Comunidade
As dificuldades da conjuntura económica estão a obrigar muitos gestores a tomar decisões difíceis.
Têm que encontrar oportunidades de negócio, avaliar retornos e responder permanentemente a um mundo que oscila de forma imprevisível e incontrolável... As pressões do mercado, dos accionistas e dos bancos obrigam quem tem responsabilidades de gestão a tentar, em simultâneo, aumentar a produtividade e promover a inovação. É preciso reduzir custos e encontrar novas fontes de receitas. Mas, se os objectivos são óbvios, a forma de os alcançar pode esconder muitas armadilhas. Uma delas é o "culto do rejuvenescimento": a convicção de que uma organização será tão mais produtiva e inovadora quanto menor for a média das idades dos seus colaboradores. Será? Parece-me óbvio que a resposta é não. Um amigo que já não encontrava há algum tempo partilhou comigo que, ao aproximar-se dos 50 anos de idade, se sente no pico das suas capacidades profissionais. Ainda assim, receia que, tal como já aconteceu a muitos outros na empresa onde trabalha, seja em breve convidado a sair... Em muitas empresas, ter mais de 40 anos torna-se uma desvantagem preocupante e quem procura um emprego com essa idade encontra dificuldades muito acrescidas. Esta tendência parece estar a enraizar-se no nosso mercado de trabalho apesar de ser paradoxal numa Europa que prolonga a vida activa e onde se vive com qualidade até uma idade cada vez mais avançada.
Este tema, entre outros, esteve em discussão recentemente numa conferência promovida em Lisboa pela APDC e pelo ‘think tank' europeu ‘Lisbon Civil Forum'. Nessa conferência, o economista Alfred Kleinknecht demonstrou, a propósito da flexibilidade laboral, como é errado este "culto do rejuvenescimento". O argumento é simples: a memória organizacional é fundamental para uma empresa ser capaz de inovar.
Kleinknecht, especialista em inovação, defendeu que a saída de pessoas que ao longo de muito tempo acumularam conhecimento relevante para a organização pode ser dramático para a sua capacidade de inovar, sobretudo quando estamos a falar de inovações incrementais e de processo. E não será por gastarem muito dinheiro em sistemas informáticos que prometem "gerir o conhecimento" que as empresas conseguem reter esse saber: o conhecimento acumulado pelos seus colaboradores continua a ser apenas deles e, quanto mais ameaçado alguém se sentir, menos disponível estará para partilhar o que sabe...
O risco desta armadilha revela-se quando se considera o seu efeito acumulado. Relações laborais menos duradouras levam a que as empresas invistam menos em formação e menor segurança diminui os incentivos para que os colaboradores dediquem o seu próprio tempo e esforço em conhecimento relevante para o seu trabalho. Menos autonomia aumenta a necessidade de monitorização e controlo, aumentando a burocracia. Uma burocracia de gestão exagerada frustra e afasta as pessoas mais criativas, alterando o equilíbrio de poder e reduzindo o pensamento crítico que é fundamental para evitar erros de gestão....
É fundamental fugir a esta armadilha. Inovar é ser capaz de fazer as coisas de forma diferente para ganhar uma vantagem face à concorrência. A complexidade do mundo em que vivemos não favorece exércitos disciplinados e perfeitamente alinhados mas que apenas sabem cumprir ordens. A diversidade e a abertura são fundamentais para que as ideias surjam e sejam aproveitadas. Uma empresa terá melhor condições para ser bem sucedida se conseguir reunir na mesma equipa o bom senso e o conhecimento de quem tem mais de 50 anos, a ousadia e a capacidade de usar a tecnologia de quem tem menos de 30 e a capacidade de realizar de quem está no grupo intermédio. É uma vitória efémera conseguir que uma empresa sobreviva às dificuldades sacrificando a sua capacidade de crescimento futuro. É preciso olhar para além do curto prazo para evitar as armadilhas do percurso...
rui.grilo@mail.telepac.pt www.discutiragestao.net
____
Rui Grilo, Gestor, colaborador do painel "Discutir a Gestão"
Comentários (1)
Publicidade
Acções do PSI 20




