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João Galamba

Perdido no Aquashow

20/08/12 00:05 | João Galamba 



No início de Agosto, Mario Draghi, governador do BCE, afirmou publicamente que fará tudo o que for necessário para reduzir os juros da dívida dos países sobre pressão dos mercados.

Draghi abriu a porta a que o BCE se comprometa com um objectivo de ‘spread' para as dívidas dos Estados -membros. Independentemente do valor do ‘spread' e do modo como seria calculado, o juro a que os Estados se financiariam já não seria determinado pelos mercados, mas sim pelo BCE. Por muito que Draghi insista que só intervirá se os Estados o requererem formalmente e que a responsabilidade da política orçamental continua a ser dos governos, a verdade é que a solução para baixar os custos de financiamento já não passa pela austeridade e pelas famosas reformas estruturais.

A decisão do BCE é um momento de verdade, porque revela o logro da narrativa que nos andam a impingir. A chamada "crise das dívidas soberanas" não existe por causa do regabofe das dívidas e dos défices - se assim fosse, os EUA, o Japão e o Reino Unido estariam numa situação semelhante -, mas por dívidas e défices que existem no interior de uma arquitectura monetária disfuncional. Declarar que a normalização das condições de financiamento dos Estados e o regresso da confiança dependem da mobilização do poder monetário do BCE são o primeiro reconhecimento, ainda que tácito, desta evidência.

Esta decisão pode ter profundas implicações para Portugal, não apenas porque continua a emitir dívida de curto prazo - o mercado em que o BCE anunciou que vai intervir -, mas também porque permite reabrir a discussão sobre a natureza da crise. Sobre a decisão do BCE, porém, os portugueses ainda não ouviram uma palavra do Governo. Aliás, a Europa continua a ser uma entidade inexistente na sua pequenina mundivisão. No discurso do Aquashow, Passos Coelho voltou a mostrar que não compreende o mundo em que vive. Brindou o País com a sua narrativa de moralismo pedestre sobre as causas da crise, reafirmando que acabou o regabofe e que no futuro o povo não será aliciado com falsas promessas nem cairá no facilitismo da dívida. Portugal viverá dentro das suas possibilidades; será poupadinho, honrado, austero, e feliz. Os portugueses saberão adaptar-se à sua condição e não ousar querer ser outra coisa que não aquilo que sempre foram. Estranho futuro este que só tresanda a passado.

Para além do moralismo bafiento, o discurso de Passos também teve laivos de delírio. Com a Europa em recessão e a viver uma crise sem precedentes, com o mundo em fortíssima desaceleração, e - se as metas orçamentais não forem revistas - com o orçamento de 2013 a implicar medidas de austeridade superiores a 6 mil milhões de euros, Passos Coelho garantiu que 2013 vai ser o ano da viragem económica. Tudo indica que perdeu o contacto com a realidade.

João Galamba, deputado pelo PS

 




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