As últimas semanas foram particularmente negativas para Barack Obama e Democratas.
Desconhece-se o impacto que a última controvérsia poderá ter nas eleições intercalares de Novembro, mas, no mínimo, esperava-se que o presidente fosse capaz de acalmar os ânimos relativamente à construção de uma mesquita e centro cultural islâmico próximo do ‘Ground Zero', em Manhattan. Pois bem, tal não aconteceu.
A popularidade dos presidentes recordados pelos seus êxitos - como Bill Clinton e Ronald Reagan - era ainda mais baixa que a de Obama nesta fase do primeiro mandato, e chegaram a perder lugares no Senado durante os dois primeiros anos. Os Democratas receiam, contudo, que a popularidade do presidente venha a cair ainda mais e que a sua atitude no "debate sobre a mesquita", como é chamado, venha a agravar a situação. Verdade seja dita: Obama perdeu a oportunidade de pôr em prática o tipo de liderança que é capaz de exercer.
A polémica só ganhou dimensão quando o presidente fez uma primeira declaração referindo que a liberdade religiosa está consignada na Constituição e não compete à Administração decidir sobre a localização da mesquita. Pouco depois, nova declaração: o presidente não se pronuncia sobre a sensatez do projecto, apenas sobre a sua legalidade. Obama foi desastrado. Se tivesse feito apenas uma declaração e explicado mais claramente a sua posição, a polémica teria sido menor.
Em suma, perdeu-se também a oportunidade de conter o fanatismo que grassa no país e que, neste momento, está em alta. Discordar de alguém é o mesmo que exercer o poder da convicção atacando a sua boa-fé: essa pessoa não só está errada como representa o diabo. Os liberais, acto reflexo, acusam os conservadores de fanatismo, enquanto estes chamam aqueles de cobardes ou comunistas, ou lhes põem outros rótulos de traição. Apesar dos argumentos legítimos de ambos os lados do debate, por vezes fica-se com a impressão de que a classe política norte-americana passa o tempo à procura de uma desculpa para declarar guerra à outra facção.
Muitos americanos, desiludidos com as políticas de Washington, esperavam que Obama esbatesse esta divisão cultural. Uma questão-chave para o eleitorado que nele depositou grande esperança em 2008 e que ajuda a explicar porque razão as expectativas em torno da sua presidência eram tão altas. Essas expectativas têm sido defraudadas por motivos vários, entre os quais a intransigência dos Republicanos, apesar do presidente ter tido a oportunidade de clarificar a sua posição sobre esta matéria.
Quando a questão da raça veio ao de cima durante a campanha eleitoral, Obama deu provas de bom senso ao fazer um discurso unificador exortando os americanos a manter a calma, a sobriedade e a clarividência. Ora, o "debate sobre a mesquita" exigia que o presidente proferisse um discurso de igual natureza e magnitude.
Na minha opinião, deveria ter recordado ao país os objectivos comuns e apelado à tolerância e à compreensão de ambas as partes, mesmo que não dissesse uma palavra sobre o projecto em si. Foi esse Barack Obama que os EUA elegeram. Onde está ele agora?
Tradução de Ana Pina
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Clive Crook, Colaborador do "Financial Times"
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