associado a este caso?
Não é agradável para ninguém estar continuamente debaixo de fogo cruzado sob acusações e suspeitas permanentes!

Se os princípios da presunção de inocência e do ónus da prova são tão invocados por aí, custa a perceber por que razão se não aplicam cabalmente ao caso presente. A meu ver, nesta fase, o importante é que as investigações terminem e, ao mesmo tempo, é fundamental que não haja receio de as terminar, qualquer que seja a conclusão.

O Governo invoca, na aprovação do caso Freeport, que o senhor confrontou o Governo de Durão Barroso com a decisão do Executivo de António Guterres e que o Governo de Barroso não se opôs. Confirma?
Terá invocado o Governo, fê-lo também um elemento destacado do PSD. Fizeram mal e nada tenho a ver com o assunto. Explico: como sabe, essa questão prende-se concretamente com a promulgação dos Decretos-Lei 140/2002 e 141/2002, a 2 de Maio de 2002. Assim como aconteceu em todas as situações análogas, tais decretos-lei só foram promulgados, após os responsáveis do novo Governo prestes a entrar em funções, ao terem sido chamados a pronunciar-se, não terem manifestado quaisquer reservas ou objecções aos diplomas. Quero ainda esclarecer - porque é uma confusão corrente - que a promulgação destes diplomas nada tem a ver com processos de licenciamento. Estes são actos administrativos, da competência exclusiva do Governo e relativamente aos quais o Presidente da República não é chamado a promulgar ou assinar.

Por último, quero ainda acrescentar que nesta matéria o meu padrão de actuação durante os dois mandatos foi muito uniforme e sempre que um diploma aprovado ainda por um governo em funções pudesse, de algum modo, condicionar ou criar obstáculos ao novo Governo, ele só era promulgado se os responsáveis do novo Governo não manifestassem a propósito quaisquer reservas ou objecções. Foi o que aconteceu neste caso como em muitos outros.

A justiça hoje tem a autonomia que devia?
A justiça é um dos sectores fundamentais que, há vários anos, está em crise e em instabilidade crescente. Durante dez anos fiz dezenas de intervenções que tinham que ver com estes problemas. Isto afecta gravemente a imagem da democracia e desprestigia o Estado além de hipotecar o futuro gerando desconfiança (por exemplo, no que respeita ao investimento) e impedindo o desenvolvimento. O adequado desempenho da justiça que realize um Estado de direito verdadeiro e próprio, exige celeridade de procedimentos e qualidade das decisões. A formação profissional dos magistrados é, em geral, boa. E, por isso, celeridade e qualidade dependem, sobretudo, de três vectores: contingentação de processos (cada juiz só decide x processos), simplificação de procedimentos e prosseguimento da respectiva informatização. Depois é preciso olhar, como verdadeira prioridade, para a justiça criminal.

Essa prioridade não se tem sentido?
É que não se pode falar em prioridade e continuarem a faltar meios técnicos e humanos para investigar em tempo e em termos. Não se pode falar em prioridade no combate ao crime de colarinho branco, onde as perícias são rainhas e continuar a dispor-se de meios técnicos feitos para investigar pilhas-galinhas. A manter-se a situação actual, adensar-se-á a ideia, que os factos infelizmente confirmam, de que há uma justiça para pobres e uma justiça para ricos.

Sendo evidente o mal-estar nas estruturas da justiça o que o provoca?
O mal-estar é potenciado por excessivas intervenções públicas de magistrados, denunciadoras de uma crispação corporativa que, por si só, causa enorme dano à específica aceitação pela generalidade dos cidadãos seja da independência dos juízes, seja da autonomia do Ministério Público.

A última sondagem da Marktest / Semanário Económico dá à extrema-esquerda uma intenção de voto de 25%, enquanto o PSD se fica pelos 26%. O que está a acontecer para justificar o aumento do PCP e BE?
Estamos ainda a falar de intenções de voto com uma antecedência que relativiza muito os dados obtidos. Esta é, digamos, uma salvaguarda metodológica que quero fazer desde já.

Agora, pessoalmente, não me surpreende muito esta busca de alternativas por um certo eleitorado porventura desiludido ou mesmo desorientado com a dimensão da crise actual... só que a alternativa está, a meu ver, não na recusa da economia de mercado, mas na procura de uma "economia social de mercado", não na recusa do mercado, mas na procura de uma melhor regulação dos mercados ... ora - e aqui exprimo uma convicção pessoal -, os partidos mais bem apetrechados para desbravar esta via e apresentar soluções viáveis com vista à aplicação de um modelo social de desenvolvimento sustentável são os da social-democracia europeia.

Eu sou, naturalmente, a favor do pluralismo e considero que é um salutar sinal de pujança democrática, a manifestação de um leque variado de posições e de visões sobre o futuro de uma sociedade. Mas vejo, confesso, com alguma apreensão o aumento de posições extremadas porque, entendo também, que a crise e os desafios com que o nosso país se confronta exigem alguns consensos transversais interpartidários sob pena de Portugal se tornar ingovernável.

A estabilidade política e institucional, bem como a governabilidade são essenciais, sobretudo em tempo de crise.

Como antevê o ciclo eleitoral?
As eleições autárquicas têm uma lógica muito própria, as eleições europeias têm que ver com balanços de política interna, embora eu gostasse que tivessem só que ver com aspectos de política europeia.

Mas, cuidado, o voto nas legislativas é muito importante! Ainda é cedo, e temos sempre essa mania de antecipar o que se vai passar daqui a seis meses, mas as eleições associadas à crise devem ser tratadas com toda a seriedade.

O país corre o risco de ficar ingovernável já que tendo em conta as sondagens nenhum partido conseguirá a maioria absoluta?
Já ouvi por diversas vezes esta tese: governos minoritários dão maiorias relativas que duram dois anos. Isto é táctico de mais. Temos uma questão estratégica que é saber como se sai disto. Os chamados compromissos pré e pós eleitorais são uma coisa corrente, por exemplo, em Espanha. Acho que o importante é haver alternativas e escolha entre várias maiorias absolutas possíveis. Vejo muitos agentes partidários serem contra maiorias absolutas até por que nunca serão maioria absoluta.

Também é dos que acha que o bloco central é inevitável como diz João Cravinho?
Distingo entre o bloco central de interesses e bloco central como solução política, que foi o que aconteceu na altura em que eu estive fora do Parlamento por divergências com o meu querido amigo Mário Soares porque não chegámos a acordo sobre a feitura de listas. Muita gente não esteve na Assembleia nesses dois anos, mas foi uma solução importante porque, nessa altura, estancou a crise que vinha de trás e arrumou a casa. Mas isto não tem nada a ver com o bloco central de interesses, que se salda pelo aproveitamento e divisão de interesses e poderes por vários grupos, sectores e agentes da sociedade. Isso pode ser absolutamente prejudicial para a vida económica, social e política. Pode ser necessária uma coligação, ou um acordo pós eleitoral. Um bloco central político é uma possibilidade, como há também outras, o que conta é determinar o seu grau de estabilidade e solidez. A prazo o resultado das eleições legislativas vai-se ligar, vale a pena enunciá-lo, com as plataformas para as eleições presidenciais.

As legislativas vão condicionar as próximas presidenciais?
Agora não me peça mais nada porque isso é matéria delicada em que desejo manter-me absolutamente silencioso.

 

  • "Apoiar reeleição de Barroso não é patriotismo bacoco"

Foi um responsável directo por termos hoje um presidente da Comissão Europeia português. Concorda com o apoio do Governo português à reeleição de Durão Barroso?

Qualquer país se bate, se puder, para que um nacional seu seja presidente da Comissão. Foi e será sempre assim: basta recordar. Foi isso que me levou a dizer o sim que, afinal, viabilizou a primeira - e não menos importante - fase do processo que levou Durão Barroso à Comissão. Não é patriotismo bacoco, é porque é importante no contexto da UE. Hoje, repetiria a decisão.

Não quero fazer balanços sobre os cinco anos passados, mas quando leio determinados comentários e análises não posso honestamente concluir que sejam todas abonatórias. Em tempos de crise, para a Europa é fundamental uma liderança forte da Comissão que é a guardiã dos tratados e do espírito comunitário - tem sido sempre assim? Podia ser melhor? Fica-nos de qualquer forma a dúvida. O futuro requer uma comissão forte e impulsionadora, propositiva, capaz de correr os riscos de propor as reformas necessárias. Vejo que Durão Barroso tem praticamente a sua reeleição garantida.

Conta com o seu apoio?
Contaria se eu tivesse novamente que decidir. Agora é preciso uma Europa forte, com iniciativa. O que vejo como negativo é pensarmos que é menos Europa e mais Estado - Nação o que resolve os nossos problemas.

Durão Barroso está à altura desses riscos?
Tem que estar. Já não é se está ou não, tem de estar. Agora é mesmo decisivo.

 

  • "Sou uma pessoa que a vida toda trabalhou para arranjar consensos"

Como é o seu dia a dia?
Sou uma pessoa que toda a vida trabalhou para encontrar consensos, saídas para as questões difíceis. Tenho a mania de procurar nas pessoas aquilo que elas podem dar de melhor. Eu, de defeitos, estou farto.

Como gere o seu dia-a-dia depois de ter sido, em política, quase tudo: líder da oposição, líder parlamentar, presidente da maior Câmara do país, Presidente da República...

Nunca me arrependi desse percurso. Acho que a presidência, na sua relação com o povo, reflectiu isso mesmo. Fui sempre uma pessoa aberta para todos os diálogos e para tomar decisões difíceis nos momentos mais difíceis.

Se pudesse voltar atrás mudava alguma coisa?
Não. Estou-me a referir a coisas em concreto. Primeiro, a candidatura à Câmara de Lisboa que foi crucial. Foi uma decisão solitária que teve consequências positivas e negativas e o PS subiu nas autárquicas de uma forma significativa. A segunda decisão foi candidatar-me à presidência da República.

Qual foi a decisão mais difícil que tomou como Presidente?
Foram duas, explicáveis pela forma como entendi a Constituição. A continuação da maioria perante a saída de Durão Barroso porque entendi que o regime era isso. E, depois, aquilo que me pareceu ser crucial e que estava já explicado nos prefácios dos meus livros, particularmente no do volume seis que aborda a dissolução. A queda do Governo do Dr. Santana Lopes, que é uma pessoa que eu estimo e já estimava antes, não foi um momento agradável.

Sentiu que a 20 de Fevereiro de 2005 o país lhe estava a dar razão ao eleger um Governo de maioria absoluta do PS?
Não. Sou muito modesto para dizer uma coisa dessas. Digo o contrário:
se tivesse dado o inverso do que deu, eu teria uma derrota política.
Avaliei bem a necessidade popular da relegitimização que as eleições sempre constituem. Nem sempre ficam as pessoas amigas como eram...

 

  • "É vital que se mantenha a aragem de Obama"

Partilha o entusiasmo dos primeiros cem dias de Barack Obama?
Sim. Ele transmitiu uma nova abordagem da política, um novo multilateralismo, uma nova política energética. É absolutamente vital que se mantenham estes ventos de renovação.

Revê-se na solução apresentada por Barack Obama para o Médio Oriente?
Concordo quando defende que a solução do conflito Israelo-Palestiniano passa pela solução dos dois estados, que aliás sempre defendi. O tempo está a esgotar-se. Agora é preciso equilíbrio. Este é o presidente que fechou Guantanamo e divulgou as torturas que a CIA fazia, mas agora tenta encontrar uma solução para que os elementos da CIA não sejam criminalmente responsabilizados. Eu pessoalmente sou contra a tortura, mas estou em Portugal na Tapada das Necessidades...

 






Envie o seu comentário


Disclaimer: "O Económico apela aos leitores para que utilizem este espaço para um debate sério e construtivo, dispensando-se, para o bem de todos, o insulto e a injúria gratuitos. Comentários inadequados devem ser denunciados e quando tiverem mais de três denúncias serão eliminados automaticamente. O IP do leitor não será revelado mas ficará registado na base de dados".

Comentários (17)

hell, | 04/05/09 23:25
És muito a bom no que dizes,bloco central era o ideal já agora se fosses juntamente com esse bloco para o fundo do mar não se notava nada, era um derrame que ia demorar anos a limpar a costa.


jota agá, lisboa | 04/05/09 16:43
Isto de bloco central, tem que se lhe diga, não fora Portugal demasiado castigado pelo poder das forças politicas, hoje evidenciadas por alguém que no país ocupou o mais alto cargo da nação que com certeza deve ser muito conhecedor dos entraves que os seus representantes causaram ao país no campo económico e social a centenas de milhares de portugueses que nos tempos que correm vivem na maior das misérias, não tendo paralelo nos últimos 70 anos! – Tais forças causadoras de tanta desilusão, insistem hoje em encher a boca de democracia, quando se esquecem que a mesma, só pode existir quando a distribuição da riqueza deste país (ou qualquer país) passa pela
melhor distribuição do produto disponível de forma a que todos os seres Humanos sejam contemplados e jamais alguém tenha que passar fome!....
As estatísticas destes “democratas”, assentam em princípios pouco transparentes e ao mesmo tempo trapaceiras, na medida que pegam no produto e o dividem pelo número de seres racionais deste desafortunado país de forma a fazer crer que todos vivem dentro de parâmetros de dignidade que a democracia exige. No entanto, neste país praticam-se
os mais altos salários da U.E. em cargos de direcção e administração, enquanto aqueles que se ocupam da produção de riqueza auferem salários miseráveis que não criam qualquer estímulo para o aumento de produtividade que a todos nós traria com toda a certeza perspectivas de melhor futuro!
Hoje, PORTUGAL, vive adiado, a haver bloco central, este teria que repensar de novo,
de forma a corrigir todas as anomalias que originaram tremendas injustiças de forma a devolver a César o que a este pertence, sendo óbvio que àqueles que vivem no fausto à custa da miséria terão que ser tiradas regalias que são totalmente injustificadas.
Em Portugal precisa-se de justiça e honestidade!...



Jose Martins, Amadora | 04/05/09 14:10
Há que socorrer o PS, pois ao contrário das últimas sondagens os resultados nas Legislativas vão ser uma hecatombe


F. Cunha, Guimaraes | 04/05/09 12:46
É isso Verdi! É mesmo isso que você tem tido há mais de 30 anos!
Ainda não lhe chegou para perceber que com tal governo Portugal e 99,9% dos Portugueses não vão a lado nenhum!!!!...
Ajude a mudar isto já este ano.
Quanto mais tempo passar mais vai custar aos tais 99,9% nos quais às tantas Você se inclui.




F. Cunha, Guimaraes | 04/05/09 12:12
cdr, lisboa pois! Compreendem-se as suas dúvidas.
Como com a sua "via democratica" está demonstrado no que dá, faço-lhe um pedido:- Abra bem os olhos por forma a vêr para além do seu umbigo, e talvez consiga perceber que há ainda em Portugal quem tenha princípios e fale verdade em política em Portugal.


MANUEL CESÁRIO ROSA PASCOA, beja | 04/05/09 12:02
faz lembrar dois amigos que mataram uma lebre no tempo do defeso. UM disse temos lebre e o outro respodeu temos não, tenho eu que a matei. Apareceu a GNR e diz o que a tinha matado,estamos tramados e o outro respondeu estamos, não, estás tu,eu não matei lebre nenhuma. DEPOIS DO PAIS NA DESGRAÇA JA QUEREMJ O PSD ? pENSO QUE ISSO NÃO .E POSSÍVEL..



REALISTA, | 04/05/09 10:56
Engraçado para quem distituio um governo com meia duzia de meses, onde nem metade da desgraça que sentimos hoje existia, agora aparece como se percebe.se muito de politica. meu amigo deixe-se ficar na historia como ex presidente e não como mais outro armado em solução quando pode ter sido causador do que passamos hoje.... se hoje fosse presidente o exm Sr. Sampaio então já tinha mandado abater o Sr. Ministro Socrates....
Quanto ao bloco central, supostamente o Ps Já o é, porque a politica que leva corre todas as doutrinas especialmente a da politica social ao longo destes anos que promoveu o desemprego e subsidio dependencia....Que ganhe o PS ou o PSD o que é presiso é um OBAMA á portuguesa para acabar com os muitos lobies.....socrates começou a tocar na ferida dos medicamentos, mas para dar certo é presiso muito mais incluindo as direcções privadas de hospitais que só serviram para aumentar a despesas com administrações e piorar o serviço prestado ao utente....


Verdi, | 04/05/09 10:47
O próximo Governo devía contar com ministros do PS, do PSD e do CDS !
Qual "bloco central" ?


Edmilson Jorge Maria da Conceição, Salvador?Ba | 04/05/09 05:09
Realmente,o que está precisando ter é uma compreensão maior de alguns po-
liticos que não há mais lugar para fazer uma política partidária ou seja intes-
seira.
No momento atual precisamos de uma polítia voltada para o crescimento so-
cial e econômico, partindo do principio de conservação e criação de empregos.
Se fizermos uma análise dos números das pessoas que estão desempregados
dos que estão sendo demitidos, dos que estão à procura do primeiro emprego e,
dos que estão se formando seja:
Nas escolas particulares, estaduais, escolas tecnicas federais, universida-
des federais, universidades particulares, ( nas cidades e, nos interiores de to-
do o país ), como se pode pensar numa politica de interesses partidarios?


R F R, | 04/05/09 03:04
Na Alemanha funcionou e tudo indica que vai continuar, estamos à espera de quê?




Rui Lima Pinto, | 04/05/09 01:47
Não e preciso Bloco central! Entao mesmo assim dissolveu assembleia qd havia maioria!


Publicidade

Collapse

Bolsa

Close
-
PSI 20
-
FTSE 100
-
DAX 30
-
CAC 40
-
SMI
-
AEX 25
-
IBEX 35
-
DOW JONES
-
NASDAQ
-
BOVESPA

Acções do PSI 20

-
-
ALTRI
-
-
JERON. M.
-
-
BPI
-
-
MOTA EN.
-
-
BANIF
-
-
PORTUC.
-
-
BCP
-
-
PT TELEC.
-
-
BES
-
-
REN
-
-
BRISA
-
-
SEMAPA
-
-
CIMPOR
-
-
SONAE IN.
-
-
EDP EN.
-
-
SONAE
-
-
EDP REN.
-
-
SONAECOM
-
-
GALP
-
-
ZON
Feed com delay de 15 minutos
MyTable
Collapse

Económico Digital

Close
Económico Investidor